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sábado, 19 de janeiro de 2013

Harold Bloom: "Não me defino como crítico literário, sou um professor de escola"


Harold Bloom

Lúcia Guimarães 

Os visitantes da casa na rua bucólica de New Haven, em Connecticut, recebem instruções precisas para não tocar a campainha. Devem abrir a porta destrancada e ir direto à segunda sala. Lá, o anfitrião vai começar por satisfazer a própria curiosidade sobre detalhes mundanos da vida da repórter.

Harold Bloom é caso único na história da crítica literária do último meio século. Um autor prolífico, erudito, popular, que seduz e enfurece. Aos 82 anos, maltratado por doenças que lhe restringem a mobilidade, seu vigor criativo é formidável. Não para de escrever, dar aulas, analisar a prosa e a poesia dos alunos e, apesar da dor na perna e da má circulação que o obriga a levantar da cadeira em intervalos curtos, demonstra um prazer evidente em conversar.

"Eu não me defino como crítico literário", diz Bloom, que nunca será acusado de modéstia. "Eu digo que sou um professor de escola" (ele dá aula na Yale University). A afirmação o leva a uma das muitas reminiscências que haveria de compartilhar naquela tarde, alternando nostalgia e alguma intriga, com ar maroto, sempre envolvendo alguém como "Philip" (Roth) e "Cormac" (McCarthy), citados assim, pelo primeiro nome, ou por apelidos, se é que restou à interlocutora alguma dúvida de que ele esteve no centro da história literária recente americana. "Havia um homem muito mau", diz, "chamado William Styron". Bloom recorda que estava jantando na casa do grande poeta Robert Penn Warren (para ele "Red", o apelido do escritor ruivo); todos "já tinham bebido um pouco demais" quando Bloom comentou com Warren - "com toda razão", deixa claro - que ele devia continuar escrevendo poesia, já que seus romances recentes não tinham a mesma qualidade. "A sua opinião não importa", cortou Styron, autor de A Escolha de Sofia e das memórias da depressão, Perto das Trevas. "Você é apenas um professor de escola." Bloom diz que o comentário foi o mais memorável que ouviu de um "mau escritor". "Como me acusar de ter a melhor e mais nobre profissão do mundo?" O professor conclui a anedota lembrando que Styron já faleceu e oferecendo "um aforismo bloomiano pelo qual quero ser lembrado: Se nós não falarmos mal dos mortos, quem vai falar?"

Fui bater à porta de Harold Bloom para conversar sobre A Anatomia da Influência - Literatura Como Um Modo de Vida, que sai no Brasil pela Objetiva, no segundo semestre (leia crítica abaixo). Ele considera o livro uma síntese de sua trajetória crítica. O título se refere à obra que talvez será considerada a mais inovadora de sua carreira, A Angústia da Influência - Uma Teoria da Poesia, lançada em 1973, marco da crítica literária, em que Bloom trata da luta do poeta para criar sob a influência de seus precursores.

Entre a angústia e a anatomia, Bloom diz que se tornou mais suave. Mesmo com mais de 50 edições em dezenas de línguas, o autor considera A Angústia da Influência terrivelmente difícil e não tem certeza se entende a obra. Mas há outras mudanças. Em A Anatomia da Influência, Bloom se diz inspirado pelo poeta francês Paul Valéry que escreveu "sobre a influência da mente sobre si mesma". Seu novo livro, ele diz, é sobre a influência do autor sobre si mesmo. A outra diferença: "Antes, eu defendia a literatura da contracultura. Agora a defendo da politização e da ruptura da tecnologia, que impôs" - e ele aponta para meu tablet - "a linguagem visual."

A suavidade adquirida ao longo do tempo se expressa no que Bloom manifesta ser o "amor literário", definido por ele como um estado de intensa ambivalência, "da culpa da herança, e da tristeza de ter chegado tarde demais".

A originalidade da obra do crítico não exclui a repetição e em Anatomia da Influência ele revisita seu elenco de suspeitos, especialmente William Shakespeare. Depois de lançar Shakespeare, A Invenção do Humano, um de seus maiores best-sellers, Bloom conta que se sentiu irritado por perguntas sobre a tal invenção. "É claro que não estava dizendo que foi como Thomas Edison inventando a lâmpada", diz. "O caráter sempre existiu, mas não sei se é o caso com a personalidade. Shakespeare é único porque ele mudou a maneira como nos vemos. Em Shakespeare, caráter é personalidade, é destino." E lembra outro episódio. Estava falando em público quando lhe perguntaram sobre alguma boa adaptação de Shakespeare para o cinema. Respondeu que o diretor que mais entendeu a obra do inglês foi o japonês Akira Kurosawa. "Ele não falava inglês, mas o poder de Shakespeare vai muito além do da linguagem." A invenção, ele observa, é a essência da poesia. "Sem a poesia, nada teria vindo a este mundo. Shakespeare nos mostrou o que estava à nossa volta e não conseguíamos enxergar."

Bloom não se ilude sobre o seu lugar na cultura contemporânea americana em que jovens, ele escreve, "despencam no precipício do oceano cinza da internet". Não há mais um Walt Whitman, o autor como consciência de um país, ele lamenta, porque não existe mais um público nacional. "Nosso maior romancista em atividade, Thomas Pynchon, é um autor difícil. Nosso maior poeta, meu amigo John Ashbery, é um poeta difícil. Nosso possível maior dramaturgo, Tony Kushner, chegou perto de falar a todo país, com Anjos na América, mas não escreveu nada com a mesma força, nos últimos 20 anos."

Harold Bloom demonstra uma franqueza bem-vinda sobre os escritores mais jovens. Em vez de alardear o fim do romance, declara que não tem competência para ler romancistas 50 anos mais moços do que ele. Logo em seguida, afirma que seu melhor aluno, Lucas Zwirner, ainda inédito, é um evidente romancista em formação. "Eu li gente como Jonathan Franzen, David Foster Wallace e variados Safran Foers, mas a sensibilidade mudou tanto que não devem confiar na minha reação."

