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sábado, 19 de janeiro de 2013

Harold Bloom: "Não me defino como crítico literário, sou um professor de escola"


Harold Bloom

Lúcia Guimarães 

Os visitantes da casa na rua bucólica de New Haven, em Connecticut, recebem instruções precisas para não tocar a campainha. Devem abrir a porta destrancada e ir direto à segunda sala. Lá, o anfitrião vai começar por satisfazer a própria curiosidade sobre detalhes mundanos da vida da repórter.

Harold Bloom é caso único na história da crítica literária do último meio século. Um autor prolífico, erudito, popular, que seduz e enfurece. Aos 82 anos, maltratado por doenças que lhe restringem a mobilidade, seu vigor criativo é formidável. Não para de escrever, dar aulas, analisar a prosa e a poesia dos alunos e, apesar da dor na perna e da má circulação que o obriga a levantar da cadeira em intervalos curtos, demonstra um prazer evidente em conversar.

"Eu não me defino como crítico literário", diz Bloom, que nunca será acusado de modéstia. "Eu digo que sou um professor de escola" (ele dá aula na Yale University). A afirmação o leva a uma das muitas reminiscências que haveria de compartilhar naquela tarde, alternando nostalgia e alguma intriga, com ar maroto, sempre envolvendo alguém como "Philip" (Roth) e "Cormac" (McCarthy), citados assim, pelo primeiro nome, ou por apelidos, se é que restou à interlocutora alguma dúvida de que ele esteve no centro da história literária recente americana. "Havia um homem muito mau", diz, "chamado William Styron". Bloom recorda que estava jantando na casa do grande poeta Robert Penn Warren (para ele "Red", o apelido do escritor ruivo); todos "já tinham bebido um pouco demais" quando Bloom comentou com Warren - "com toda razão", deixa claro - que ele devia continuar escrevendo poesia, já que seus romances recentes não tinham a mesma qualidade. "A sua opinião não importa", cortou Styron, autor de A Escolha de Sofia e das memórias da depressão, Perto das Trevas. "Você é apenas um professor de escola." Bloom diz que o comentário foi o mais memorável que ouviu de um "mau escritor". "Como me acusar de ter a melhor e mais nobre profissão do mundo?" O professor conclui a anedota lembrando que Styron já faleceu e oferecendo "um aforismo bloomiano pelo qual quero ser lembrado: Se nós não falarmos mal dos mortos, quem vai falar?"

Fui bater à porta de Harold Bloom para conversar sobre A Anatomia da Influência - Literatura Como Um Modo de Vida, que sai no Brasil pela Objetiva, no segundo semestre (leia crítica abaixo). Ele considera o livro uma síntese de sua trajetória crítica. O título se refere à obra que talvez será considerada a mais inovadora de sua carreira, A Angústia da Influência - Uma Teoria da Poesia, lançada em 1973, marco da crítica literária, em que Bloom trata da luta do poeta para criar sob a influência de seus precursores.

Entre a angústia e a anatomia, Bloom diz que se tornou mais suave. Mesmo com mais de 50 edições em dezenas de línguas, o autor considera A Angústia da Influência terrivelmente difícil e não tem certeza se entende a obra. Mas há outras mudanças. Em A Anatomia da Influência, Bloom se diz inspirado pelo poeta francês Paul Valéry que escreveu "sobre a influência da mente sobre si mesma". Seu novo livro, ele diz, é sobre a influência do autor sobre si mesmo. A outra diferença: "Antes, eu defendia a literatura da contracultura. Agora a defendo da politização e da ruptura da tecnologia, que impôs" - e ele aponta para meu tablet - "a linguagem visual."

A suavidade adquirida ao longo do tempo se expressa no que Bloom manifesta ser o "amor literário", definido por ele como um estado de intensa ambivalência, "da culpa da herança, e da tristeza de ter chegado tarde demais".

A originalidade da obra do crítico não exclui a repetição e em Anatomia da Influência ele revisita seu elenco de suspeitos, especialmente William Shakespeare. Depois de lançar Shakespeare, A Invenção do Humano, um de seus maiores best-sellers, Bloom conta que se sentiu irritado por perguntas sobre a tal invenção. "É claro que não estava dizendo que foi como Thomas Edison inventando a lâmpada", diz. "O caráter sempre existiu, mas não sei se é o caso com a personalidade. Shakespeare é único porque ele mudou a maneira como nos vemos. Em Shakespeare, caráter é personalidade, é destino." E lembra outro episódio. Estava falando em público quando lhe perguntaram sobre alguma boa adaptação de Shakespeare para o cinema. Respondeu que o diretor que mais entendeu a obra do inglês foi o japonês Akira Kurosawa. "Ele não falava inglês, mas o poder de Shakespeare vai muito além do da linguagem." A invenção, ele observa, é a essência da poesia. "Sem a poesia, nada teria vindo a este mundo. Shakespeare nos mostrou o que estava à nossa volta e não conseguíamos enxergar."

Bloom não se ilude sobre o seu lugar na cultura contemporânea americana em que jovens, ele escreve, "despencam no precipício do oceano cinza da internet". Não há mais um Walt Whitman, o autor como consciência de um país, ele lamenta, porque não existe mais um público nacional. "Nosso maior romancista em atividade, Thomas Pynchon, é um autor difícil. Nosso maior poeta, meu amigo John Ashbery, é um poeta difícil. Nosso possível maior dramaturgo, Tony Kushner, chegou perto de falar a todo país, com Anjos na América, mas não escreveu nada com a mesma força, nos últimos 20 anos."

Harold Bloom demonstra uma franqueza bem-vinda sobre os escritores mais jovens. Em vez de alardear o fim do romance, declara que não tem competência para ler romancistas 50 anos mais moços do que ele. Logo em seguida, afirma que seu melhor aluno, Lucas Zwirner, ainda inédito, é um evidente romancista em formação. "Eu li gente como Jonathan Franzen, David Foster Wallace e variados Safran Foers, mas a sensibilidade mudou tanto que não devem confiar na minha reação."

Bloom aponta para o teto e diz que o sótão de sua casa abriga um manuscrito não publicado, Freud, Transferência e Autoridade, que encosta em 900 páginas e vai ser um problema póstumo de seus executores literários. "A minha ambivalência sobre Freud se tornou excessiva", confessa. Hoje, ele vê o criador da psicanálise não como cientista, mas como o grande ensaísta moral, o Montaigne do século 20. "Uma definição que ele detestaria."

Por falar em livros longos, Bloom diz que está quase acabando de escrever outro, "especialmente importante para mim". O título, que cita um poema de Ralph Waldo Emerson, será: Os Espíritos Sabem Como Se Faz, Tradição Oculta na Literatura Americana, um exame da obra de dez autores.

Enquanto trocamos histórias pessoais, o professor dá outro sinal do caminho percorrido na carreira literária de seis décadas, ao anunciar que espera um telefonema do New York Times. "Chegou a hora", diz, "embora eu não tenha a menor intenção de morrer, de atualizar o meu obituário, que eles escreveram há vários anos. E o pior, não vou poder nem ler quando ficar pronto." Ele disca o número da repórter e diz: "Estava me sentindo tão vivo, que tarefa melancólica". Mas logo brinca: "... considerando a alternativa..." A repórter o consola, dizendo que vai telefonar de volta em cinco anos, já que ele não para de produzir. "Em 5, 10 ou 15 anos", protesta o professor e conta que três ciganas, em três países, leram a palma da sua mão. Previram que ele vai viver 89 anos, 3 meses e 11 dias e admite, sorrindo, esperar um certo nervosismo na manhã do décimo primeiro dia. "No fim das contas", ele diz, contemplativo, "o que eu faço é salvar as aparências, no sentido mais decente da palavra. É tentar preservar a continuidade da literatura e do pensamento do Ocidente."

Fonte: Entre os livros como um modo de vida - Estadão

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Último Herói do Titanic - uma história de heroísmo e fé inabalável que o cinema não contou




O naufrágio do Titanic é mais que uma tragédia histórica. É heroísmo corajoso e fé inabalável que inspiram todos que conhecem a história completa. Os filmes de Hollywood sobre o Titanic proporcionam grande drama. A exposição de artefatos recuperados do navio desperta muita curiosidade. Mas a história de John Harper causa um impacto que pode transformar vidas.


