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quarta-feira, 27 de junho de 2012

O sexo do diploma - considerações e reflexão sobre a lei que permite a flexão de gênero em diplomas


Adriana Natali

As mulheres agora sairão da escola com o grau ou profissão correspondente ao sexo registrado no diploma: doutora, engenheira, mestra, bacharela...



As mulheres são maioria no ensino superior brasileiro. Segundo o Censo da Educação Superior, do MEC, mais da metade (57%) dos quase 6,4 milhões de universitários do país é formada pelo público feminino. A força da mulher nessa área deve ganhar visibilidade com a lei, sancionada em 3 de abril, que determina o uso, em diplomas, da flexão de gênero para nomear profissão ou grau.

A presidenta Dilma Rousseff transformou na lei 12.605 o projeto 6.383 de 2009, que por sua vez teve origem em outro projeto de lei, de 2005, de autoria da então senadora Serys Slhessarenko. Segundo a lei, as instituições de ensino públicas e privadas devem expedir diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido. O artigo 2º da lei indica que as pessoas já diplomadas podem requerer, de graça, emissão de seus diplomas com a correção.

Mal nasceu, a lei causa alvoroço. Alguns especialistas consideraram a iniciativa um erro, por confundir o título com o tratamento à pessoa. Em parte, porque usar o gênero masculino para denominar a profissão ou o grau obtido por mulheres é considerado uma tradição do idioma. A pessoa (mulher ou homem) recebe o título de "doutor", mas depois, se for o caso, é chamada de "doutora". A discussão talvez se deva ao fato de o título acadêmico flutuar no discutível domínio do gênero neutro, representado em português pela forma masculina.

Na justificativa da senadora para seu projeto de lei, entretanto, a prática revelaria antes a resistência de um preconceito. A iniciativa visaria, assim, dar um passinho em direção à igualdade de gêneros. Outros já foram dados. O Palácio do Planalto e suas agências de notícias, por exemplo, adotaram o feminino "presidenta" nas referências a Dilma. Escritores e pesquisadores de vários lugares do mundo têm adotado a mesma prática como política de valorização feminina.

Autoestima

Para Antonio Carlos Xavier, professor de português e linguística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a curto prazo a lei pode passar despercebida devido ao recente acesso que a brasileira tem ao ensino superior. A médio e longo prazos, no entanto, a lei pode representar um indicador de autoestima para as profissionais brasileiras.

- A lei instaura um princípio da flexibilidade. Juntamente com a tolerância, a flexibilidade é ingrediente essencial à sobrevivência pacífica entre homens e mulheres de diferentes classes sociais, ideologias, etnias e religiões sobre um mesmo espaço. As grandes mudanças começam com pequenas atitudes. Estas passam pela língua sem a qual aquelas jamais aconteceriam - avalia Xavier.

Professora de português da Universidade de São Paulo, Zilda Aquino concorda com a sanção da lei.

- Numa sociedade machista como a nossa, usa-se só o nome masculino mesmo ao referir o feminino. É apagamento da mulher, sim. Neste século 21, as mulheres já conseguem dirigir empresas como a Petrobras e comandar o país. A lei promove e protege a mulher - afirma.

Facilidade

Há divergências quanto ao peso dado à lei. Paulo Luis Capelotto, procurador aposentado e professor de Direito Internacional, lembra que as profissões são elencadas pelas secretarias da Educação pelo gênero masculino, não por exclusão ou machismo, mas para facilitar o uso dos termos.

- O artigo 5o da Constituição fala sobre igualdade entre homens e mulheres. A sociedade mudou, a estrutura familiar mudou. O próprio Estado prefere transferir imóveis populares à mulher. Isso demonstra a importância e a responsabilidade dela. A lei só se justifica se for um anseio da sociedade, se vai ao encontro da vontade popular - explica.

Para o gramático Evanildo Bechara, a lei comete enganos de teoria gramatical.

- O gênero do substantivo é inato. Há um animal feminino que se chama "gata" e um masculino que se chama "gato". "Cobra" se aplica tanto a machos quanto a fêmeas. Garanto que a presidente não foi bem assessorada por especialistas em teoria gramatical. Essa lei confunde o título com o uso do gênero. Pela tradição, o masculino engloba os dois. Quando digo: "Almocei na casa de meus tios", tanto me refiro a tios como a tias. O masculino é usado nos diplomas porque engloba o feminino, seguindo a tradição da língua - diz Bechara.

Uso popular

Segundo Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos, do departamento de português da PUC-SP e do Centro de Comunicação e Letras do Mackenzie, a lei contraria o desenvolvimento da língua, em que alterações são sempre resultado do uso popular.