Bloom aponta para o teto e diz que o sótão de sua casa abriga um manuscrito não publicado, Freud, Transferência e Autoridade, que encosta em 900 páginas e vai ser um problema póstumo de seus executores literários. "A minha ambivalência sobre Freud se tornou excessiva", confessa. Hoje, ele vê o criador da psicanálise não como cientista, mas como o grande ensaísta moral, o Montaigne do século 20. "Uma definição que ele detestaria."

Por falar em livros longos, Bloom diz que está quase acabando de escrever outro, "especialmente importante para mim". O título, que cita um poema de Ralph Waldo Emerson, será: Os Espíritos Sabem Como Se Faz, Tradição Oculta na Literatura Americana, um exame da obra de dez autores.

Enquanto trocamos histórias pessoais, o professor dá outro sinal do caminho percorrido na carreira literária de seis décadas, ao anunciar que espera um telefonema do New York Times. "Chegou a hora", diz, "embora eu não tenha a menor intenção de morrer, de atualizar o meu obituário, que eles escreveram há vários anos. E o pior, não vou poder nem ler quando ficar pronto." Ele disca o número da repórter e diz: "Estava me sentindo tão vivo, que tarefa melancólica". Mas logo brinca: "... considerando a alternativa..." A repórter o consola, dizendo que vai telefonar de volta em cinco anos, já que ele não para de produzir. "Em 5, 10 ou 15 anos", protesta o professor e conta que três ciganas, em três países, leram a palma da sua mão. Previram que ele vai viver 89 anos, 3 meses e 11 dias e admite, sorrindo, esperar um certo nervosismo na manhã do décimo primeiro dia. "No fim das contas", ele diz, contemplativo, "o que eu faço é salvar as aparências, no sentido mais decente da palavra. É tentar preservar a continuidade da literatura e do pensamento do Ocidente."

Fonte: Entre os livros como um modo de vida - Estadão

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cantora Patti Smith ganha prêmio literário nos EUA e implora à editoras manutenção do modelo tradicional de livro

Patti Smith


A roqueira Patti Smith estava entre as grandes vencedoras na cerimônia de entrega do Prêmio Nacional do Livro (National Book Awards) dos Estados Unidos na quarta-feira (17/11) por seu livro de memórias "Só Garotos". Ela recebeu o prêmio às lágrimas e pediu que as editoras não deixem a tecnologia acabar com os livros tradicionais.

Tom Wolfe, autor de best-sellers como "A Fogueira das Vaidades", "Os Eleitos" e "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", venceu a medalha pela contribuição às letras norte-americanas.

Jaimy Gordon superou autores como Peter Carey e Nicole Krauss ao ganhar o prêmio na categoria de ficção por "Senhor de Misrule", publicada pela McPherson & Co.

A noite teve espaço para piadas sobre a condição atual da indústria editorial de livros, que está vivendo um período conturbado com o surgimento do mercado de livros eletrônicos.

Cantora e compositora Patti Smith recebe prêmio no National Book Awards por seu livro de memórias
Smith, uma cantora, compositora e poeta norte-americana de 63 anos, se emocionou ao receber o prêmio de não-ficção por "Só Garotos", sobre suas dificuldades durante a juventude e o relacionamento com o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe.

"Não existe nada mais belo que um livro, o papel, a fonte, o tecido", disse Smith, cujo livro foi publicado pela Ecco, da HarperCollins. "Por favor, não importa o quanto avancemos tecnologicamente, por favor nunca abandonem o livro."

Wolfe, de 79 anos, um dos defensores do estilo "novo jornalismo" nos anos 1960, lembrou de seus primeiros trabalhos de reportagem e deu o conselho aos futuros romancistas: "Primeiro, deixe o prédio e depois sente para escrever."

O prêmio de poesia foi para Terrance Hayes por sua quarta coleção "Lighthead", da Penguin Books.

Kathryn Erskine venceu o prêmio de literatura para jovens, por "Mockingbird", publicada pela Philomel Books, da Penguin Young Readers Group.

Na lista de um dos prêmios literários mais importantes dos Estados Unidos estavam 13 mulheres entre os 20 finalistas. Segundo a Fundação Nacional do Livro norte-americana foi o maior número de mulheres indicadas na história da premiação. Cinco finalistas disputam cada uma das quatro categorias, e o vencedor recebe 10 mil dólares.


Fonte: Folha de São Paulo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

George Bush - uma autobiografia em defesa da Guerra do Iraque


O ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (2001-2009) voltará nesta terça-feira ao cenário público com o lançamento de um aguardado - embora pouco surpreendente-- livro de memórias.

As 481 páginas de "Decision Points" (pontos decisivos, em tradução livre) não surpreenderão aqueles que forem às livrarias para saber o que levou Bush a declarar a guerra ao Iraque, como o furacão Katrina o afetou ou por que ele autorizou o uso das simulações de afogamento, técnica de tortura, no interrogatório de terroristas.

Todas essas respostas já foram muito exploradas em uma extensa cobertura da imprensa, ansiosos por trazer de volta à cena política o ex-presidente que encerrou seu mandato com o índice de impopularidade mais alto da história moderna do país, de 76% (mas que aparece cada vez melhor ao longo do mandato de seu sucessor, o democrata Barack Obama, e a lenta recuperação econômica).

Mas enquanto todos falam de seus deslizes políticos, como aquele no qual reconhece que pensou em se livrar do vice-presidente Dick Cheney na campanha pela reeleição em 2004, Bush quer afastar-se o máximo possível deles.

Em entrevista a Oprah Winfrey que será transmitida nesta terça-feira, Bush afirmou que não é um cientista político e se recusou a comentar as eleições legislativas que nesta semana fizeram o Partido Democrata perder a maioria na Câmara para seu Partido Republicano.

O ex-presidente também prefere não criticar seu sucessor, Barack Obama, quem ele insiste em tratar da forma como ele "gostaria de ter sido tratado". "Obama tem um trabalho muito difícil pela frente, acreditem", disse Bush. "Ele terá muitos críticos, e não precisa que eu seja um deles".

Bush inclusive elogiou o atual chefe de Estado, ao lembrar que seu carisma o impressionou antes das eleições de 2008.