Enquanto as águas escuras e geladas do Atlântico enchiam lentamente o convés do Titanic, John Harper gritava: “Deixem as mulheres e crianças  subirem nos barcos salva-vidas.” Harper tirou seu salva-vidas – a última esperança de sobrevivência – e o entregou a outro homem. Depois que o navio desapareceu sob a água escura, deixando Harper se debatendo nas águas geladas, ouviram-no incentivando os que estavam à sua volta a confiar em Jesus Cristo. Era a noite de 14 de abril de 1912. Uma noite de heróis, e John Harper foi um deles. Apesar das águas que o tragavam serem extremamente frias e do mar à sua volta estar escuro, John Harper deixou este mundo numa resplandecente glória. Os atos de coragem de Harper foram espontâneos. Ele não tinha motivo para imaginar que o Titanic afundaria, nem tempo para escrever um roteiro. 

A revista "The Shipbuilder" descreveu o Titanic como “praticamente insubmergível”. No dia 31 de maio de 1911, um empregado da Companhia de Construção Naval White Star disse: “Nem mesmo o próprio Deus pode afundar esse navio”. O Titanic representava toda a segurança, elegância e confiança da era vitoriana-edwardiana. A Associated Press era entusiasta do navio, declarando: “Tudo que a riqueza e a habilidade modernas podiam produzir estava incorporado no Titanic, o navio mais longo já construído, com mais de 4 quadras de comprimento.., com acomodações para uma tripulação de 860 pessoas e capacidade para 3.500 passageiros, ele foi construído com o mesmo cuidado dedicado aos melhores cronômetros”. A ostentação e o tamanho recorde do Titanic impressionaram a era dourada da construção naval. Seus motores de 50.000 HP que produziam a velocidade de 24 nós por hora eram protegidos por dezesseis compartimentos estanques. Cada um era protegido por estruturas de aço. Na época do seu lançamento, o Titanic era o maior objeto móvel manufaturado do mundo.

Depois de fazer as duas primeiras paradas para passageiros e correio em Cherbourg e Queenstown, Irlanda, os passageiros se sentiram ainda mais seguros. Harper escreveu numa carta para seu amigo Charles Livingstone antes de atracar em Queenstown, dizendo: “Até agora a viagem é tudo que se pode desejar.”

Às 11:40 da noite de 14 de abril de 1912, um iceberg rasgou o lado estibordo do navio, jogando gelo por todo o convés e arrebentando seis compartimentos estanques. O mar se infiltrou. A maioria dos passageiros não acreditava que o Titanic afundaria até que a tripulação começou a lançar foguetes de sinalização para o alto. Charles Pellegrino disse: “A água brilhou por todos os lados. Barcos salva-vidas podiam ser vistos nela… Naquele enorme facho de luz artificial, as mentes também foram iluminadas. Todos entenderam a mensagem dos foguetes por si próprios”. Depois dos foguetes, ninguém precisava ser convencido a entrar nos barcos salva-vidas. De repente, quando a água alcançou a metade da ponte de comando, um estrondo que parecia um milhão de pratos quebrando, cortou a noite. Enquanto a popa do Titanic subia alto no céu para se preparar para seu mergulho ao fundo do mar, um barulho terrível como uma explosão abalou o ar da noite. Passageiros davam-se as mãos e se jogavam na água. Às 2:20 da manhã o Titanic começou sua descida lenta para o fundo do mar, deixando uma nuvem emergente de fumaça e vapor acima do seu túmulo. Nas águas geladas do Atlântico Norte, na calada da noite, o navio mais famoso do mundo terminou sua primeira e última viagem, mas alcançou uma mística náutica que só perde para a da arca de Noé. Tudo aconteceu tão rápido, que Harper só pôde reagir. Sua reação deixou um exemplo histórico de coragem e de fé. “Os heróis da humanidade”, disse A. P Stanley, “são como as montanhas, como os planaltos do mundo moral”. John Harper foi um desses heróis.

Nunca é fácil assumir tais ações heróicas, e para John Harper foi excepcionalmente difícil. Sua filha pequena, Nana, estava viajando com ele. Quatro anos antes, a mãe dela adoeceu e morreu. Agora, Harper sabia, Nana ficaria órfã aos seis anos de idade.

Quando o alarme indicou o fim do Titanic, Harper imediatamente entregou Nana a um capitão do convés com ordens para colocá-la num barco salva-vidas. Então ele saiu para socorrer os outros. Nana foi resgatada e mandada de volta à Escócia, onde cresceu, casou-se com um pastor, e dedicou toda a sua vida ao Senhor a quem seu pai tinha servido.

Certa vez, depois de Harper escapar por pouco de se afogar aos 26 anos, ele disse: “O medo da morte não me preocupou em momento algum. Eu acreditava que a morte súbita seria glória súbita, mas havia uma menininha sem mãe em Glasgow”. Agora, essa menininha ficaria sem mãe e sem pai. Com certeza essa foi a parte mais difícil para Harper. O heroismo altruísta desse escocês é acentuado pela conduta contrastante de muitos colegas passageiros nessa viagem mortal. Enquanto Harper entregava seu colete salva-vidas, um banqueiro americano conseguiu colocar um cachorro de estimação num barco salva-vidas, deixando 1.522 pessoas sem ajuda. Não havia um espírito de “afundar com o navio”. Dos 712 salvos, 189 eram, inclusive, homens da tripulação. O coronel John Jacob Astor tentou escapar com sua mulher num barco salva-vidas e foi detido pelo segundo-oficial Charles Lightoller. Astor era o homem mais rico do mundo, mas isso foi insuficiente para forçar a sua entrada num simples barquinho salva-vidas. Daniel Buckley se disfarçou de mulher na tentativa de conseguir um lugar no barco. Os passageiros da primeira classe, no primeiro barco salva-vidas a ser baixado, se recusaram a voltar e recolher pessoas que estavam se afogando, apesar de haver espaço para muitos outros serem salvos. A Sra. Rosa Abbott, a única mulher a afundar com o navio e sobreviver, disse que um homem tentou subir nas suas costas forçando-a para baixo da água e quase afogando-a.

A coragem de Harper não vinha da ignorância. Provavelmente ninguém no Titanic conhecia tão bem os terrores do afogamento como John Harper. Aos dois anos de idade ele caiu num poço e foi ressuscitado a tempo por sua mãe. Aos vinte e seis anos, Harper foi levado a alto mar por um correnteza e sobreviveu por pouco. Aos trinta e dois anos ele encarou a morte num navio com vazamento no Mediterrâneo. Talvez essa fosse a maneira de Deus testar esse servo para a sua missão de último aviso no Titanic. Harper já sabia o que centenas de pessoas descobriram naquela noite trágica – afogamento é uma morte terrível. Will Murdoch, o primeiro-oficial do Titanic, foi incapaz de enfrentar uma morte lenta na água e se matou com um tiro quando a ponte de comando afundou. Muitos dos 1.522 homens, mulheres e crianças abandonados a bordo gritaram até ficar num silêncio terrível. Em contraste, um John Harper confiante encarou a morte com segurança absoluta de que Jesus derrotou a morte e deu-lhe a dádiva da vida eterna. Essa segurança ultrapassou os terrores do afogamento.



O excerto acima compõe um dos capítulos do livro "O Último Herói do Titanic" de Moody Adams, publicado no Brasil  pela Actual Edições, selo editorial da Obra Missionária Chamada da Meia Noite e disponibilizado gratuitamente no formato eletrônico.






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quinta-feira, 1 de março de 2012

"Traços de crise enriquecem a arte" - Especialistas realizam debate sobre literatura e crise


Literatura e crise em debate no Instituto Cervantes

Realizou-se no dia 28 de Fevereiro, no Instituto Cervantes, em Lisboa, a oitava mesa-redonda do festival Correntes D’Escrita. Neste encontro, moderado por Helena Vasconcelos, participaram Manuel Moya, Afonso Cruz, Ana Paula Tavares, Valéria Luiselli e Care Santos.

A conversa teve como ponto de partida o tópico "Traços de crise enriquecem a arte", lançando-se numa sucessão de olhares – sempre distintos - inteligentes e criativos, transmitidos de forma poética, da realidade.

As primeiras palavras da mesa, da responsabilidade da moderadora, abriram as hostilidades num tom muito crítico: “a cultura será sempre o último reduto civilizacional, apesar de alguns preferirem vê-la como um luxo”.

Os restantes seguiram a deixa.

O português Afonso Cruz apontou baterias à passividade dos portugueses, defendendo que estes se deveriam queixar mais. 
Lembrou que Job (personagem bíblica) também “nunca se queixou” e que até “duplicou a sua fortuna” mas os filhos que “lhe foram tirados não voltaram a ser devolvidos, mas antes trocados, e isso não é exactamente a mesma coisa”. Recusou ainda a ideia de que a crise tenha algum lado positivo, como o improviso, lamentando que nestas situações as coisas muitas vezes “sejam mal feitas”.

