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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Filho do Hamas: a história do filho do fundador do mais radical grupo terrorista do Oriente Médio






O autor do livro Filho do Hamas fala sobre sua conversão ao cristianismo, de ser espião de Israel e de ter envergonhado sua família.


“Estou totalmente consciente de que para quase todos eu sou um traidor”, diz Mosab Hassan Yousef. “Para minha família, para minha nação, para meu deus [Alá], eu cruzei todas as linhas vermelhas, infringi todas as leis em minha sociedade. Não restou nenhuma que eu não tivesse cruzado”.


Mosab, que tem 32 anos, é filho do sheik Hassan Yousef, um dos fundadores e líder do grupo terrorista palestino Hamas. Durante toda a década passada, desde a segunda intifada (rebelião dos palestinos) até a atual paralisação [das negociações de paz], ele trabalhou juntamente com seu pai na Margem Ocidental. Durante aquele tempo, o jovem Yousef também abraçou secretamente o cristianismo. E, como ele revela em seu livro Son of Hamas [Filho do Hamas], lançado nos EUA no início de março, tornou-se um dos principais espiões do Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel.


A notícia dessa conversão dupla reverberou em todo o Oriente Médio. Um dos contatos de Yousef no Shin Bet confirmou o relato dele ao diário israelense Haaretz. O Hamas – já abalado devido ao assassinato de um chefe militar importante em Dubai no mês de janeiro – chamou essas afirmações de propaganda sionista. Da prisão israelense em que se encontra desde 2005, o sheik Yousef divulgou uma declaração na qual ele e sua família afirmam: “Repudiamos completamente o homem que era nosso filho mais velho e que se chamava Mosab”.


Nos últimos dois anos, Mosab Yousef viveu em San Diego (Califórnia/EUA), onde evitou chamar a atenção sobre si por motivos de segurança. Os EUA estão analisando o pedido de asilo político feito por Mosab e, até sua confissão de espionagem e da repentina onda de publicidade que acompanhou essa confissão, só o conheciam como sendo o filho de um terrorista que às vezes freqüenta igrejas evangélicas na Califórnia. Com o livro, ele pretende iniciar uma nova etapa de vida na América.


Yousef, cujos olhos grandes e simpáticos se destacam em sua face oval, diz que ele mesmo ficou confuso durante muitos anos, e entende que muitas pessoas também ficarão. Sua família foi envergonhada e seus velhos amigos se recusam a acreditar nele. O livro, um thriller ao estilo de Le Carré, envolto em uma história espiritual que está amadurecendo, é uma tentativa de responder ao que ele diz ser “impossível de imaginar”“como eu acabei trabalhando para os meus inimigos, que me machucaram, que machucaram meu pai, que machucaram meu povo”.


“Existe uma explicação lógica”, continua ele em um inglês bastante fluente. “Simplesmente meus inimigos de ontem se tornaram meus amigos. E meus amigos de ontem se tornaram realmente meus inimigos”.


A primeira metade de suas memórias descreve a infância em Ramallah, marcada por laços familiares estreitos e pela ocupação israelense. Ele descreve um pai muçulmano bondoso e incomum, que faz o jantar, que trata bem sua mãe, e que se preocupa com seus vizinhos. Um imã (autoridade religiosa muçulmana) que fora treinado na Jordânia, o sheik Yousef chega à notoriedade em sua cidade natal e, em 1986 – juntamente com outros seis homens, inclusive um clérigo de Gaza preso a uma cadeira de rodas, o sheik Ahmed Yassin – forma o Hamas em um encontro secreto em Hebron. A primeira intifada palestina – ou seja, o primeiro levante palestino – estoura no ano seguinte. Mosab fez sua parte, atirando pedras nos colonos israelenses e nos veículos do exército.