Erro

O furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans em 2005, foi responsável por uma enxurrada de críticas a Bush após a publicação de uma imagem que o mostra a bordo do Air Force One contemplando a região atingida.

"Foi um erro enorme", destacou o ex-presidente em entrevista que a cadeia NBC transmite nesta segunda-feira, e na qual também afirma que a imagem o mostrava "distante e indiferente", em um momento no qual ele enfrentava uma série de críticas por sua lenta resposta à catástrofe.

O Katrina também originou o que Bush considera "um dos pontos mais baixos" de sua Presidência --quando o rapper Kanye West o chamou de racista e disse que ele não se importava com os negros que compõem a maioria da população de Nova Orleans.

Os comentários de West afetaram muito a imagem do ex-presidente, assim como as críticas à sua gestão na Guerra do Iraque e os protestos pelos métodos que recomendou para os interrogatórios a terroristas da Al Qaeda após os atentados de 11 de setembro de 2001.

"Pensei nas 2.971 pessoas que foram afastadas de suas famílias em 11 de setembro e em meu dever de proteger meu país de outro ato terrorista", escreve em relação às simulações de afogamento, uma prática que motivou amplas investigações dentro da CIA, a Agência Central de Inteligência americana.

A autobiografia de Bush tenta humanizar a imagem do ex-presidente americano. E, nessa tarefa, os desafios pessoais - como o momento em que decidiu largar o álcool para vencer a dependência - são a arma de Bush para limpar sua imagem, após meses de discrição em seu rancho do Texas.


Fonte: Folha

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"Literatura é negação da realidade" diz Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa

O peruano Vargas Llosa é prêmio Nobel de Literatura 2010

Para o peruano Mario Vargas Llosa, recém-anunciado vencedor do Nobel de literatura, ao menos três brasileiros poderiam ter ganho o prêmio: Guimarães Rosa (1908-1967), Jorge Amado (1912-2001) e Euclydes da Cunha (1866-1909).

O primeiro, segundo ele, foi prejudicado pela dificuldade de se traduzir sua obra. O segundo, pela característica de escritor popular.

Para Vargas Llosa, "Os Sertões", de Euclydes, no qual se baseou para escrever "A Guerra do Fim do Mundo", permite compreender não só o conflito de Canudos, mas a América Latina.

Em conversa com jornalistas da Folha no auditório do jornal, ontem à tarde, o Nobel disse que a literatura é uma negação da realidade "queira ou não o escritor".

Autor de romances baseados em ditadores latino-americanos, disse que não escreverá mais sobre esses personagens. "Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Eles repetem a si mesmos como maníacos."

Vargas Lllosa falou pouco sobre seu Nobel. Confirmou a história de um xamã andino que, a partir de folhas de coca, previu que ele ganharia o prêmio. "Não acreditava muito na coca, mas parece que ela tem sabedoria".

Leia trechos do bate-papo:

Nobel brasileiro
Não está certo [que nenhum brasileiro tenha recebido o prêmio]. Deveriam ter recebido. Guimarães Rosa mereceria, sem dúvida. É um dos grandes escritores latino-americanos de seu tempo, pelo vigor e pela ambição da obra, pelo trabalho linguístico extraordinário.

Um dos problemas que teve é que sua obra é muito difícil de traduzir. As traduções não conseguem estar à altura do que são os livros, sobretudo "Grande Sertão: Veredas", uma obra-prima absoluta.

Amado no céu
Jorge Amado teve grande reconhecimento universal. Dizia que a Academia Sueca não havia lhe dado o prêmio por ser tão popular.

Quando começou a escrever, parecia um escritor velho. Seus primeiros romances são muito sérios, as pessoas quase não riem. Era mais ideológico, de denúncia social. À medida que envelhecia, rejuvenesceu como escritor.

Euclydes e "Os Sertões"
A mim impressionou tanto a história de Canudos quanto o caso do próprio Euclydes da Cunha, porque ele viveu essa guerra de uma maneira tão dramática e tão desgarrada que permitia ver até que ponto um país inteiro viveu um mal-entendido tão grande. É o que explica a matança.

A matança é resultado desta incomunicabilidade entre dois segmentos, um moderno e outro primitivo. Com variantes, essas divisões dogmáticas intolerantes, intransigentes, estão por trás dos grandes desgarramentos, das grandes tragédias sociais e políticas que a América Latina viveu em sua história.

Talvez por isso me fascinou tanto esse livro de Euclydes da Cunha. Porque, lendo-o, entende-se não só o que passou, mas a América Latina.

Negação da realidade
A literatura é uma refutação da realidade, queira ou não o escritor. Se estivéssemos contentes com o mundo tal como é, com a vida tal como é, não inventaríamos outro mundo. Para quê?

Literatura e ditadura
Um bom leitor de literatura é uma pessoa inquieta frente ao mundo e à realidade. Isso sempre foi muito bem entendido pelas ditaduras, todas. Porque não há ditadura que não queira controlar essa atividade que é a criação de mundos fictícios. Têm uma desconfiança natural pela literatura. Intuem que nela há algo perigoso. E creio que têm razão. Há algo perigoso na quimera que é a literatura.

Jornalismo e ficção
Não teria escrito boa parte dos livros que escrevi não fosse o jornalismo. Foi uma fonte maravilhosa de experiências. Para um jornalista, a linguagem tem que ser inevitavelmente um meio. Para o escritor, também, mas, ao mesmo tempo, do ponto de vista estético, é sempre um fim. Vale por si mesma.

Chega de ditadores
[Questionado se o presidente da Venezuela, Hugo Chávez seria um bom personagem] Escrevi bastante sobre ditadores. Escrevi "Conversação na Catedral" sobre a ditadura de [Manuel] Odría [que vigorou no Peru entre 1948-1956]. "A Festa do Bode" sobre a ditadura de [Rafael] Trujillo [na República Dominicana, 1930-1961]. Creio que Chávez é como um híbrido de Odría, de Trujillo. Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Os ditadores se repetem como maníacos. Não tenho vontade de escrever mais sobre ditadores.

García Márquez
[Questionado se o colombiano, com quem tem desavença, o cumprimentara pelo Nobel] Esse é um tema que vamos deixar para nossos biógrafos, se os merecermos.