Angolana, a escritora Ana Paula Tavares aproveitou a ocasião para comparar a crise “constante” do seu país com aquela que se vive actualmente na Europa. A autora lembrou os anos em que a ex-colónia se viu a braços com a ocupação sul-africana, que aterrorizou a população; os anos de guerra civil e as gritantes disparidades sociais. Avaliando o papel da literatura do país, afirmou que todas estas crises “não geraram melhores escritores”.

Numa declaração, pautada pela ironia, de impaciência em relação ao “discurso da crise” que enche as televisões, a espanhola Care Santos disse que não consegue ligar o aparelho: “prefiro ficar na ignorância, limito-me a ler livros, sou mais feliz assim”. Defendeu que a palavra crise é “mais uma daquelas palavras vazias de conteúdo que servem para se justificar tudo”.

Há muito tempo ligado à literatura portuguesa, Manuel Moya lançou recentemente o livro Cinzas de Abril e talvez por isso apelou a “um novo 25 de Abril, onde as pessoas possam abrir as persianas e ver algo de diferente”. Destacou a “responsabilidade” dos escritores de “pensarem de forma diferente” para que, pelo menos, tentem trabalhar por “um mundo melhor”.

Vinda da Cidade do México, a ensaísta Valéria Luiselli alertou para os preconceitos existentes no mercado editorial, dando o exemplo do constante apelo das editoras para que os autores deste país adoptem uma perspectiva “narco-realista” do mesmo.

Todavia, este não foi o único evento deste encontro do festival. Em jeito de introdução à mesa-redonda, Luís Sepúlveda e Daniel Mordzinski apresentaram formalmente o seu livro "Últimas Notícias do Sul". 
Nascido de um desejo dos dois “irmãos” de fazerem uma reportagem sobre a Patagónia, livres da “tirania editorial”, o livro faz um relato das pessoas e dos locais de uma das zonas do mundo com as condições climatéricas mais adversas, que tornam a vida das pessoas, nas palavras do escritor chileno, “muito dura, sem lugar para preocupações com nacionalismos”. O mesmo disse que este é um livro que “desmistifica a rivalidade criada por alguns políticos entre argentinos e chilenos”.

Fonte: Hardmusica - Portugal

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"No Irã nunca haverá paz" - Livro sobre a revolução no pais dos aiatolás escrito em 1981 é publicado no Brasil


Marcos Guterman

O Irã dos aiatolás é um país em estado permanente de vingança. Essa visão, que explica as tensões geradas pela teocracia iraniana em relação ao Ocidente, surge em “O Xá dos Xás”, livro de 1981 do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski que está sendo lançado agora no Brasil.

Morto em 2007, Kapuscinski é um autor controverso. Ele testemunhou 27 revoluções – a última delas no Irã, em 1979, quando o xá Reza Pahlevi foi derrubado por democratas e religiosos islâmicos – e descreveu boa parte desses movimentos misturando literatura e jornalismo. Vários detalhes que ele incluiu em suas narrativas carregam erros factuais ou mesmo invenção pura. Nada disso, porém, tira a força de sua obra – pelo contrário: pode-se dizer que o criativo Kapuscinski valoriza o espírito das revoluções, o que o jornalismo, sozinho, talvez não seja capaz de fazer. Para ele, os “fatos” eram meros acessórios de uma história muito maior.

No caso de “O Xá dos Xás”, essa história tem como elemento central a elaboração da resposta iraniana ao imperialismo ocidental, traduzido pela figura de Pahlevi. A Revolução Islâmica, ápice dessa reação, isolou deliberadamente o Irã, e Kapuscinski vê nisso uma qualidade. A leitura que Kapuscinski faz desse desdobramento beira o simplismo ideológico – não nos esqueçamos de que ele trabalhou durante muito tempo para a agência de notícias do Partido Comunista da Polônia. “No mundo superlotado e impositivo de hoje, a única forma de o mais fraco se defender, de conseguir manter-se à tona, é separar-se dos demais, colocar-se à margem”, escreve Kapuscinski, a propósito da intenção do Irã sob o regime do aiatolá Ruhollah Khomeini de não permitir a influência ocidental.

O jornalista diz que “as pessoas têm medo de ser engolidas, desnudadas, de passar por um processo de uniformização” do pensamento. Kapuscinski, porém, é omisso quanto à uniformização do pensamento empreendida pelo regime teocrático em nome da “pureza cultural”, que só existe no discurso de tiranos travestidos de guardiães de tradições ancestrais.

Mas Kapuscinski atribui ao xiismo o papel de elemento definidor do Irã, como se o xá fosse uma aberração e não tivesse sido ele mesmo produto das contradições do país. Segundo seu raciocínio, o Irã que o Ocidente conhece não é senão o dos “petroburgueses”, classe social de parasitas criada pelo xá no boom do petróleo na primeira metade dos anos 70, que se pendura na rede de favores e de corrupção em torno do monarca e se isola em vilas sofisticadas em Teerã e na Europa. “Como é distante dessas vilas o Irã real, que, em breve, levantará a voz e surpreenderá o mundo!”, escreve Kapuscinski. “A nova classe social faz uma demonstração da dolce vita iraniana sem limites em sua perversão de costume, ganância e cinismo.” O juízo de valor retroativo, baseado na leitura de que um estado “ideal” foi contaminado pela “perversão” estrangeira, cria a problemática sensação de que os iranianos não foram, eles também, responsáveis pelo regime tirânico que por tanto tempo os governou.

Por outro lado, e é nisso que reside a força da narrativa de Kapuscinski, fica claro que o xá foi longe demais. No livro, compreende-se o tamanho da hostilidade do iraniano comum em relação ao Ocidente, encarnado na figura do monarca e de seus patrocinadores americanos e britânicos, algo fartamente explorado pelos aiatolás. Compreende-se também que as eventuais sanções impostas ao Irã são vistas como interferência externa e que, na história iraniana, não é exatamente um problema viver sob esse bloqueio.

Como mostra Kapuscinski, o Irã xiita se enxerga como “asilo e refúgio” para aqueles que contestam os poderosos: “Um xiita é, antes de tudo, um oposicionista”. A ostentação das monarquias muçulmanas sunitas é um incômodo grave para os xiitas, minoritários no mundo islâmico e que se veem como um povo orgulhosamente marcado para sofrer. O xá desafiou esse estado de espírito quando o petróleo revirou o Irã do avesso, criando “a ilusão de uma vida totalmente transformada, de uma vida sem esforço, de uma vida gratuita”, escreve Kapuscinski. “O petróleo é uma matéria-prima que envenena a mente, embaça a visão, desmoraliza.” O xá prometeu transformar o Irã em potência, momento em que, para o autor, o país mergulhou na luxúria e na insensatez.

O contraste do inseguro e depravado xá com o vigoroso e asceta Khomeini não poderia ser maior. O velho aiatolá, que nunca foi retratado quando jovem, “jamais saiu de Qom”, sua cidade natal, núcleo de imenso fervor religioso. Era, nas palavras de Kapuscinski, um “homem obstinado e dono de uma firme e inexorável força de vontade”.

Já a fragilidade do xá se traduz, conforme Kapuscinski, na violência absurda de sua polícia política, a Savak, que podia sequestrar qualquer pessoa, torturá-la muito além do limite da sanidade e só então perguntar-lhe o nome e o endereço. O resultado disso foi o terror permanente. Desse modo, mostra o autor, o regime do xá deixou aos iranianos a escolha entre a Savak e os mulás. “O povo, claro, escolheu os mulás.” O Irã então erigiu um regime quase tão opressor quanto o do xá, em nome da independência em relação ao Ocidente. Mas, como diz Kapuscinski, os iranianos escolheram os mulás em 1979 não porque são fanáticos, mas porque são esclarecidos. Por essa razão, o movimento reformista do Irã contra os exageros da teocracia, traduzido na recente “revolução verde”, pode ser o primeiro sintoma de que a roda da história no país não parou de girar. Como diz um entrevistado a Kapuscinski, “no Irã nunca haverá paz”.

Publicado com título "A resposta iraniana ao poder ocidental"


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Umberto Eco - Do mosteiro ao picadeiro

Umberto Eco. No detalhe: O Cemitério de Praga, novo romance de Eco
Francesca  Angiolillo

"Todas as perguntas possíveis já me foram feitas", diz Umberto Eco, após terminar o café, afundado numa poltrona da sala de visitas de sua casa, em Milão. A cigarrilha apagada, hábito de ex-fumante, pende de um lado da boca. "Só não me perguntam, sei lá, quais são os sete anões. Eu responderia que, quando tento me lembrar, sempre são seis."

Ao fundo, atrás de sua calva, vê-se, de um lado, uma coleção de conchas do mar, escrupulosamente organizadas; de outro, em atris, livros ilustrados do fim do século 19. São alguns dos originais de onde saíram as ilustrações de seu mais recente romance, "O Cemitério de Praga" [Record, trad. Joana Angélica D'Avila Melo, 480 págs, R$ 49,90].