“A maioria das pessoas ouviu falar sobre o Hamas depois que o grupo passou a realizar ataques terroristas”, diz ele, falando de perto da casa de seu agente em Nashville. “O Hamas começou como uma idéia. Digamos, uma idéia nobre – resistir à ocupação”. Aqueles primeiros choques com os israelenses geraram uma violência pior, e o cemitério perto da casa dele começou a ficar cheio de cadáveres. Os palestinos também se voltaram uns contra os outros. A Organização Pela Libertação da Palestina (OLP), corrupta e autoritária, vivia em confronto com o Hamas e com outros grupos que surgiam. Todos eles usavam acusações de “colaboração” como uma desculpa para torturar e matar seus rivais ou os mais fracos.


Yousef afirma ter despertado quando acompanhou pela primeira vez a crueldade do Hamas. Em 1996, foi preso pelos israelenses por comprar armamentos. Yousef diz que apanhou muito e foi torturado na prisão. Foi então que o Shin Bet se aproximou dele. Ele diz que pensou em tornar-se um agente duplo. “Eu queria me vingar de Israel”, escreve ele. Mas quando foi enviado para cumprir sua pena na prisão em Megido, no norte de Israel, diz que ficou mais chocado pela maneira como o maj’d, o braço de segurança do Hamas, tratava seus prisioneiros.


“Todos os dias, havia gritos; todas as noites, torturas. O Hamas estava torturando seu próprio povo!”, escreve ele. Os muçulmanos que encontrou na prisão “não tinham nenhuma semelhança com meu pai” e “eram perversos e mesquinhos... intolerantes e hipócritas”.


Por concordar em trabalhar com o Shin Bet, logo saiu da prisão. Ele diz que estava curioso acerca dos israelenses e rapidamente abandonou sua idéia de se tornar um agente duplo. Embora recebesse dinheiro do Shin Bet e permanecesse na folha de pagamento da agência durante uma década, seus treinadores naqueles primeiros anos não requisitaram muito dele. Eles o encorajaram a estudar e a ser um modelo de filho. Seu nome em código era Príncipe Verde: verde como a cor da bandeira islâmica do Hamas, e príncipe como o descendente da “nobreza” do Hamas.


Durante aqueles anos calmos ele conheceu um taxista britânico em Jerusalém que lhe deu uma cópia do Novo Testamento em inglês e em árabe, e o convidou para participar de um encontro de estudos da Bíblia que era realizado em um hotel. “Percebi que fui realmente atraído pela graça, pelo amor e pela humildade de que Jesus falava”, escreve no livro Filho do Hamas.


Como espião, Yousef não foi totalmente ativado até estourar a segunda intifada, em setembro de 2000. Alguns meses antes, em Camp David, Yasser Arafat, o então chefe da OLP, havia rejeitado a oferta israelense de um Estado palestino em 90% da Margem Ocidental tendo Jerusalém Oriental como capital. De acordo com o Yousef, Arafat decidiu que precisava de uma outra insurreição para ganhar de volta a atenção internacional. Então, buscou o apoio do Hamas através do sheik Yousef, escreve o filho, que o acompanhou ao complexo de Arafat. Aqueles encontros aconteceram antes que as autoridades palestinas encontrassem um pretexto para a segunda intifada. Esta ocorreu quando Ariel Sharon, o então primeiro-ministro de Israel, visitou o Monte do Templo em Jerusalém, local onde está a mesquita Al-Aqsa e o Domo da Rocha. O relato de Yousef ajuda a esclarecer o registro histórico de que o levante fora premeditado por Arafat.


Yousef me disse que ficou horrorizado com a violência sem motivo desatada por políticos que queriam subir “nos ombros dos pobres e das pessoas religiosas”. Ele disse que os palestinos que atenderam ao apelo “iam como um boi vai para o matadouro, e achavam que estavam indo para o céu”. Portanto, como escreve em seu livro, “com a idade de vinte e dois anos, eu me tornei a única pessoa do Shin Bet infiltrada no Hamas que poderia penetrar as alas militar e política do Hamas, bem como de outras facções palestinas”.