Fonte: Folha

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Filho do Hamas: a história do filho do fundador do mais radical grupo terrorista do Oriente Médio






O autor do livro Filho do Hamas fala sobre sua conversão ao cristianismo, de ser espião de Israel e de ter envergonhado sua família.


“Estou totalmente consciente de que para quase todos eu sou um traidor”, diz Mosab Hassan Yousef. “Para minha família, para minha nação, para meu deus [Alá], eu cruzei todas as linhas vermelhas, infringi todas as leis em minha sociedade. Não restou nenhuma que eu não tivesse cruzado”.


Mosab, que tem 32 anos, é filho do sheik Hassan Yousef, um dos fundadores e líder do grupo terrorista palestino Hamas. Durante toda a década passada, desde a segunda intifada (rebelião dos palestinos) até a atual paralisação [das negociações de paz], ele trabalhou juntamente com seu pai na Margem Ocidental. Durante aquele tempo, o jovem Yousef também abraçou secretamente o cristianismo. E, como ele revela em seu livro Son of Hamas [Filho do Hamas], lançado nos EUA no início de março, tornou-se um dos principais espiões do Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel.


A notícia dessa conversão dupla reverberou em todo o Oriente Médio. Um dos contatos de Yousef no Shin Bet confirmou o relato dele ao diário israelense Haaretz. O Hamas – já abalado devido ao assassinato de um chefe militar importante em Dubai no mês de janeiro – chamou essas afirmações de propaganda sionista. Da prisão israelense em que se encontra desde 2005, o sheik Yousef divulgou uma declaração na qual ele e sua família afirmam: “Repudiamos completamente o homem que era nosso filho mais velho e que se chamava Mosab”.


Nos últimos dois anos, Mosab Yousef viveu em San Diego (Califórnia/EUA), onde evitou chamar a atenção sobre si por motivos de segurança. Os EUA estão analisando o pedido de asilo político feito por Mosab e, até sua confissão de espionagem e da repentina onda de publicidade que acompanhou essa confissão, só o conheciam como sendo o filho de um terrorista que às vezes freqüenta igrejas evangélicas na Califórnia. Com o livro, ele pretende iniciar uma nova etapa de vida na América.


Yousef, cujos olhos grandes e simpáticos se destacam em sua face oval, diz que ele mesmo ficou confuso durante muitos anos, e entende que muitas pessoas também ficarão. Sua família foi envergonhada e seus velhos amigos se recusam a acreditar nele. O livro, um thriller ao estilo de Le Carré, envolto em uma história espiritual que está amadurecendo, é uma tentativa de responder ao que ele diz ser “impossível de imaginar”“como eu acabei trabalhando para os meus inimigos, que me machucaram, que machucaram meu pai, que machucaram meu povo”.


“Existe uma explicação lógica”, continua ele em um inglês bastante fluente. “Simplesmente meus inimigos de ontem se tornaram meus amigos. E meus amigos de ontem se tornaram realmente meus inimigos”.


A primeira metade de suas memórias descreve a infância em Ramallah, marcada por laços familiares estreitos e pela ocupação israelense. Ele descreve um pai muçulmano bondoso e incomum, que faz o jantar, que trata bem sua mãe, e que se preocupa com seus vizinhos. Um imã (autoridade religiosa muçulmana) que fora treinado na Jordânia, o sheik Yousef chega à notoriedade em sua cidade natal e, em 1986 – juntamente com outros seis homens, inclusive um clérigo de Gaza preso a uma cadeira de rodas, o sheik Ahmed Yassin – forma o Hamas em um encontro secreto em Hebron. A primeira intifada palestina – ou seja, o primeiro levante palestino – estoura no ano seguinte. Mosab fez sua parte, atirando pedras nos colonos israelenses e nos veículos do exército.

“A maioria das pessoas ouviu falar sobre o Hamas depois que o grupo passou a realizar ataques terroristas”, diz ele, falando de perto da casa de seu agente em Nashville. “O Hamas começou como uma idéia. Digamos, uma idéia nobre – resistir à ocupação”. Aqueles primeiros choques com os israelenses geraram uma violência pior, e o cemitério perto da casa dele começou a ficar cheio de cadáveres. Os palestinos também se voltaram uns contra os outros. A Organização Pela Libertação da Palestina (OLP), corrupta e autoritária, vivia em confronto com o Hamas e com outros grupos que surgiam. Todos eles usavam acusações de “colaboração” como uma desculpa para torturar e matar seus rivais ou os mais fracos.


Yousef afirma ter despertado quando acompanhou pela primeira vez a crueldade do Hamas. Em 1996, foi preso pelos israelenses por comprar armamentos. Yousef diz que apanhou muito e foi torturado na prisão. Foi então que o Shin Bet se aproximou dele. Ele diz que pensou em tornar-se um agente duplo. “Eu queria me vingar de Israel”, escreve ele. Mas quando foi enviado para cumprir sua pena na prisão em Megido, no norte de Israel, diz que ficou mais chocado pela maneira como o maj’d, o braço de segurança do Hamas, tratava seus prisioneiros.


“Todos os dias, havia gritos; todas as noites, torturas. O Hamas estava torturando seu próprio povo!”, escreve ele. Os muçulmanos que encontrou na prisão “não tinham nenhuma semelhança com meu pai” e “eram perversos e mesquinhos... intolerantes e hipócritas”.


Por concordar em trabalhar com o Shin Bet, logo saiu da prisão. Ele diz que estava curioso acerca dos israelenses e rapidamente abandonou sua idéia de se tornar um agente duplo. Embora recebesse dinheiro do Shin Bet e permanecesse na folha de pagamento da agência durante uma década, seus treinadores naqueles primeiros anos não requisitaram muito dele. Eles o encorajaram a estudar e a ser um modelo de filho. Seu nome em código era Príncipe Verde: verde como a cor da bandeira islâmica do Hamas, e príncipe como o descendente da “nobreza” do Hamas.