O "Cemitério" foi recebido como a volta de um mestre ao gênero que o consagrou (após um romance nostálgico e de fundo autobiográfico, "A Misteriosa Chama da Rainha Loana"): uma trama de mistério, com crimes sangrentos e um protagonista que chega a ser comovente em sua pusilanimidade.

A entrevista tem por mote o lançamento do livro no Brasil mas também os 80 anos do escritor, nascido em 5 de janeiro de 1932, na piemontesa Alessandria, cuja fama vem dele e dos chapéus Borsalino. Em várias fotos para a imprensa, ele ostenta, com elegância algo zombeteira, um modelo negro da marca.

Romance

Eco, o romancista, nasceu em 1980, após sobrevir-lhe o desejo de envenenar um monge: assim o escritor define o motor inicial de seu "O Nome da Rosa", best-seller de cifras milionárias, levado ao cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery e Christian Slater.

Àquela altura, o nome do professor italiano era já conhecido: foram muitos ensaios e títulos de teoria, da poética do escritor irlandês James Joyce ("Sou joyciano, não proustiano", diz, e exibe uma estante forrada de primeiras edições de "Ulysses" em diferentes idiomas) a análises da comunicação de massa (seu primeiro emprego pós-doutoramento em filosofia, em 1954, foi como editor de cultura num dos canais da rede televisiva RAI).

O manual "Como se Faz uma Tese" (Perspectiva), de 1977, ainda hoje é referência em cursos de ciências humanas. Mas o currículo de Eco faz com que ele frequente as bibliografias de muitas disciplinas que não só as de metodologia.

Umberto Eco navegou nas principais ondas que atravessaram os estudos da linguagem na segunda metade do século 20, do estruturalismo à teoria da recepção e à narratologia, parando às margens do pós-estruturalismo; cobriu da filosofia às tirinhas do Snoopy.

Cunhou expressões que se tornaram muletas do discurso universitário: atire a primeira pedra quem nunca disse que toda obra é "uma obra aberta" ou aquele que não juntou numa frase, dita à mesa do bar, "apocalípticos" e "integrados".

Foi a ficção, porém, que levou seu nome aos píncaros da cultura de massa.

No Brasil, "O Nome da Rosa" saiu em 1984 pela Nova Fronteira. A diretora editorial da casa, Leila Name, qualifica o livro como "uma bomba de sucesso" cujo efeito se multiplicou com o filme. Pelos registros da Nova Fronteira, a primeira investida de Eco na ficção teve no Brasil mais de 45 reimpressões e vendas acima de 600 mil exemplares.

Hoje, sua obra ficcional está toda na Record, que também lança alguns de seus livros de ensaios, como "A História da Beleza" e "A História da Feiura", almanaques eruditos de popularização da história cultural. Somados, seus títulos na casa venderam cerca de 550 mil exemplares ""91 mil deles de "O Cemitério de Praga".

Sergio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, lembra a aquisição de "O Pêndulo de Foucault", segundo romance de Eco, em um leilão """via fax, telex""" comandado por seu pai, Alfredo Machado nos idos de 1988. A quantia acertada pelos direitos do segundo romance de Eco era uma cifra "inédita", US$ 130 mil (cerca de US$ 237 mil, em números corrigidos, o equivalente a R$ 420 mil).

"Na época, US$ 20 mil eram um absurdo", situa Machado. O editor se esquiva de fornecer valores atuais, mas diz que a soma paga por um livro de Eco "não anda para trás" e "vem subindo de forma consistente".

Dali em diante, tudo o que Eco escreveu atingiu números superlativos --inclusive o que menos vendeu na Record, "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", com "apenas" 48 mil exemplares. "Este foi um pelo qual a gente pagou mais do que devia", diz o editor. "As pessoas querem mais do mesmo."

Eco não discorda. "Todos falam que escrevo romances eruditos, difíceis", diz o escritor. "Quando escrevi um fácil, que todo mundo entende, 'A Misteriosa Chama da Rainha Loana', foi o que menos vendeu. Dá para ver que sou um autor para masoquistas."

Dan  Brown

Muitos intelectuais, porém, não engolem a combinação de sucesso comercial e erudição de Eco, tachando-o de uma espécie de Dan Brown mais cultivado. O raciocínio é um velho conhecido no Brasil, onde serve para desqualificar, por exemplo, os romances de Chico Buarque: se o autor vende bem e é pop, mau sinal --só pode ser um picareta.

"Ter Umberto Eco nas estantes da sala é, para muitos, inclusive os que jamais leram uma linha desses livros, uma questão de 'status cult'", diz a professora Lucia Santaella, da PUC-SP, colega em semiótica de Eco, a quem tece "críticas até mesmo bastante severas". Para ela, o italiano é uma espécie de grife, que "compõe bem a pose dos pseudointelectuais que brilham nas grandes praças dos lançamentos do 'big show business'".

Um de seus detratores contumazes na Itália, o romano Alfonso Berardinelli, estrela da crítica italiana atual, diz --citando Kafka-- que Eco está no centro do mundo, onde se acumula toda a sua imundície, "a prodigiosa escória".

"Escrevi pelo menos quatro ou cinco artigos e ensaios contra Eco", rememora à Folha. "Não posso dizer nada de novo; Eco me aborrece faz tempo, e o que eu tinha a dizer já disse há 20 ou 30 anos. Fico maravilhado em ver como agrada", afirma o autor de "Da Poesia à Prosa" (Cosac Naify).

"Parece engraçado e brilhante, mas na realidade é um professor que não cessa de mesclar erudição e piadas com veia estudantil. E sem fazer rir. É quase uma ofensa à literatura italiana que ele seja seu autor mais notável."

Berardinelli diz ainda não conhecer nenhum escritor --"nem na Itália, nem fora"-- que goste mesmo de Eco. "Sua fama é puramente comercial. É um fenômeno de circo, um autor que impressiona professores de escola."

Picadeiro

No meio do picadeiro pós-lançamento, Eco segue imperturbável: profere pausadamente um discurso que soa familiar, pois volta e meia as palavras se repetem em manifestações públicas e entrevistas.

Pudera: a vida literária muitas vezes rivaliza com a de um roqueiro, com cansativas turnês de lançamentos ("Voltei dos EUA com o ombro arruinado, depois de autografar 3.000 livros", conta) e solicitações para opinar publicamente sobre todo e qualquer fato relevante (menos sobre os sete anões).

Seu apartamento é uma grande biblioteca --são 30 mil volumes; outros 20 mil, estima, estão em sua casa de campo--, mas nada de labirintos compartimentados, apesar de o edifício ser um antigo hotel. À entrada, mapas antigos recebem o visitante; a sala é luminosa e ordenada, com móveis discretos e claros; nas paredes, arte contemporânea; pela janela vê-se a torre do castelo Sforzesco, famoso marco turístico milanês.

A antiga residência dos duques de Milão remonta à Idade Média, período dileto de Eco, que se doutorou pela Universidade de Turim em 1954 com uma tese sobre a questão estética em São Tomás de Aquino. Mas da fortaleza que foi, após múltiplos ataques e sucessivas reconstruções, praticamente nada de original resta.

"Os turistas vêm aqui ver o castelo, onde é tudo falso, e não vão a Brera, onde tem Rafaello, o Cristo de Mantegna, Piero Della Francesca", lamenta o escritor.

Falsário

O falso e o verdadeiro são um tópico da obra de Eco. Simone Simonini, o protagonista de "O Cemitério de Praga", é um falsário. Ou melhor, "o" falsário: Eco atribuiu a ele os grandes crimes contra a verdade que marcariam a virada para o século 20 e, mais que todos, os apócrifos "Protocolos dos Sábios de Sião", conjunto de escritos antissemitas que teriam servido a Hitler para a fundamentação do nazismo.

"Havendo-me ocupado de problemas de linguagem e comunicação desde 1975, escrevi que o que caracteriza toda forma de signo e de linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente jamais. Quando late, é porque tem alguém lá fora: nunca aconteceu de um cão latir para que se pense que há alguém lá fora, sem que haja --o homem sim."

"O problema da mentira implica o problema da falsificação. Entre as falsificações mais trágicas, eis os 'Protocolos dos Sábios de Sião', aos quais dediquei vários escritos. Acho que fiz também algumas descobertas ""como a de que trata o romance, que uma das fontes era 'Joseph Balsamo', o livro de Dumas."

O romance de Alexandre Dumas, pai, de 1849, se inicia com uma cena em que maçons entronizam o protagonista em sua seita secreta. A descrição teria inspirado a conspiração de rabinos dos "Protocolos", forjada no cemitério judaico da capital tcheca, que se teriam congregado para tramar a dominação do mundo.