Yousef reivindica para si mesmo alguns golpes significativos de inteligência, e diz que ainda não está contando tudo para o mundo. Logo no início, ele foi o primeiro a descobrir que as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, um grupo terrorista nascido durante a segunda intifada, eram compostas pelos guardas de Arafat, sustentados diretamente por doadores internacionais. Ele diz que descobriu o fabricante de bombas palestino mais letal e frustrou as conspirações de assassinato contra o presidente Shimon Peres, então ministro do Exterior, assim como de um rabino muito conhecido. Mosab diz que desbaratou celas de homens-suicidas prontos para atacar Israel. E que ajudou a convencer seu pai a ser o primeiro líder importante do Hamas a oferecer uma trégua a Israel.


O treinador de Mosab, chamado “Capitão Loai”, agora aposentado do Shin Bet, confirmou muitas dessas histórias ao Haaretz. O jornal disse que o Shin Bet considera Yousef “um agente da maior confiança e profissionalismo”.


Mosab esforça-se por se justificar, mas finalmente “a questão é se eu sou um traidor ou um herói aos meus próprios olhos”.


Portanto, estamos de volta ao por quê?


A motivação, diz ele, foi salvar vidas.

“Eu já tinha visto mortes demais. Fui testemunha de muitas mortes. (...) Salvar uma vida humana é muito, muito lindo, não importa quem seja. Não são apenas os israelenses que me devem suas vidas. Eu garanto que muitos terroristas, muitos líderes palestinos também me devem suas vidas – ou, em outras palavras, eles devem suas vidas ao meu Senhor”.


Ele diz que usou de sua influência no Shin Bet para conseguir que os israelenses tentassem prender integrantes do Hamas e de outros grupos palestinos em vez de explodi-los com mísseis. Mosab afirma que salvou seu pai do destino do sheik Yassin e de outros líderes do Hamas, a quem os israelenses mataram. Para evitar que o mesmo acontecesse a seu pai, fez um arranjo secreto com o Shin Bet para que o mesmo fosse preso. “Eu sei com certeza que meu pai está vivo hoje, que ele ainda respira, porque eu estava envolvido nisso tudo”.


Yousef tem algo de evangelista em si, mesmo quando insiste que não é um cristão devotado e que ainda está aprendendo sobre sua nova religião. Ele quer que os israelenses e palestinos saibam o que fez por causa do Deus cristão.


“Converti-me ao cristianismo porque fui convencido por Jesus Cristo como um personagem, como uma personalidade. Eu o amei, amei sua sabedoria, seu amor, seu amor incondicional. Não deixei a religião [islâmica] para me colocar de volta em uma outra rígida estrutura religiosa. Ao mesmo tempo, é bonito ver que o meu Deus existe em minha vida e vê a mudança em mim. Percebo que, quando ele existir em outras pessoas do Oriente Médio, haverá mudanças.Não estou tentando converter toda a nação de Israel e toda a nação da Palestina ao cristianismo. Mas, pelo menos, a gente pode ensinar-lhes sobre a ideologia do amor, a ideologia do perdão, a ideologia da graça. Esses princípios são grandiosos independentemente de onde venham, mas não podemos negar que vieram do cristianismo”.


Yousef diz que sentiu-se sem ânimo e decidiu parar de trabalhar para o Shin Bet em 2006, mesmo contra a vontade deles. Quem abriu os caminhos para ele foram amigos no sul da Califórnia, que conheceu através dos estudos bíblicos.


Como filho de um clérigo muçulmano, diz que chegou à conclusão que o terrorismo não pode ser derrotado sem uma nova compreensão do islamismo. Assim, reafirma o que foi dito por outros que deixaram o islamismo, tais como a ex-parlamentar e escritora holandesa Ayaan Hirsi Ali.