Durante aqueles anos calmos ele conheceu um taxista britânico em Jerusalém que lhe deu uma cópia do Novo Testamento em inglês e em árabe, e o convidou para participar de um encontro de estudos da Bíblia que era realizado em um hotel. “Percebi que fui realmente atraído pela graça, pelo amor e pela humildade de que Jesus falava”, escreve no livro Filho do Hamas.


Como espião, Yousef não foi totalmente ativado até estourar a segunda intifada, em setembro de 2000. Alguns meses antes, em Camp David, Yasser Arafat, o então chefe da OLP, havia rejeitado a oferta israelense de um Estado palestino em 90% da Margem Ocidental tendo Jerusalém Oriental como capital. De acordo com o Yousef, Arafat decidiu que precisava de uma outra insurreição para ganhar de volta a atenção internacional. Então, buscou o apoio do Hamas através do sheik Yousef, escreve o filho, que o acompanhou ao complexo de Arafat. Aqueles encontros aconteceram antes que as autoridades palestinas encontrassem um pretexto para a segunda intifada. Esta ocorreu quando Ariel Sharon, o então primeiro-ministro de Israel, visitou o Monte do Templo em Jerusalém, local onde está a mesquita Al-Aqsa e o Domo da Rocha. O relato de Yousef ajuda a esclarecer o registro histórico de que o levante fora premeditado por Arafat.


Yousef me disse que ficou horrorizado com a violência sem motivo desatada por políticos que queriam subir “nos ombros dos pobres e das pessoas religiosas”. Ele disse que os palestinos que atenderam ao apelo “iam como um boi vai para o matadouro, e achavam que estavam indo para o céu”. Portanto, como escreve em seu livro, “com a idade de vinte e dois anos, eu me tornei a única pessoa do Shin Bet infiltrada no Hamas que poderia penetrar as alas militar e política do Hamas, bem como de outras facções palestinas”.


Yousef reivindica para si mesmo alguns golpes significativos de inteligência, e diz que ainda não está contando tudo para o mundo. Logo no início, ele foi o primeiro a descobrir que as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, um grupo terrorista nascido durante a segunda intifada, eram compostas pelos guardas de Arafat, sustentados diretamente por doadores internacionais. Ele diz que descobriu o fabricante de bombas palestino mais letal e frustrou as conspirações de assassinato contra o presidente Shimon Peres, então ministro do Exterior, assim como de um rabino muito conhecido. Mosab diz que desbaratou celas de homens-suicidas prontos para atacar Israel. E que ajudou a convencer seu pai a ser o primeiro líder importante do Hamas a oferecer uma trégua a Israel.


O treinador de Mosab, chamado “Capitão Loai”, agora aposentado do Shin Bet, confirmou muitas dessas histórias ao Haaretz. O jornal disse que o Shin Bet considera Yousef “um agente da maior confiança e profissionalismo”.


Mosab esforça-se por se justificar, mas finalmente “a questão é se eu sou um traidor ou um herói aos meus próprios olhos”.


Portanto, estamos de volta ao por quê?


A motivação, diz ele, foi salvar vidas.

“Eu já tinha visto mortes demais. Fui testemunha de muitas mortes. (...) Salvar uma vida humana é muito, muito lindo, não importa quem seja. Não são apenas os israelenses que me devem suas vidas. Eu garanto que muitos terroristas, muitos líderes palestinos também me devem suas vidas – ou, em outras palavras, eles devem suas vidas ao meu Senhor”.


Ele diz que usou de sua influência no Shin Bet para conseguir que os israelenses tentassem prender integrantes do Hamas e de outros grupos palestinos em vez de explodi-los com mísseis. Mosab afirma que salvou seu pai do destino do sheik Yassin e de outros líderes do Hamas, a quem os israelenses mataram. Para evitar que o mesmo acontecesse a seu pai, fez um arranjo secreto com o Shin Bet para que o mesmo fosse preso. “Eu sei com certeza que meu pai está vivo hoje, que ele ainda respira, porque eu estava envolvido nisso tudo”.


Yousef tem algo de evangelista em si, mesmo quando insiste que não é um cristão devotado e que ainda está aprendendo sobre sua nova religião. Ele quer que os israelenses e palestinos saibam o que fez por causa do Deus cristão.


“Converti-me ao cristianismo porque fui convencido por Jesus Cristo como um personagem, como uma personalidade. Eu o amei, amei sua sabedoria, seu amor, seu amor incondicional. Não deixei a religião [islâmica] para me colocar de volta em uma outra rígida estrutura religiosa. Ao mesmo tempo, é bonito ver que o meu Deus existe em minha vida e vê a mudança em mim. Percebo que, quando ele existir em outras pessoas do Oriente Médio, haverá mudanças.Não estou tentando converter toda a nação de Israel e toda a nação da Palestina ao cristianismo. Mas, pelo menos, a gente pode ensinar-lhes sobre a ideologia do amor, a ideologia do perdão, a ideologia da graça. Esses princípios são grandiosos independentemente de onde venham, mas não podemos negar que vieram do cristianismo”.


Yousef diz que sentiu-se sem ânimo e decidiu parar de trabalhar para o Shin Bet em 2006, mesmo contra a vontade deles. Quem abriu os caminhos para ele foram amigos no sul da Califórnia, que conheceu através dos estudos bíblicos.


Como filho de um clérigo muçulmano, diz que chegou à conclusão que o terrorismo não pode ser derrotado sem uma nova compreensão do islamismo. Assim, reafirma o que foi dito por outros que deixaram o islamismo, tais como a ex-parlamentar e escritora holandesa Ayaan Hirsi Ali.


Perguntei-lhe se considera seu pai um fanático. “Ele não é um fanático. Ele é muito moderado, uma pessoa lógica. O que importa não é se meu pai é fanático ou não, mas que está fazendo a vontade de um deus fanático. Não importa se é um terrorista ou um muçulmano tradicional. No final das contas, um muçulmano tradicional está fazendo a vontade de um deus fanático, fundamentalista e terrorista. Sei que isso é duro de dizer. A maior parte dos governos evita esse tipo de assunto. Eles não querem admitir que essa é uma guerra ideológica."