O "documento" (que difama os semitas "num patchwork contraditório que não se poderia levar a sério, mas que foi muito levado a sério") justificaria o ódio aos judeus e seu extermínio preventivo.

"Ninguém sabe como surgem os 'Protocolos': como nasceram, quem os fez, em quantas fases. Por isso fiquei livre para atribuir tudo a Simonini", diz. E explica que Simonini é o único personagem fictício no romance, um "feuilleton" oitocentista.
Ele frisa, porém que, Simonini, apesar de inventado, "é mais verdadeiro que os demais".
"Eu estava sempre pensando em pessoas que conhecemos, falsários, jornalistas vendidos, que sabemos quem são, até o nome e o sobrenome. Minha ambição seria que os leitores usassem o livro como um guia para visitar o mundo dizendo 'lá vai um Simonini'."
Eco arrisca uma leitura psicológica das motivações para a obsessão central de Simonini, que é o ódio aos judeus fomentado nele pelo avô desde a infância.

"Descobri que algumas pessoas acabam odiando alguém porque lhe fizeram mal ""veja bem, não odeio alguém porque alguém me fez mal, mas porque eu lhe fiz mal e depois o odeio. Mas por quê? Porque tento esquecer que eu sou o culpado e tento me convencer de que ele merecia meu ódio."

E garante: "Aconteceu comigo também: gente que aprontou comigo depois escreveu artigos contra mim. Mas entendi que tinham sido desrespeitosos comigo e depois precisavam se justificar".

Como reza o título da mais recente coletânea de ensaios de Eco --o ainda inédito em português "Costruire il Nemico" (2011), no qual se reconhecem temas e aspectos de "O Cemitério de Praga": é preciso construir o inimigo.

Crítica

Eco diz "desconfiar muito da chamada crítica militante, a que se faz nos jornais, em comparação com a crítica acadêmica".

"Antes, quando saía um livro, o diretor do jornal dava seis meses ao crítico para ler; não havia necessidade de falar dele no dia seguinte. Hoje o crítico lê sempre numa situação de pressa e fica sujeito à estação, à dor de cabeça, ao que comeu na noite anterior. Se tivesse tido seis meses, comendo cada dia algo diferente, a sua leitura seria mais equilibrada."

E, como que a precaver-se de um ataque, emenda: "Note-se que eu acho desequilibradas não só as críticas que falam mal de meus livros mas também as que falam bem; elas às vezes me irritam porque falam bem pelos motivos errados."

Ele se irrita, também, quando inquirido se existem de fato "motivos errados". Parece condenado a relembrar que a obra é aberta, sim, mas que a interpretação tem limites: "A minha posição é muito clara: não sou um desconstrutivista que acha que um texto pode ter qualquer significado e que cada um pode ler como quiser. A liberdade da leitura é sempre determinada pelo objeto que está lá."

Semiótica

Se a semiótica foi devorada por outros estudos e devolvida sob outros avatares acadêmicos, a culpa é em parte de Eco.

Com rara clareza numa ciência em que a obscuridade volta e meia era confundida com argúcia, o italiano aplicou conceitos da ciência dos signos em estudos amplamente difundidos e citados (mesmo que muitas vezes de orelhada) fora do âmbito dos semioticistas, alastrando-os para campos mais diversos e talvez menos cerebrais.

Sempre evocada quando se pensa em semiótica, sua produção, porém, não empolga seus pares. Para Lucia Santaella, o pensamento que ele produziu é "miscigenado": "Ele mistura indiscriminadamente correntes, autores, teorias, criando uma salada complexa e difícil de entender."

A professora não nega a Eco o papel de "intelectual engajado", que, "alerta, marca sua posição acerca dos eventos", "como um jornalista bem dotado".

"Ele é escritor prolífico. Nos inúmeros congressos de que participei em que ele estava presente, comentava-se que ele escrevia até nos táxis. De fato, ele tem a veia dos gênios. Sua genialidade é a do discurso", concede Santaella.

Paródia

O discurso de Eco tem um aspecto brincalhão que parece atiçar parte da crítica contra ele e marca, por exemplo, seus dois "Diários Mínimos", divertidas coletâneas de paródias e pastiches intelectuais, que em maio ganham nova edição [Record, trad. Joana Angélica D'Avila Melo e Sergio Duarte, 560 págs., R$ 62,90; leia trecho de "Nonita" à pág. 10].

A despeito do lado gracioso, Eco tem para sua literatura pretensões nada triviais. Seus diversos ensaios sobre a leitura, como "O Papel do Leitor", e livros sobre o tema, como "A Obra Aberta" e "Lector in Fabula", talvez sejam o retrato do que o Eco ensaísta esperava do Eco romancista: a forja, no mundo real, de um leitor modelo.

"Que leitor modelo eu queria quando estava escrevendo?", inquire retoricamente Eco em seu "Pós-escrito a 'O Nome da Rosa'" (Nova Fronteira, 1985). "Um cúmplice, claro, que entrasse no meu jogo. Eu queria tornar-me completamente medieval e viver na Idade Média como se esta fosse minha época (e vice-versa)", escreve.

"Mas, ao mesmo tempo, eu queria, com todas as minhas forças, que se desenhasse uma figura de leitor que, superada a iniciação, se tornasse meu prisioneiro, ou melhor, prisioneiro do texto e pensasse não querer nada mais do que aquilo que o texto lhe oferecia."

Questionado se o teórico transparece no romancista, ele nega. Diz que, se é que se encontram reflexos de sua teoria na sua ficção, é "porque evidentemente eu não sou esquizofrênico": "Até os ginecologistas se apaixonam. Sustento que você pode ter a teoria que for, mas, quando lê, se aquilo o cativa, ao menos numa primeira fase da leitura esquece a teoria."

Berardinelli, seu crítico mais feroz, faz uma descrição tão ácida quanto acertada do que é tentar definir a produção de Eco.

Assim diz, no texto "Umberto Eco e Seu Pêndulo", publicado aqui em edição da revista "Remate de Males" organizada pela professora Maria Betânia Amoroso no primeiro semestre de 2005:

"Toda vez que se cai na armadilha de seguir enumerativamente a vertiginosa pluralidade da mente de Eco, se acaba por ter que desistir derrotado: estamos frente ao inesgotável [...]. Se eu também me pusesse a enumerar tudo aquilo que ele enumera não faria nada mais do que lhe fazer eco."

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ameaçado de morte por muçulmanos radicais, autor de "Versos Satânicos" desiste de participar de festival literário na Índia


Salman Rushdie

O escritor Salman Rushdie renunciou hoje à sua participação num festival de literatura na Índia, afirmando que temia pela sua vida. Radicais muçulmanos criticaram abertamente a sua presença no evento e fizeram ameaças de morte.

"Fui informado pelos serviços de informação (...) que assassinos a soldo de Bombaim poderiam estar a caminho de Jaipur para me tentar matar", afirmou o escritor num comunicado em que renuncia à sua participação no Festival Literário de Jaipur. Via Twitter, declarou-se "muito triste por não estar em Jaipur. Foi-me dito que a máfia de Bombaim deu armas a dois atiradores para me "eliminarem".
A presença de Salman Rushdie no festival reacendeu a controvérsia em torno do "Versículos Satânicos", livro considerado blasfematório por alguns muçulmanos e que esteve na origem de uma fatwa decretada pelo ayatollah Khomenei em fevereiro de 1989, incentivando a morte do escritor, nascido em Bombaim numa família muçulmana e naturalizado britânico.

A polémica reacendeu-se nas últimas semanas quando o líder da universidade islâmica Darul Uloom, berço do pensamento muçulmano pediu ao governo para impedir a entrada de Rushdie na India.
Na sequência das ameaças, o ministro de estado do Rajastão, onde está localizada a cidade de Jaipur, aconselhou Salman Rushdie a evitar a entrada no país por razões de segurança.

As ameaças ao escritor fizeram várias vítimas. O tradutor japonês de Salman Rushdie foi esfaqueado até à morte em 1991 e um mês depois o tradutor italiano foi espancado e esfaqueado por alguém que queria o endereço do escritor. Em 1993, foi o editor norueguês que foi alvejado, tendo ficado seriamente ferido.
A desistência de Salman Rushdie ensombrou o primeiro dia do festival literário de Jaipur. "Trágico", classficou William Dalrymple, escritor e membro da organização.

Milhares de pessoas são esperadas no festival para verem Oprah Winfrey e outros escritores de renome mundial como Michael Ondaatje, Tom Stoppard e Annie Proulx.

O escritor, 64 anos, participou no festival em 2007, sem incidentes. Este ano estava convidado para falar do livro "Os Filhos da Meia-Noite" (1981), que lhe valeu um Booker Prizer, e numa mesa-redonda sobre a "indianização" da língua inglesa.