Perguntei-lhe se considera seu pai um fanático. “Ele não é um fanático. Ele é muito moderado, uma pessoa lógica. O que importa não é se meu pai é fanático ou não, mas que está fazendo a vontade de um deus fanático. Não importa se é um terrorista ou um muçulmano tradicional. No final das contas, um muçulmano tradicional está fazendo a vontade de um deus fanático, fundamentalista e terrorista. Sei que isso é duro de dizer. A maior parte dos governos evita esse tipo de assunto. Eles não querem admitir que essa é uma guerra ideológica."

“O problema não está nos muçulmanos”, continua ele. “O problema está no deus deles. Eles precisam se libertar de seu deus. Alá é o maior inimigo que eles têm. Há 1.400 anos eles têm sido enganados”.


Estas são palavras perigosas. A respeito das ameaças feitas contra a sua vida por islâmicos, ele diz: “Essa não é a pior coisa que pode acontecer. Eu posso conviver com isso, não estou com medo. (...) Os palestinos têm razão para me matar. Alguns israelenses podem querer me matar. Meu alvo não é derrotar meu inimigo. É conquistar a confiança do meu inimigo."

 

Fonte: Beth Shalom



quinta-feira, 8 de julho de 2010

O "X" da questão do conflito existencial

Considerado um "romancista católico" pela crítica, uma alcunha que não gostava, preferia se chamado de escritor que tem como religião o catolicismo, o escritor inglês Henry Graham Greene (1904-1991 - foto) deixou diversos livros de ficção que marcaram a literatura mundial. Greene agrupava sua obra em duas categorias: romances e entretenimentos. Sua marca pessoal era tratar de questões morais e políticas do seu tempo por meio de histórias de suspense, mistério e drama, desenvolvidas em cima de uma meditação subliminar sobre os pecados. Bem que mereceu o Nobel de Literatura, premiação a qual foi indicado algumas vezes, mas que nunca levou.

Um autor que caprichou na ação e enveredou em conjunto as angústias do ser humano. Escritor tão popular, que era difícil de imaginar que há algum tempo não se via obras suas nas prateleiras dos lançamentos. Contudo, após o sucesso da adaptação para o cinema Fim de caso, com Julianne Moore e Ralph Fiennes, seus títulos ganharam reedições.

Entre os quais, o livro O Cerne da Questão (The heart of the matter, tradução de Otacílio Nunes, 400 páginas - Editora Globo). Uma de suas obras mais marcantes, por mostrar os conflitos humanos em seus personagens – outro aspecto de sua obra – e que travam uma guerra impessoal em torno de questões como o livre arbítrio ou a graça. Algo que remete ao catolicismo, religião que Greene abraçou em 1926. Sentidos ocultos em lugares distantes seria uma crítica resumida de suas características narrativas.

Com o brilhante prefácio Nó Górdio, do critico e professor Carlos Vogt, O Cerne da Questão é uma obra séria, bem amarrada ao estilo claro que Greene construiu. Publicado originalmente em 1948, ganha agora uma nova tradução, bem reformulada deste o seu título, anteriormente O Coração da Matéria ao final da narrativa.

Ambientada num país africano da África Ocidental, que sabemos ser Serra Leoa, pelas memórias escritas pelo autor, O Cerne da Questão, narra os problemas enfrentados por Henry Scobie, major da policia colonial inglesa, durante o período da II Guerra Mundial.

 Vivendo naquele local com sua esposa, Louise, uma mulher solitária que adora poesia, que se sente estranha e isolada naquela sociedade. O major inglês sente se responsável por sua felicidade, e tenta ajudá-la, mas traumatizado com a morte da filha em um naufrágio e descontente com tudo ao seu redor, sente incapaz de amar alguém, somente a Deus.

Católico, Scobie prefere enviar sua esposa para a África do Sul, para não a ver sofrer. Principalmente após perder a chance de ser nomeado Comissário, afligindo mais ainda Louise, por suas esperanças pessoais. Nesse ínterim, um novo naufrágio faz reaparecer a dor da perda em Scobie ao testemunhar a morte de uma menina, entre os sobreviventes estão um garoto para quem lê histórias no hospital e Helen Rolt, que fica viúva no acidente e se torna amante do major.