“O problema não está nos muçulmanos”, continua ele. “O problema está no deus deles. Eles precisam se libertar de seu deus. Alá é o maior inimigo que eles têm. Há 1.400 anos eles têm sido enganados”.


Estas são palavras perigosas. A respeito das ameaças feitas contra a sua vida por islâmicos, ele diz: “Essa não é a pior coisa que pode acontecer. Eu posso conviver com isso, não estou com medo. (...) Os palestinos têm razão para me matar. Alguns israelenses podem querer me matar. Meu alvo não é derrotar meu inimigo. É conquistar a confiança do meu inimigo."

 

Fonte: Beth Shalom



quinta-feira, 8 de julho de 2010

O "X" da questão do conflito existencial

Considerado um "romancista católico" pela crítica, uma alcunha que não gostava, preferia se chamado de escritor que tem como religião o catolicismo, o escritor inglês Henry Graham Greene (1904-1991 - foto) deixou diversos livros de ficção que marcaram a literatura mundial. Greene agrupava sua obra em duas categorias: romances e entretenimentos. Sua marca pessoal era tratar de questões morais e políticas do seu tempo por meio de histórias de suspense, mistério e drama, desenvolvidas em cima de uma meditação subliminar sobre os pecados. Bem que mereceu o Nobel de Literatura, premiação a qual foi indicado algumas vezes, mas que nunca levou.

Um autor que caprichou na ação e enveredou em conjunto as angústias do ser humano. Escritor tão popular, que era difícil de imaginar que há algum tempo não se via obras suas nas prateleiras dos lançamentos. Contudo, após o sucesso da adaptação para o cinema Fim de caso, com Julianne Moore e Ralph Fiennes, seus títulos ganharam reedições.

Entre os quais, o livro O Cerne da Questão (The heart of the matter, tradução de Otacílio Nunes, 400 páginas - Editora Globo). Uma de suas obras mais marcantes, por mostrar os conflitos humanos em seus personagens – outro aspecto de sua obra – e que travam uma guerra impessoal em torno de questões como o livre arbítrio ou a graça. Algo que remete ao catolicismo, religião que Greene abraçou em 1926. Sentidos ocultos em lugares distantes seria uma crítica resumida de suas características narrativas.

Com o brilhante prefácio Nó Górdio, do critico e professor Carlos Vogt, O Cerne da Questão é uma obra séria, bem amarrada ao estilo claro que Greene construiu. Publicado originalmente em 1948, ganha agora uma nova tradução, bem reformulada deste o seu título, anteriormente O Coração da Matéria ao final da narrativa.

Ambientada num país africano da África Ocidental, que sabemos ser Serra Leoa, pelas memórias escritas pelo autor, O Cerne da Questão, narra os problemas enfrentados por Henry Scobie, major da policia colonial inglesa, durante o período da II Guerra Mundial.

 Vivendo naquele local com sua esposa, Louise, uma mulher solitária que adora poesia, que se sente estranha e isolada naquela sociedade. O major inglês sente se responsável por sua felicidade, e tenta ajudá-la, mas traumatizado com a morte da filha em um naufrágio e descontente com tudo ao seu redor, sente incapaz de amar alguém, somente a Deus.

Católico, Scobie prefere enviar sua esposa para a África do Sul, para não a ver sofrer. Principalmente após perder a chance de ser nomeado Comissário, afligindo mais ainda Louise, por suas esperanças pessoais. Nesse ínterim, um novo naufrágio faz reaparecer a dor da perda em Scobie ao testemunhar a morte de uma menina, entre os sobreviventes estão um garoto para quem lê histórias no hospital e Helen Rolt, que fica viúva no acidente e se torna amante do major.

A chegada do novo inspetor, Wilson, que se apaixona por Louise e a chantagem de Yusef, contrabandista sírio que descobre o seu adultério são elementos perturbadores do enredo de O cerne da questão. Scobie se encerra em seu desejo de perfeição à sua esposa, a sua amante, ao mundo, e nesse anseio em ser virtuoso a todo custo se rivaliza com Deus, em seu interior e a punição são a culpa e o castigo.

Um romance realista e na carreira de Greene, o romance é um livro capital. A temática do suicídio no final, colocado em dúvida aos personagens, e que para o leitor seja uma asserção de que o suicídio do protagonista é uma confissão do fracasso diante dos desígnios divinos ou um derradeiro ato de soberba de quem quer governar a própria morte.

Scobie é um personagem que lembra outras figuras que Greene   construiu, como o jovem delator de contrabandistas em O Outro Eu (The man within, 1929), ou o desesperado Pinkie de O Condenado (Brighton Rock, ) ou ainda o sacerdote indigno de O Poder e a Glória (The Power and the Glory). Todas perseguidas por seus infortúnios, com a diferença que o perseguidor e a vítima são uma só pessoa; a caça aqui é simbólica, ou serve, como uma intriga opaca que Greene desenvolve em seu convencionalismo.

Um livro que culpa e expiação são os fios condutores de seus personagens. Vale a pena ler.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Britânica lança primeiro livro aos 82 anos

 
Aos 82 anos, a professora e diretora de teatro Myrrha Stanford-Smith (foto) acaba de lançar no Reino Unido seu primeiro livro, The Great Lie (A Grande Mentira).

A obra é o primeiro volume da triologia prevista no contrato assinado entre a autora estreante e a editora galesa Honno.

O livro aborda, sob a ótica da ficção, a rivalidade entre Shakespeare e o dramaturgo e poeta Christopher Marlowe.

Myrrha Stanford-Smith enviou seus manuscritos à editora depois da boa repercussão de um conto infantil que havia mandado a um programa de rádio da BBC do País de Gales.

Ainda assim, ela diz que não esperava a resposta positiva dos editores. "Eu tive de pôr o fone no gancho e depois telefonar de volta, de tão surpresa que fiquei com a coisa toda", conta. "Eu realmente achava que o manuscrito seria rejeitado."

The Great Lie conta a trajetória de Nick, o filho de 16 anos do conde de Rikesby, que foge para Londres com uma tropa de atores viajantes. Na capital inglesa, acaba chamando atenção de Marlowe.