- A tradição fixada pelo uso e pela norma aponta para o registro "doutor", "mestre", quando se trata do título. Quando nos dirigimos à pessoa que porta o título, usamos a marca de gênero, como em "doutora Sônia". Mas ao afirmarmos o título de Sônia, dizemos "doutor em linguística, mestre em língua portuguesa, chefe do setor X, diretor da empresa Y" e assim por diante. Dessa maneira, se a norma linguística é o uso relativamente estabilizado em uma língua, deve-se esperar o desenvolvimento natural do idioma, sem que se criem leis para determinar aquilo que não deve ser determinado aleatoriamente - diz a professora Neusa Bastos.

Histórico

Márcia Molina, doutora em linguística e semiótica pela USP e coordenadora dos cursos de licenciatura da Unisa, diz que discussões sobre o gênero de certas palavras remontam, no Brasil, ao final do século 19, início do 20, quando ainda não havia expressões para designar funções até então nunca exercidas por mulheres. O uso do feminino para "presidente" foi alvo de discussões já naquela ocasião, porque a regra geral de flexão nominal informa que os substantivos terminados em o fazem o feminino em a. Em alguns casos, isso ocorre nos terminados em e, como "elefante/elefanta".

- "Presidente" é palavra de formação latina, que oculta em sua origem uma designação verbal. "Presidente", o que preside. "Residente", o que reside. Mas essa origem se perdeu. Assim, o que temos na memória hoje são os substantivos terminados em e. Como em "elefante", nada obstaria usarmos "residenta", embora soe estranho para muitos - avalia a professora.

Necessidade

O filólogo Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, da USP, avalia que a lei apenas ampara uma necessidade de comunicação já solucionada no cotidiano brasileiro.

- A lei apenas normatiza, no papel, para passar a valer também no papel, o que já é norma na prática cotidiana. Quer dizer: agora, amparadas por lei, as instituições formadoras podem escrever, nos diplomas e certificados que emitem, "doutor fulano" ou "doutora fulana". Assim como já observamos, no dia a dia, quando as pessoas do sexo masculino ou feminino são tratadas pelo título que obtiveram ou pelo nome da profissão para a qual estudaram.

Há quem insista, no entanto, que se trata de lei apenas desnecessária por se dedicar a assunto trivial e dispensável. Como disse a presidente da ABL, Ana Maria Machado:

- É uma perda de tempo e esforço. Não falo como presidente da ABL, mas autora. O país tem outras prioridades. Se o objetivo era igualdade de gênero, que se construam creches, para que as mulheres possam trabalhar e ter independência econômica. Que sejam então proibidos nomes como "Juraci" e "Alcione", que a gente nunca sabe se é homem ou mulher.

Ela não se lembrou de nomes como Agar, Alair, Eli, Ideli, Íris, Lair, Lemir, Naomi e Sadi. Analistas como Ana Maria parecem acreditar que a lei se refere também a substantivos de gênero único, se houver algum na área acadêmica. Mas ninguém receberá diploma com título de "apóstola", "carrasca", "estudanta" e coisas assim, embora haja o feminino de "bacharel", o esdrúxulo e pouco usado "bacharela". Para tal perspectiva, se "presidenta" tem sustentação na tradição do idioma, presidentes "criativos" poderiam muito bem reivindicar o título de "presidento".

Exagero

Manoel Mourivaldo, da USP, considera esse tipo de objeção apenas um exagero.

- A lei vale para as palavras biformes, como "doutor(a)", "mestre(a)", "médico(a)", "administrador(a)", "psicólogo(a)", que têm o mesmo radical ou base, com uma forma para o masculino e outra, com a flexão, para o feminino. Não vale, no entanto, para as palavras uniformes ou comuns de dois gêneros, como "dentista" e "motorista". Nesses casos, a distinção do gênero fica por conta do artigo ou adjetivo: o/a dentista, bom/boa gerente - explica o professor.

Lílian Ghiuro Passarelli, do departamento de português da PUC-SP, reitera que a lei é restrita a diplomas.

- Ninguém vai inventar palavra nova para seguir a lei. Muda apenas, na escrita dos diplomas, o registro da profissão, isso se a língua prevê a forma feminina. Outra obviedade, mas que vale a pena ser dita: quem manda na língua é o povo. Essas duas perspectivas implicam que, como lei, terá de constar nos diplomas a flexão de gênero para nomear profissão ou grau do recém-graduado. Mas como a língua é do povo, afora essas situações formais, o povo continuará usando como preferir, flexionando ou não - diz a professora.

Mesmo assim, Bechara desconfia do resultado.

- Espero que essa lei seja tão desobedecida quanto a baixada em meados do século passado pelo presidente Juscelino Kubitschek, obrigando ao uso do feminino nos cargos de repartições públicas e que acabou não pegando - diz Bechara.

Desconfiança

De todo modo, que mal há em que uma mulher receba o título oficial, registrado no diploma, de "doutora" em vez de "doutor"? Ou de "mestra" em vez de "mestre"? 