A chegada do novo inspetor, Wilson, que se apaixona por Louise e a chantagem de Yusef, contrabandista sírio que descobre o seu adultério são elementos perturbadores do enredo de O cerne da questão. Scobie se encerra em seu desejo de perfeição à sua esposa, a sua amante, ao mundo, e nesse anseio em ser virtuoso a todo custo se rivaliza com Deus, em seu interior e a punição são a culpa e o castigo.

Um romance realista e na carreira de Greene, o romance é um livro capital. A temática do suicídio no final, colocado em dúvida aos personagens, e que para o leitor seja uma asserção de que o suicídio do protagonista é uma confissão do fracasso diante dos desígnios divinos ou um derradeiro ato de soberba de quem quer governar a própria morte.

Scobie é um personagem que lembra outras figuras que Greene   construiu, como o jovem delator de contrabandistas em O Outro Eu (The man within, 1929), ou o desesperado Pinkie de O Condenado (Brighton Rock, ) ou ainda o sacerdote indigno de O Poder e a Glória (The Power and the Glory). Todas perseguidas por seus infortúnios, com a diferença que o perseguidor e a vítima são uma só pessoa; a caça aqui é simbólica, ou serve, como uma intriga opaca que Greene desenvolve em seu convencionalismo.

Um livro que culpa e expiação são os fios condutores de seus personagens. Vale a pena ler.

domingo, 13 de junho de 2010

Anne Frank: a “face” das vítimas do holocausto nazista



Milhões de pessoas leram "Anne Frank: Diário de uma Jovem", obra que narra o cotidiano de uma garota judia e sua família, de 1942 a 1944, enquanto viviam no anexo secreto, um esconderijo em Amsterdã (Holanda).


O diário é um comovente testemunho sobre a maldade perniciosa dos nazistas. Sobre a obra, o escritor soviético llya Ehrenburg escreveu: "Uma voz fala pelos 6 milhões de judeus mortos; a voz não é de um sábio, nem de um poeta, mas de uma jovem como tantas e tantas outras"

A voz de Anne revestiu o Holocausto de uma face tangível, dando-lhe uma dimensão mais fácil de ser entendida, apesar da dificuldade da mente humana em lidar com tamanho horror. Assim, o Diário de Anne Frank se constitui como um legado sobre o qual ela se manifestou no dia 5 de abril de 1944, ao escrever: "Eu quero continuar a viver depois da minha morte e, por isso, sou grata a Deus por ter me presenteado com o dom de escrever, de conseguir expressar tudo o que está dentro de mim".

Uma curta vida

A vida da jovem destinada a ser a voz dos milhões de judeus mortos durante o Holocausto foi curta, mas significativa. Annelise Marie nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, e era a segunda filha de Otto e Edith Frank, abastados judeus alemães. Os pais a chamavam de Anne.

Em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, os Frank decidiram viver em Amsterdã, na Holanda. Otto se mudou imediatamente, pois se apresentara a oportunidade de montar uma franquia, a Opekta Works, para a comercialização de pectina, substância usada na fabricação de geléias. Edith, Anne e a irmã Margot se juntaram a ele, tempos depois. Em Amsterdã, voltaram a desfrutar de liberdade e relativa tranqüilidade, apesar das alarmantes notícias sobre a intensificação da discriminação aos judeus em outras partes.

Nem a tolerante e pacífica Holanda conseguiu escapar da fúria que se abateu sobre a Europa. Em maio de 1940, os exércitos alemães ocuparam o país, a monarquia foi deposta e o austríaco Artur Seyss-lnquart, conhecido por seu brutal anti-semitismo, assumiu o governo, dando início à campanha de perseguição judaica.