Myrrha Stanford-Smith trabalhou em Londres com o diretor de teatro Tyrone Guthrie. Mais tarde, tornou-se diretora e professora, até "se aposentar" na ilha de Anglesey, no País de Gales. Lá criou sua própria companhia de teatro, a Ucheldre Repertory Company.

Fonte: G1

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago - a morte do único nobel da literatura em Língua Portuguesa


Morreu nesta sexta-feira (18/06), aos 87 anos, o escritor José Saramago.

A morte de Saramago foi confirmada à imprensa portuguesa pelo seu editor, Zeferino Coelho. "Aconteceu há pouco", disse em entrevista à emissora de televisão RTP. "Estava doente há algum tempo, às vezer melhor outras vezes pior."

Fontes da família confirmaram a agências internacionais que Saramago estava em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde morava há vários anos.

A morte ocorreu por volta das 13h no horário local (8h de Brasília), quando o escritor estava em casa acompanhado da mulher e tradutora, Pilar del Río, informa a agência Efe.

José Saramago havia passado uma noite tranquila. Após ter feito o desjejum de costume e conversado com a mulher, começou a sentir-se mal e pouco depois morreu.

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, Saramago nasceu em Azinhaga em novembro de 1922. Autodidata, publicou seu primeiro trabalho, "Terra do Pecado", em 1947.

Seu trabalho seguinte, "Os Poemas Possíveis", seria lançado 19 anos mais tarde e pelos anos seguintes ele se dedicaria principalmente à poesia e ao jornalismo.

Saramago volta à prosa no final da década de 1970. Seu estilo característico começa a ser definido em "Levantado do Chão" (1980) e em "Memorial do Convento" (1982).

Em 1991, Saramago lança sua obra mais polêmica, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo".

Considerada blasfema, a obra foi excluída de uma lista de romances portugueses candidatos a um prêmio literário pelo Subsecretário de Estado adjunto da Cultura de Portugal, Sousa Lara, sob a alegação de que não representava o país.

domingo, 13 de junho de 2010

Anne Frank: a “face” das vítimas do holocausto nazista



Milhões de pessoas leram "Anne Frank: Diário de uma Jovem", obra que narra o cotidiano de uma garota judia e sua família, de 1942 a 1944, enquanto viviam no anexo secreto, um esconderijo em Amsterdã (Holanda).


O diário é um comovente testemunho sobre a maldade perniciosa dos nazistas. Sobre a obra, o escritor soviético llya Ehrenburg escreveu: "Uma voz fala pelos 6 milhões de judeus mortos; a voz não é de um sábio, nem de um poeta, mas de uma jovem como tantas e tantas outras"

A voz de Anne revestiu o Holocausto de uma face tangível, dando-lhe uma dimensão mais fácil de ser entendida, apesar da dificuldade da mente humana em lidar com tamanho horror. Assim, o Diário de Anne Frank se constitui como um legado sobre o qual ela se manifestou no dia 5 de abril de 1944, ao escrever: "Eu quero continuar a viver depois da minha morte e, por isso, sou grata a Deus por ter me presenteado com o dom de escrever, de conseguir expressar tudo o que está dentro de mim".

Uma curta vida

A vida da jovem destinada a ser a voz dos milhões de judeus mortos durante o Holocausto foi curta, mas significativa. Annelise Marie nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, e era a segunda filha de Otto e Edith Frank, abastados judeus alemães. Os pais a chamavam de Anne.

Em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, os Frank decidiram viver em Amsterdã, na Holanda. Otto se mudou imediatamente, pois se apresentara a oportunidade de montar uma franquia, a Opekta Works, para a comercialização de pectina, substância usada na fabricação de geléias. Edith, Anne e a irmã Margot se juntaram a ele, tempos depois. Em Amsterdã, voltaram a desfrutar de liberdade e relativa tranqüilidade, apesar das alarmantes notícias sobre a intensificação da discriminação aos judeus em outras partes.

Nem a tolerante e pacífica Holanda conseguiu escapar da fúria que se abateu sobre a Europa. Em maio de 1940, os exércitos alemães ocuparam o país, a monarquia foi deposta e o austríaco Artur Seyss-lnquart, conhecido por seu brutal anti-semitismo, assumiu o governo, dando início à campanha de perseguição judaica.

Otto, que não tinha ilusões sobre os nazistas, imediatamente tomou medidas para proteger sua família. Em setembro de 1941 transferiu a titularidade da firma a um dos ajudantes, Jo-Hannes (Jo) Kleiman, apesar de continuar à frente do empreendimento. Kleiman o ajudou a planejar o "mergulho", como era chamada a passagem de judeus para a vida na ilegalidade. Eles transformaram num esconderijo perfeito um anexo vazio na casa 263 da rua Prisengracht. Era um prédio atrás do escritório onde ficava o depósito da firma. Algum tempo depois, Otto pediu ajuda a mais três antigos e fiéis funcionários: Victor Krugler, Miep Gies e Bep Voskuij. Junto com Jo Kleiman, compunham o quarteto dos "Ajudantes".

No dia do seu 13° aniversário, 12 de junho de 1942, Anne recebeu de presente um diário. Ela não imaginava a importância que este teria. Quando, em 5 de julho, sua irmã Margot foi convocada pela Gestapo, os Frank decidiram que não podiam adiar nem mais um minuto o "mergulho". Assim, no dia seguinte passaram para a clandestinidade. Uma semana mais tarde, juntou-se a eles o casal Van Pels, sócios e amigos, e o filho Peter. Em novembro chegou o último ocupante, Fritz Pfeffer.

Um velho rádio, ao qual viviam colados, era, além dos "Ajudantes", seu único contato com o mundo exterior. Todos os cuidados eram necessários para que a vizinhança e os demais funcionários da empresa, principalmente os que trabalhavam no depósito, não suspeitassem que ali havia judeus escondidos.