A Índia, maioritariamente hindu, tem uma comunidade de 150 milhões de muçulmanos.

A fatwa decretada ao escritor nunca foi levantada, mas em 1998, o governo do Irão dissociou-se formalmente das ameaças de morte ao escritor. Depois disso, o governo do Reino Unido reatou relações com o Irão.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Crônica: Orgulho? De que?


Giul Cavasin

“Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções/ Ninguém passa mais brincando feliz”.

É, agora ninguém mais brinca de ser rei ou rainha, menestrel ou jogralesa.

Todo mundo abaixa a cabeça diante do peso da realidade.
Ninguém mais joga confetes nem serpentinas para dar mais brilho ao baile de carnaval.
Todos voltam a reclamar das coisas cotidianas, falar que tudo é culpa do governo, tomar conta da vida alheia... Todos voltam a prestar atenção nas coisas que realmente precisam de atenção.

Na quarta-feira, todos voltam ao trabalho, quer estejamos bem ou não. Mas o Brasil só volta mesmo na quinta, com exceção da Bahia, que tem um carnaval por ano e dura o ano todo.
Acabado esse samba todo, esse axé, esse funk, entre outros ritmos que se toca nas festas de carnaval, onde fica o nosso orgulho de sermos brasileiros?

Pois, claro que o Brasil se orgulha de ser reconhecido mundialmente como “país do carnaval”, “país do futebol”. ... 
Talvez também devesse se orgulhar por ser 16° no ranking de avanços na educação (quando sabemos que o país tem potencial para fazer mais), 24° lugar entre 119 países que sofrem com o problema da fome, 70° colocado entre 163 países que também possuem políticos corruptos.
Somos 35° colocados em atuação ambiental... Depois reclamam que vão perder a Amazônia, que todo mundo vai ficar sem água, sem ar, sem planta... Sem vida!

“A tristeza que a gente tem / Qualquer dia vai se acabar”.(...) “Porque são tantas coisas azuis / E há tão grandes promessas de luz”, que, mesmo o povo ainda vivendo na escuridão, todo mundo brinca o carnaval e acha lindo! 

Será que ainda temos esperança de um país melhor? Um país que sofre com tantas doenças sociais e investe milhões em escolas de samba e desfiles de carnaval?
Sabe, acho que a Marcha da quarta-feira de cinzas só vem nos mostrar o que o país passa o ano todo e todos, inclusive autoridades, enxergam esses problemas uma vez por ano: Quando acaba o carnaval. 
Afinal, eles não têm tempo de pensar nessas coisas... Precisam preparar o país para a chagada do coelhinho da páscoa, depois, para a festa de São João, depois, para a festa de  Aparecida, e depois... Para que se preocupar, já acabou o ano mesmo...

Um país que tem uma administração baseada em festas, só pode ser país do carnaval!

Giul Cavasin é blogueira, professora de língua e literatura portuguesa e inglesa.e colaboradora do Texto & Contexto
Conheça o blog da Giul: Noias e Tramoias

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cantora Patti Smith ganha prêmio literário nos EUA e implora à editoras manutenção do modelo tradicional de livro

Patti Smith


A roqueira Patti Smith estava entre as grandes vencedoras na cerimônia de entrega do Prêmio Nacional do Livro (National Book Awards) dos Estados Unidos na quarta-feira (17/11) por seu livro de memórias "Só Garotos". Ela recebeu o prêmio às lágrimas e pediu que as editoras não deixem a tecnologia acabar com os livros tradicionais.

Tom Wolfe, autor de best-sellers como "A Fogueira das Vaidades", "Os Eleitos" e "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", venceu a medalha pela contribuição às letras norte-americanas.

Jaimy Gordon superou autores como Peter Carey e Nicole Krauss ao ganhar o prêmio na categoria de ficção por "Senhor de Misrule", publicada pela McPherson & Co.

A noite teve espaço para piadas sobre a condição atual da indústria editorial de livros, que está vivendo um período conturbado com o surgimento do mercado de livros eletrônicos.

Cantora e compositora Patti Smith recebe prêmio no National Book Awards por seu livro de memórias
Smith, uma cantora, compositora e poeta norte-americana de 63 anos, se emocionou ao receber o prêmio de não-ficção por "Só Garotos", sobre suas dificuldades durante a juventude e o relacionamento com o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe.

"Não existe nada mais belo que um livro, o papel, a fonte, o tecido", disse Smith, cujo livro foi publicado pela Ecco, da HarperCollins. "Por favor, não importa o quanto avancemos tecnologicamente, por favor nunca abandonem o livro."

Wolfe, de 79 anos, um dos defensores do estilo "novo jornalismo" nos anos 1960, lembrou de seus primeiros trabalhos de reportagem e deu o conselho aos futuros romancistas: "Primeiro, deixe o prédio e depois sente para escrever."

O prêmio de poesia foi para Terrance Hayes por sua quarta coleção "Lighthead", da Penguin Books.

Kathryn Erskine venceu o prêmio de literatura para jovens, por "Mockingbird", publicada pela Philomel Books, da Penguin Young Readers Group.

Na lista de um dos prêmios literários mais importantes dos Estados Unidos estavam 13 mulheres entre os 20 finalistas. Segundo a Fundação Nacional do Livro norte-americana foi o maior número de mulheres indicadas na história da premiação. Cinco finalistas disputam cada uma das quatro categorias, e o vencedor recebe 10 mil dólares.


Fonte: Folha de São Paulo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

George Bush - uma autobiografia em defesa da Guerra do Iraque


O ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (2001-2009) voltará nesta terça-feira ao cenário público com o lançamento de um aguardado - embora pouco surpreendente-- livro de memórias.

As 481 páginas de "Decision Points" (pontos decisivos, em tradução livre) não surpreenderão aqueles que forem às livrarias para saber o que levou Bush a declarar a guerra ao Iraque, como o furacão Katrina o afetou ou por que ele autorizou o uso das simulações de afogamento, técnica de tortura, no interrogatório de terroristas.

Todas essas respostas já foram muito exploradas em uma extensa cobertura da imprensa, ansiosos por trazer de volta à cena política o ex-presidente que encerrou seu mandato com o índice de impopularidade mais alto da história moderna do país, de 76% (mas que aparece cada vez melhor ao longo do mandato de seu sucessor, o democrata Barack Obama, e a lenta recuperação econômica).

Mas enquanto todos falam de seus deslizes políticos, como aquele no qual reconhece que pensou em se livrar do vice-presidente Dick Cheney na campanha pela reeleição em 2004, Bush quer afastar-se o máximo possível deles.

Em entrevista a Oprah Winfrey que será transmitida nesta terça-feira, Bush afirmou que não é um cientista político e se recusou a comentar as eleições legislativas que nesta semana fizeram o Partido Democrata perder a maioria na Câmara para seu Partido Republicano.

O ex-presidente também prefere não criticar seu sucessor, Barack Obama, quem ele insiste em tratar da forma como ele "gostaria de ter sido tratado". "Obama tem um trabalho muito difícil pela frente, acreditem", disse Bush. "Ele terá muitos críticos, e não precisa que eu seja um deles".

Bush inclusive elogiou o atual chefe de Estado, ao lembrar que seu carisma o impressionou antes das eleições de 2008.

Erro

O furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans em 2005, foi responsável por uma enxurrada de críticas a Bush após a publicação de uma imagem que o mostra a bordo do Air Force One contemplando a região atingida.

"Foi um erro enorme", destacou o ex-presidente em entrevista que a cadeia NBC transmite nesta segunda-feira, e na qual também afirma que a imagem o mostrava "distante e indiferente", em um momento no qual ele enfrentava uma série de críticas por sua lenta resposta à catástrofe.

O Katrina também originou o que Bush considera "um dos pontos mais baixos" de sua Presidência --quando o rapper Kanye West o chamou de racista e disse que ele não se importava com os negros que compõem a maioria da população de Nova Orleans.

Os comentários de West afetaram muito a imagem do ex-presidente, assim como as críticas à sua gestão na Guerra do Iraque e os protestos pelos métodos que recomendou para os interrogatórios a terroristas da Al Qaeda após os atentados de 11 de setembro de 2001.

"Pensei nas 2.971 pessoas que foram afastadas de suas famílias em 11 de setembro e em meu dever de proteger meu país de outro ato terrorista", escreve em relação às simulações de afogamento, uma prática que motivou amplas investigações dentro da CIA, a Agência Central de Inteligência americana.

A autobiografia de Bush tenta humanizar a imagem do ex-presidente americano. E, nessa tarefa, os desafios pessoais - como o momento em que decidiu largar o álcool para vencer a dependência - são a arma de Bush para limpar sua imagem, após meses de discrição em seu rancho do Texas.