Otto, que não tinha ilusões sobre os nazistas, imediatamente tomou medidas para proteger sua família. Em setembro de 1941 transferiu a titularidade da firma a um dos ajudantes, Jo-Hannes (Jo) Kleiman, apesar de continuar à frente do empreendimento. Kleiman o ajudou a planejar o "mergulho", como era chamada a passagem de judeus para a vida na ilegalidade. Eles transformaram num esconderijo perfeito um anexo vazio na casa 263 da rua Prisengracht. Era um prédio atrás do escritório onde ficava o depósito da firma. Algum tempo depois, Otto pediu ajuda a mais três antigos e fiéis funcionários: Victor Krugler, Miep Gies e Bep Voskuij. Junto com Jo Kleiman, compunham o quarteto dos "Ajudantes".

No dia do seu 13° aniversário, 12 de junho de 1942, Anne recebeu de presente um diário. Ela não imaginava a importância que este teria. Quando, em 5 de julho, sua irmã Margot foi convocada pela Gestapo, os Frank decidiram que não podiam adiar nem mais um minuto o "mergulho". Assim, no dia seguinte passaram para a clandestinidade. Uma semana mais tarde, juntou-se a eles o casal Van Pels, sócios e amigos, e o filho Peter. Em novembro chegou o último ocupante, Fritz Pfeffer.

Um velho rádio, ao qual viviam colados, era, além dos "Ajudantes", seu único contato com o mundo exterior. Todos os cuidados eram necessários para que a vizinhança e os demais funcionários da empresa, principalmente os que trabalhavam no depósito, não suspeitassem que ali havia judeus escondidos.

Surpreendendo pela sua maturidade apesar dos 14 anos, Anne descreveu no diário, com pormenores, seu cotidiano e o dos outros "ocupantes". A sensação de estarem presos sem poder ver ainda que uma nesga do céu e o medo de serem descobertos estavam sempre presentes. Em vários trechos Anne dá detalhes das crescentes restrições e perseguições nazistas contra os judeus. Em março de 1944, a adolescente ouviu uma transmissão da rádio inglesa em que Gerrit Bolkestein, ministro do governo holandês no exílio, convidava os cidadãos a preservarem documentos e histórias pessoais sobre a guerra. A jovem então decidiu que ao término do conflito publicaria um livro baseado em seu diário.

Apesar do medo e do sofrimento, Anne nutria esperanças – prova d de que desconhecia a real face do Holocausto. Em uma de suas últimas anotações, em 15 de julho de 1944, escreveu: "Vejo o mundo se transformar, gradualmente, em um grande deserto, ouço o trovão se aproximando, o mesmo que nos destruirá a todos. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá...". O diário de Anne Frank termina no dia 1° de agosto, três dias antes de sua prisão. Foram as últimas palavras que escreveu.

A  prisão

Em 4 de agosto de 1944, após a denúncia, a Gestapo invadiu o escritório da empresa e imediatamente se dirigiu à entrada do "Anexo Secreto", obrigando Victor Kugler a abri-lo. Seus ocupantes, o próprio Victor e Jo Kleiman foram presos. Assim que os nazistas deixaram o local, Miep Gies e Bep Voskuijl voltaram ao esconderijo e encontraram cadernos e anotações de Anne espalhados pelo chão,  que recolheram e guardaram juntamente com vários álbuns de fotos. As jovens decidiram, então, que Miep os guardaria para devolvê-los a Anne assim que a guerra terminasse. A mobília do Anexo foi confiscada e removida, por ordem da Gestapo.

No dia 3 de setembro todos os ocupantes do Anexo foram juntados a outros mil judeus, no último trem que saiu de Westerbork para Auschwitz, na Polônia. Testemunhas contam que Anne, Margot e Edith ficaram juntas até as duas irmãs serem transferidas, em outubro, para Bergen-Belsen, na Alemanha. No mês seguinte, Edith adoeceu, morrendo em janeiro de 1945, aos 44 anos.