- Quem quiser encontrar motivos para criticar a lei tem somente a opção de acusá-la de ser óbvia. Mas ser óbvio, às vezes, é necessário. Parece ser o caso dessa lei, que, talvez sem querer, tenha nos mostrado o processo ideal para o surgimento de toda e qualquer lei: primeiro, observa-se o fato que é da prática cultural de uma sociedade, considerando seus valores e não valores morais e éticos, para depois, pela escrita, torná-lo válido juridicamente - retruca Manoel Mourivaldo, da USP.

Se depender de linguistas como ele, não há motivo para estranhar a lei. Desde que a flexão de gênero se limite a palavras consagradas, como "doutora", "mestra", "médica", "en­genheira" e outras já consolidadas ou que venham a incor­porar-se à língua, não há razão para choradeiras.

terça-feira, 27 de março de 2012

Palavras travam luta pela sobrevivência, diz estudo


Alison Flood

As palavras competem diariamente numa luta quase darwiniana pela sobrevivência, revelou uma pesquisa nova em que cientistas analisaram mais de 10 milhões de palavras usadas nos últimos 200 anos.

Tirando material do enorme projeto do Google de digitalização de livros, a equipe internacional de acadêmicos rastreou o uso de todas as palavras registradas em inglês, espanhol e hebraico ao longo do período de 209 anos compreendido entre 1800 e 2008. Os cientistas --entre os quais estão Joel Tenenbaum, da Universidade de Boston, e Alexander Petersen, do Instituto Lucca de Estudos Avançados do MIT-- disseram que o estudo mostra que "as palavras são atores que competem em um sistema de recursos finitos".

Do mesmo modo como empresas financeiras disputam participação em um mercado, as palavras competem para ser usadas por oradores ou escritores e, com isso, capturar a atenção de leitores ou ouvintes.Os acadêmicos descobriram que houve "um aumento drástico no índice de morte de palavras" na era impressa moderna. Eles a atribuem ao uso crescente de corretores ortográficos automáticos e à adoção de procedimentos de edição mais rígidos, que eliminam erros de aplicação e ortográficos.

"A maioria das mudanças no vocabulário vistas nos últimos dez a 20 anos se deve à extinção de palavras incorretamente grafadas e de erros de impressão absurdos e, também, à queda no índice de surgimento de novas variantes incorretamente grafadas e de palavras genuinamente novas", escrevem os cientistas no estudo, que acaba de ser publicado. "As palavras que estão morrendo são as que têm uso relativo baixo. Confirmamos, por inspeção visual, que as listas de palavras moribundas são compostas principalmente por palavras incorretamente grafadas e palavras sem sentido."

Mas não são apenas palavras "defeituosas" que morrem: às vezes palavras são levadas à extinção por concorrentes agressivas. A palavra "Roentgenogram", por exemplo, derivada do descobridor do raio X, William Röntgen, foi fartamente empregada por várias décadas no século 20, mas, desafiada por "X-ray" (raio X) e "radiogram" (radiografia), acabou caindo em desuso total.

Até 1980, "X-ray" tinha derrotado a concorrência, especulam os acadêmicos, por ser mais curta e porque a língua inglesa geralmente é a usada em publicações científicas. "Cada uma das palavras compete pelo monopólio do nome", disse Tenenbaum à Sociedade Americana de Física. Enquanto isso, a frase "a grande guerra", usada durante certo período para descrever a Primeira Guerra Mundial, caiu em desuso por volta de 1939, quando o mundo foi abalado por outra guerra de proporções iguais.

Grandes acontecimentos

Os cientistas descobriram que a linguagem é "drasticamente" afetada pela ocorrência de grandes acontecimentos, como as guerras; o surgimento de novas palavras nas línguas inglesa, francesa, alemã e russa aumentou "significativamente" durante a Segunda Guerra Mundial. "Isso pode ser entendido como manifestação da unificação da consciência pública, que gera um campo fértil para o surgimento de novos tópicos e ideias", escrevem os acadêmicos. "Durante uma guerra, é mais provável que a atenção das pessoas se volte a questões globais."

O aumento não foi verificado no castelhano durante o mesmo período, eles constataram, fato que atribuíram aos papéis menores exercidos pela Espanha e América Latina na guerra. A língua hebraica, enquanto isso, viveu um boom pouco após a declaração Balfour, de 1917, fato que, concretamente, abriu caminho para a fundação do Estado de Israel.

Em 1920 o índice de nascimento de palavras hebraicas multiplicou-se por cinco, na medida em que um idioma até então usado principalmente em escritos religiosos se converteu em língua falada moderna.

"De modo análogo às recessões e às fases de boom na economia global, o mercado de palavras cresce se contrai segundo se desenrolam os fatos históricos", escrevem os autores do estudo."E, numa analogia aos regulamentos financeiros que têm por finalidade limitar os riscos e a hegemonia sobre o mercado, as tecnologias de padronização, como o dicionário e os corretores ortográficos, atuam como poderosos árbitros para determinar as propriedades características da evolução das palavras."



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