Surpreendendo pela sua maturidade apesar dos 14 anos, Anne descreveu no diário, com pormenores, seu cotidiano e o dos outros "ocupantes". A sensação de estarem presos sem poder ver ainda que uma nesga do céu e o medo de serem descobertos estavam sempre presentes. Em vários trechos Anne dá detalhes das crescentes restrições e perseguições nazistas contra os judeus. Em março de 1944, a adolescente ouviu uma transmissão da rádio inglesa em que Gerrit Bolkestein, ministro do governo holandês no exílio, convidava os cidadãos a preservarem documentos e histórias pessoais sobre a guerra. A jovem então decidiu que ao término do conflito publicaria um livro baseado em seu diário.

Apesar do medo e do sofrimento, Anne nutria esperanças – prova d de que desconhecia a real face do Holocausto. Em uma de suas últimas anotações, em 15 de julho de 1944, escreveu: "Vejo o mundo se transformar, gradualmente, em um grande deserto, ouço o trovão se aproximando, o mesmo que nos destruirá a todos. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá...". O diário de Anne Frank termina no dia 1° de agosto, três dias antes de sua prisão. Foram as últimas palavras que escreveu.

A  prisão

Em 4 de agosto de 1944, após a denúncia, a Gestapo invadiu o escritório da empresa e imediatamente se dirigiu à entrada do "Anexo Secreto", obrigando Victor Kugler a abri-lo. Seus ocupantes, o próprio Victor e Jo Kleiman foram presos. Assim que os nazistas deixaram o local, Miep Gies e Bep Voskuijl voltaram ao esconderijo e encontraram cadernos e anotações de Anne espalhados pelo chão,  que recolheram e guardaram juntamente com vários álbuns de fotos. As jovens decidiram, então, que Miep os guardaria para devolvê-los a Anne assim que a guerra terminasse. A mobília do Anexo foi confiscada e removida, por ordem da Gestapo.

No dia 3 de setembro todos os ocupantes do Anexo foram juntados a outros mil judeus, no último trem que saiu de Westerbork para Auschwitz, na Polônia. Testemunhas contam que Anne, Margot e Edith ficaram juntas até as duas irmãs serem transferidas, em outubro, para Bergen-Belsen, na Alemanha. No mês seguinte, Edith adoeceu, morrendo em janeiro de 1945, aos 44 anos.

Em Bergen-Belsen, para onde as jovens foram levadas, as condições de vida eram ainda piores que em Auschwitz e as duas irmãs logo contraíram tifo. Doente e muito fraca, Margot não resistiu, vindo a falecer em março com apenas 19 anos. A morte da irmã fez em Anne o que nada até então  fora capaz de fazer - quebrar seu espírito. Alguns dias mais tarde, faleceu. Não se sabe ao certo quando, mas a data universalmente aceita é 31 de março de 1945. Anne tinha 15 anos. Apenas algumas semanas depois, em 15 de abril, o campo foi libertado pelo exército inglês.

Das oito pessoas do "Anexo Secreto", apenas Otto sobreviveu, por milagre. Havia sido enviado para o barracão de doentes de Auschwitz, em novembro de 1944, enquanto outros prisioneiros do campo, cerca de 11 mil, evacuados pelos nazistas à medida que os russos avançavam, foram levados a pé nas terríveis Marchas da Morte, das quais poucos sobreviveram. E o pai de Anne se encontrava ainda lá quando, no dia 27 de janeiro de 1945, o campo foi libertado pelas forças soviéticas.

Dos 140 mil judeus que viviam na Holanda e se registraram junto às autoridades alemãs, 107 mil foram deportados. Desse total, apenas 5.500 retornaram. Cerca de 24 mil pessoas conseguiram esconder-se, 8 mil das quais foram capturadas. Apenas 35 mil judeus conseguiram sobreviver ao Holocausto na Holanda. Ou seja, 70% dos judeus holandeses foram vítimas da Shoá, um índice superior a qualquer outro registrado nos países ocupados pela Alemanha, na Europa Ocidental.

O legado de Anne Frank

A viagem de Otto de volta para Amsterdã durou vários meses. No trajeto, foi informado por uma amiga de Edith sobre a morte dela, em Auschwitz. Em junho, ele chegou à capital holandesa, onde encontrou, ainda funcionando, sua empresa Opekta, agora dirigida por Jo Kleiman. Procurou, desesperado, qualquer informação sobre o paradeiro das duas filhas, mas no mês seguinte foi obrigado a aceitar o fato de que não haviam sobrevivido. Miep lhe entregou então os cadernos que encontrara, dizendo: "Este é o legado de sua filha Anne para você".

Otto nunca desconfiara da existência daqueles registros. Estimulado por amigos, decidiu publicar o diário, mas não encontrou nenhuma editora interessada. Os manuscritos acabaram nas mãos do casal Romein, historiadores holandeses. Impressionado com o material, o Dr. Romein escreveu um artigo, "A Voz de uma Criança", para o renomado jornal Het Parool, onde afirmou: "Este diário de aparência infantil incorpora toda a hediondez do nazismo de forma muito mais visível e contundente do que todo o conjunto de evidências apresentadas perante o Tribunal de Nuremberg".

O artigo despertou o interesse de uma editora e, em junho de 1947, o "Diário de Anne Frank" foi publicado na Holanda, pela primeira vez. Otto conseguira realizar o desejo da filha: ser escritora. Desde sua publicação, o "Diário" foi traduzido para 67 idiomas, tornando-se um dos livros mais lidos no mundo. Seu texto deu origem a produções de televisão, cinema, teatro e, até mesmo, uma ópera.

66 anos depois

Em 9 de abril de 1944 Anne escreveu: "Um dia, esta guerra terrível acabará. Há de chegar à hora em que novamente seremos considerados seres humanos e não apenas judeus". Como já dissemos, seu diário termina no dia 1° de agosto de 1944. Ela não deixou nada escrito sobre os meses que passou nas mãos dos nazistas e sobre os campos de concentração. Anne Frank tornou-se para muitos a "face" de milhões de vítimas da Shoá, sem rosto e sem nome. 

O escritor Primo Levi, que sobreviveu a Auschwitz, explica: "Uma única Anne Frank nos emociona mais do que milhares de outros que sofreram tanto quanto ela, mas cujos rostos permaneceram na sombra. Talvez seja melhor desta forma, pois se tivéssemos que absorver o sofrimento de todas essas pessoas, talvez não estaríamos mais vivos".


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