Fonte: Folha

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"Literatura é negação da realidade" diz Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa

O peruano Vargas Llosa é prêmio Nobel de Literatura 2010

Para o peruano Mario Vargas Llosa, recém-anunciado vencedor do Nobel de literatura, ao menos três brasileiros poderiam ter ganho o prêmio: Guimarães Rosa (1908-1967), Jorge Amado (1912-2001) e Euclydes da Cunha (1866-1909).

O primeiro, segundo ele, foi prejudicado pela dificuldade de se traduzir sua obra. O segundo, pela característica de escritor popular.

Para Vargas Llosa, "Os Sertões", de Euclydes, no qual se baseou para escrever "A Guerra do Fim do Mundo", permite compreender não só o conflito de Canudos, mas a América Latina.

Em conversa com jornalistas da Folha no auditório do jornal, ontem à tarde, o Nobel disse que a literatura é uma negação da realidade "queira ou não o escritor".

Autor de romances baseados em ditadores latino-americanos, disse que não escreverá mais sobre esses personagens. "Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Eles repetem a si mesmos como maníacos."

Vargas Lllosa falou pouco sobre seu Nobel. Confirmou a história de um xamã andino que, a partir de folhas de coca, previu que ele ganharia o prêmio. "Não acreditava muito na coca, mas parece que ela tem sabedoria".

Leia trechos do bate-papo:

Nobel brasileiro
Não está certo [que nenhum brasileiro tenha recebido o prêmio]. Deveriam ter recebido. Guimarães Rosa mereceria, sem dúvida. É um dos grandes escritores latino-americanos de seu tempo, pelo vigor e pela ambição da obra, pelo trabalho linguístico extraordinário.

Um dos problemas que teve é que sua obra é muito difícil de traduzir. As traduções não conseguem estar à altura do que são os livros, sobretudo "Grande Sertão: Veredas", uma obra-prima absoluta.

Amado no céu
Jorge Amado teve grande reconhecimento universal. Dizia que a Academia Sueca não havia lhe dado o prêmio por ser tão popular.

Quando começou a escrever, parecia um escritor velho. Seus primeiros romances são muito sérios, as pessoas quase não riem. Era mais ideológico, de denúncia social. À medida que envelhecia, rejuvenesceu como escritor.

Euclydes e "Os Sertões"
A mim impressionou tanto a história de Canudos quanto o caso do próprio Euclydes da Cunha, porque ele viveu essa guerra de uma maneira tão dramática e tão desgarrada que permitia ver até que ponto um país inteiro viveu um mal-entendido tão grande. É o que explica a matança.

A matança é resultado desta incomunicabilidade entre dois segmentos, um moderno e outro primitivo. Com variantes, essas divisões dogmáticas intolerantes, intransigentes, estão por trás dos grandes desgarramentos, das grandes tragédias sociais e políticas que a América Latina viveu em sua história.

Talvez por isso me fascinou tanto esse livro de Euclydes da Cunha. Porque, lendo-o, entende-se não só o que passou, mas a América Latina.

Negação da realidade
A literatura é uma refutação da realidade, queira ou não o escritor. Se estivéssemos contentes com o mundo tal como é, com a vida tal como é, não inventaríamos outro mundo. Para quê?

Literatura e ditadura
Um bom leitor de literatura é uma pessoa inquieta frente ao mundo e à realidade. Isso sempre foi muito bem entendido pelas ditaduras, todas. Porque não há ditadura que não queira controlar essa atividade que é a criação de mundos fictícios. Têm uma desconfiança natural pela literatura. Intuem que nela há algo perigoso. E creio que têm razão. Há algo perigoso na quimera que é a literatura.

Jornalismo e ficção
Não teria escrito boa parte dos livros que escrevi não fosse o jornalismo. Foi uma fonte maravilhosa de experiências. Para um jornalista, a linguagem tem que ser inevitavelmente um meio. Para o escritor, também, mas, ao mesmo tempo, do ponto de vista estético, é sempre um fim. Vale por si mesma.

Chega de ditadores
[Questionado se o presidente da Venezuela, Hugo Chávez seria um bom personagem] Escrevi bastante sobre ditadores. Escrevi "Conversação na Catedral" sobre a ditadura de [Manuel] Odría [que vigorou no Peru entre 1948-1956]. "A Festa do Bode" sobre a ditadura de [Rafael] Trujillo [na República Dominicana, 1930-1961]. Creio que Chávez é como um híbrido de Odría, de Trujillo. Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Os ditadores se repetem como maníacos. Não tenho vontade de escrever mais sobre ditadores.

García Márquez
[Questionado se o colombiano, com quem tem desavença, o cumprimentara pelo Nobel] Esse é um tema que vamos deixar para nossos biógrafos, se os merecermos.

Fonte: Folha

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Filho do Hamas: a história do filho do fundador do mais radical grupo terrorista do Oriente Médio






O autor do livro Filho do Hamas fala sobre sua conversão ao cristianismo, de ser espião de Israel e de ter envergonhado sua família.


“Estou totalmente consciente de que para quase todos eu sou um traidor”, diz Mosab Hassan Yousef. “Para minha família, para minha nação, para meu deus [Alá], eu cruzei todas as linhas vermelhas, infringi todas as leis em minha sociedade. Não restou nenhuma que eu não tivesse cruzado”.


Mosab, que tem 32 anos, é filho do sheik Hassan Yousef, um dos fundadores e líder do grupo terrorista palestino Hamas. Durante toda a década passada, desde a segunda intifada (rebelião dos palestinos) até a atual paralisação [das negociações de paz], ele trabalhou juntamente com seu pai na Margem Ocidental. Durante aquele tempo, o jovem Yousef também abraçou secretamente o cristianismo. E, como ele revela em seu livro Son of Hamas [Filho do Hamas], lançado nos EUA no início de março, tornou-se um dos principais espiões do Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel.


A notícia dessa conversão dupla reverberou em todo o Oriente Médio. Um dos contatos de Yousef no Shin Bet confirmou o relato dele ao diário israelense Haaretz. O Hamas – já abalado devido ao assassinato de um chefe militar importante em Dubai no mês de janeiro – chamou essas afirmações de propaganda sionista. Da prisão israelense em que se encontra desde 2005, o sheik Yousef divulgou uma declaração na qual ele e sua família afirmam: “Repudiamos completamente o homem que era nosso filho mais velho e que se chamava Mosab”.


Nos últimos dois anos, Mosab Yousef viveu em San Diego (Califórnia/EUA), onde evitou chamar a atenção sobre si por motivos de segurança. Os EUA estão analisando o pedido de asilo político feito por Mosab e, até sua confissão de espionagem e da repentina onda de publicidade que acompanhou essa confissão, só o conheciam como sendo o filho de um terrorista que às vezes freqüenta igrejas evangélicas na Califórnia. Com o livro, ele pretende iniciar uma nova etapa de vida na América.


Yousef, cujos olhos grandes e simpáticos se destacam em sua face oval, diz que ele mesmo ficou confuso durante muitos anos, e entende que muitas pessoas também ficarão. Sua família foi envergonhada e seus velhos amigos se recusam a acreditar nele. O livro, um thriller ao estilo de Le Carré, envolto em uma história espiritual que está amadurecendo, é uma tentativa de responder ao que ele diz ser “impossível de imaginar”“como eu acabei trabalhando para os meus inimigos, que me machucaram, que machucaram meu pai, que machucaram meu povo”.


“Existe uma explicação lógica”, continua ele em um inglês bastante fluente. “Simplesmente meus inimigos de ontem se tornaram meus amigos. E meus amigos de ontem se tornaram realmente meus inimigos”.


A primeira metade de suas memórias descreve a infância em Ramallah, marcada por laços familiares estreitos e pela ocupação israelense. Ele descreve um pai muçulmano bondoso e incomum, que faz o jantar, que trata bem sua mãe, e que se preocupa com seus vizinhos. Um imã (autoridade religiosa muçulmana) que fora treinado na Jordânia, o sheik Yousef chega à notoriedade em sua cidade natal e, em 1986 – juntamente com outros seis homens, inclusive um clérigo de Gaza preso a uma cadeira de rodas, o sheik Ahmed Yassin – forma o Hamas em um encontro secreto em Hebron. A primeira intifada palestina – ou seja, o primeiro levante palestino – estoura no ano seguinte. Mosab fez sua parte, atirando pedras nos colonos israelenses e nos veículos do exército.