Em Bergen-Belsen, para onde as jovens foram levadas, as condições de vida eram ainda piores que em Auschwitz e as duas irmãs logo contraíram tifo. Doente e muito fraca, Margot não resistiu, vindo a falecer em março com apenas 19 anos. A morte da irmã fez em Anne o que nada até então  fora capaz de fazer - quebrar seu espírito. Alguns dias mais tarde, faleceu. Não se sabe ao certo quando, mas a data universalmente aceita é 31 de março de 1945. Anne tinha 15 anos. Apenas algumas semanas depois, em 15 de abril, o campo foi libertado pelo exército inglês.

Das oito pessoas do "Anexo Secreto", apenas Otto sobreviveu, por milagre. Havia sido enviado para o barracão de doentes de Auschwitz, em novembro de 1944, enquanto outros prisioneiros do campo, cerca de 11 mil, evacuados pelos nazistas à medida que os russos avançavam, foram levados a pé nas terríveis Marchas da Morte, das quais poucos sobreviveram. E o pai de Anne se encontrava ainda lá quando, no dia 27 de janeiro de 1945, o campo foi libertado pelas forças soviéticas.

Dos 140 mil judeus que viviam na Holanda e se registraram junto às autoridades alemãs, 107 mil foram deportados. Desse total, apenas 5.500 retornaram. Cerca de 24 mil pessoas conseguiram esconder-se, 8 mil das quais foram capturadas. Apenas 35 mil judeus conseguiram sobreviver ao Holocausto na Holanda. Ou seja, 70% dos judeus holandeses foram vítimas da Shoá, um índice superior a qualquer outro registrado nos países ocupados pela Alemanha, na Europa Ocidental.

O legado de Anne Frank

A viagem de Otto de volta para Amsterdã durou vários meses. No trajeto, foi informado por uma amiga de Edith sobre a morte dela, em Auschwitz. Em junho, ele chegou à capital holandesa, onde encontrou, ainda funcionando, sua empresa Opekta, agora dirigida por Jo Kleiman. Procurou, desesperado, qualquer informação sobre o paradeiro das duas filhas, mas no mês seguinte foi obrigado a aceitar o fato de que não haviam sobrevivido. Miep lhe entregou então os cadernos que encontrara, dizendo: "Este é o legado de sua filha Anne para você".

Otto nunca desconfiara da existência daqueles registros. Estimulado por amigos, decidiu publicar o diário, mas não encontrou nenhuma editora interessada. Os manuscritos acabaram nas mãos do casal Romein, historiadores holandeses. Impressionado com o material, o Dr. Romein escreveu um artigo, "A Voz de uma Criança", para o renomado jornal Het Parool, onde afirmou: "Este diário de aparência infantil incorpora toda a hediondez do nazismo de forma muito mais visível e contundente do que todo o conjunto de evidências apresentadas perante o Tribunal de Nuremberg".

O artigo despertou o interesse de uma editora e, em junho de 1947, o "Diário de Anne Frank" foi publicado na Holanda, pela primeira vez. Otto conseguira realizar o desejo da filha: ser escritora. Desde sua publicação, o "Diário" foi traduzido para 67 idiomas, tornando-se um dos livros mais lidos no mundo. Seu texto deu origem a produções de televisão, cinema, teatro e, até mesmo, uma ópera.

66 anos depois

Em 9 de abril de 1944 Anne escreveu: "Um dia, esta guerra terrível acabará. Há de chegar à hora em que novamente seremos considerados seres humanos e não apenas judeus". Como já dissemos, seu diário termina no dia 1° de agosto de 1944. Ela não deixou nada escrito sobre os meses que passou nas mãos dos nazistas e sobre os campos de concentração. Anne Frank tornou-se para muitos a "face" de milhões de vítimas da Shoá, sem rosto e sem nome. 

O escritor Primo Levi, que sobreviveu a Auschwitz, explica: "Uma única Anne Frank nos emociona mais do que milhares de outros que sofreram tanto quanto ela, mas cujos rostos permaneceram na sombra. Talvez seja melhor desta forma, pois se tivéssemos que absorver o sofrimento de todas essas pessoas, talvez não estaríamos mais vivos".


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