“A maioria das pessoas ouviu falar sobre o Hamas depois que o grupo passou a realizar ataques terroristas”, diz ele, falando de perto da casa de seu agente em Nashville. “O Hamas começou como uma idéia. Digamos, uma idéia nobre – resistir à ocupação”. Aqueles primeiros choques com os israelenses geraram uma violência pior, e o cemitério perto da casa dele começou a ficar cheio de cadáveres. Os palestinos também se voltaram uns contra os outros. A Organização Pela Libertação da Palestina (OLP), corrupta e autoritária, vivia em confronto com o Hamas e com outros grupos que surgiam. Todos eles usavam acusações de “colaboração” como uma desculpa para torturar e matar seus rivais ou os mais fracos.


Yousef afirma ter despertado quando acompanhou pela primeira vez a crueldade do Hamas. Em 1996, foi preso pelos israelenses por comprar armamentos. Yousef diz que apanhou muito e foi torturado na prisão. Foi então que o Shin Bet se aproximou dele. Ele diz que pensou em tornar-se um agente duplo. “Eu queria me vingar de Israel”, escreve ele. Mas quando foi enviado para cumprir sua pena na prisão em Megido, no norte de Israel, diz que ficou mais chocado pela maneira como o maj’d, o braço de segurança do Hamas, tratava seus prisioneiros.


“Todos os dias, havia gritos; todas as noites, torturas. O Hamas estava torturando seu próprio povo!”, escreve ele. Os muçulmanos que encontrou na prisão “não tinham nenhuma semelhança com meu pai” e “eram perversos e mesquinhos... intolerantes e hipócritas”.


Por concordar em trabalhar com o Shin Bet, logo saiu da prisão. Ele diz que estava curioso acerca dos israelenses e rapidamente abandonou sua idéia de se tornar um agente duplo. Embora recebesse dinheiro do Shin Bet e permanecesse na folha de pagamento da agência durante uma década, seus treinadores naqueles primeiros anos não requisitaram muito dele. Eles o encorajaram a estudar e a ser um modelo de filho. Seu nome em código era Príncipe Verde: verde como a cor da bandeira islâmica do Hamas, e príncipe como o descendente da “nobreza” do Hamas.


Durante aqueles anos calmos ele conheceu um taxista britânico em Jerusalém que lhe deu uma cópia do Novo Testamento em inglês e em árabe, e o convidou para participar de um encontro de estudos da Bíblia que era realizado em um hotel. “Percebi que fui realmente atraído pela graça, pelo amor e pela humildade de que Jesus falava”, escreve no livro Filho do Hamas.


Como espião, Yousef não foi totalmente ativado até estourar a segunda intifada, em setembro de 2000. Alguns meses antes, em Camp David, Yasser Arafat, o então chefe da OLP, havia rejeitado a oferta israelense de um Estado palestino em 90% da Margem Ocidental tendo Jerusalém Oriental como capital. De acordo com o Yousef, Arafat decidiu que precisava de uma outra insurreição para ganhar de volta a atenção internacional. Então, buscou o apoio do Hamas através do sheik Yousef, escreve o filho, que o acompanhou ao complexo de Arafat. Aqueles encontros aconteceram antes que as autoridades palestinas encontrassem um pretexto para a segunda intifada. Esta ocorreu quando Ariel Sharon, o então primeiro-ministro de Israel, visitou o Monte do Templo em Jerusalém, local onde está a mesquita Al-Aqsa e o Domo da Rocha. O relato de Yousef ajuda a esclarecer o registro histórico de que o levante fora premeditado por Arafat.


Yousef me disse que ficou horrorizado com a violência sem motivo desatada por políticos que queriam subir “nos ombros dos pobres e das pessoas religiosas”. Ele disse que os palestinos que atenderam ao apelo “iam como um boi vai para o matadouro, e achavam que estavam indo para o céu”. Portanto, como escreve em seu livro, “com a idade de vinte e dois anos, eu me tornei a única pessoa do Shin Bet infiltrada no Hamas que poderia penetrar as alas militar e política do Hamas, bem como de outras facções palestinas”.


Yousef reivindica para si mesmo alguns golpes significativos de inteligência, e diz que ainda não está contando tudo para o mundo. Logo no início, ele foi o primeiro a descobrir que as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, um grupo terrorista nascido durante a segunda intifada, eram compostas pelos guardas de Arafat, sustentados diretamente por doadores internacionais. Ele diz que descobriu o fabricante de bombas palestino mais letal e frustrou as conspirações de assassinato contra o presidente Shimon Peres, então ministro do Exterior, assim como de um rabino muito conhecido. Mosab diz que desbaratou celas de homens-suicidas prontos para atacar Israel. E que ajudou a convencer seu pai a ser o primeiro líder importante do Hamas a oferecer uma trégua a Israel.


O treinador de Mosab, chamado “Capitão Loai”, agora aposentado do Shin Bet, confirmou muitas dessas histórias ao Haaretz. O jornal disse que o Shin Bet considera Yousef “um agente da maior confiança e profissionalismo”.


Mosab esforça-se por se justificar, mas finalmente “a questão é se eu sou um traidor ou um herói aos meus próprios olhos”.


Portanto, estamos de volta ao por quê?


A motivação, diz ele, foi salvar vidas.

“Eu já tinha visto mortes demais. Fui testemunha de muitas mortes. (...) Salvar uma vida humana é muito, muito lindo, não importa quem seja. Não são apenas os israelenses que me devem suas vidas. Eu garanto que muitos terroristas, muitos líderes palestinos também me devem suas vidas – ou, em outras palavras, eles devem suas vidas ao meu Senhor”.


Ele diz que usou de sua influência no Shin Bet para conseguir que os israelenses tentassem prender integrantes do Hamas e de outros grupos palestinos em vez de explodi-los com mísseis. Mosab afirma que salvou seu pai do destino do sheik Yassin e de outros líderes do Hamas, a quem os israelenses mataram. Para evitar que o mesmo acontecesse a seu pai, fez um arranjo secreto com o Shin Bet para que o mesmo fosse preso. “Eu sei com certeza que meu pai está vivo hoje, que ele ainda respira, porque eu estava envolvido nisso tudo”.


Yousef tem algo de evangelista em si, mesmo quando insiste que não é um cristão devotado e que ainda está aprendendo sobre sua nova religião. Ele quer que os israelenses e palestinos saibam o que fez por causa do Deus cristão.


“Converti-me ao cristianismo porque fui convencido por Jesus Cristo como um personagem, como uma personalidade. Eu o amei, amei sua sabedoria, seu amor, seu amor incondicional. Não deixei a religião [islâmica] para me colocar de volta em uma outra rígida estrutura religiosa. Ao mesmo tempo, é bonito ver que o meu Deus existe em minha vida e vê a mudança em mim. Percebo que, quando ele existir em outras pessoas do Oriente Médio, haverá mudanças.Não estou tentando converter toda a nação de Israel e toda a nação da Palestina ao cristianismo. Mas, pelo menos, a gente pode ensinar-lhes sobre a ideologia do amor, a ideologia do perdão, a ideologia da graça. Esses princípios são grandiosos independentemente de onde venham, mas não podemos negar que vieram do cristianismo”.


Yousef diz que sentiu-se sem ânimo e decidiu parar de trabalhar para o Shin Bet em 2006, mesmo contra a vontade deles. Quem abriu os caminhos para ele foram amigos no sul da Califórnia, que conheceu através dos estudos bíblicos.


Como filho de um clérigo muçulmano, diz que chegou à conclusão que o terrorismo não pode ser derrotado sem uma nova compreensão do islamismo. Assim, reafirma o que foi dito por outros que deixaram o islamismo, tais como a ex-parlamentar e escritora holandesa Ayaan Hirsi Ali.


Perguntei-lhe se considera seu pai um fanático. “Ele não é um fanático. Ele é muito moderado, uma pessoa lógica. O que importa não é se meu pai é fanático ou não, mas que está fazendo a vontade de um deus fanático. Não importa se é um terrorista ou um muçulmano tradicional. No final das contas, um muçulmano tradicional está fazendo a vontade de um deus fanático, fundamentalista e terrorista. Sei que isso é duro de dizer. A maior parte dos governos evita esse tipo de assunto. Eles não querem admitir que essa é uma guerra ideológica."

“O problema não está nos muçulmanos”, continua ele. “O problema está no deus deles. Eles precisam se libertar de seu deus. Alá é o maior inimigo que eles têm. Há 1.400 anos eles têm sido enganados”.


Estas são palavras perigosas. A respeito das ameaças feitas contra a sua vida por islâmicos, ele diz: “Essa não é a pior coisa que pode acontecer. Eu posso conviver com isso, não estou com medo. (...) Os palestinos têm razão para me matar. Alguns israelenses podem querer me matar. Meu alvo não é derrotar meu inimigo. É conquistar a confiança do meu inimigo."

 

Fonte: Beth Shalom



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