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quinta-feira, 8 de julho de 2010

O "X" da questão do conflito existencial

Considerado um "romancista católico" pela crítica, uma alcunha que não gostava, preferia se chamado de escritor que tem como religião o catolicismo, o escritor inglês Henry Graham Greene (1904-1991 - foto) deixou diversos livros de ficção que marcaram a literatura mundial. Greene agrupava sua obra em duas categorias: romances e entretenimentos. Sua marca pessoal era tratar de questões morais e políticas do seu tempo por meio de histórias de suspense, mistério e drama, desenvolvidas em cima de uma meditação subliminar sobre os pecados. Bem que mereceu o Nobel de Literatura, premiação a qual foi indicado algumas vezes, mas que nunca levou.

Um autor que caprichou na ação e enveredou em conjunto as angústias do ser humano. Escritor tão popular, que era difícil de imaginar que há algum tempo não se via obras suas nas prateleiras dos lançamentos. Contudo, após o sucesso da adaptação para o cinema Fim de caso, com Julianne Moore e Ralph Fiennes, seus títulos ganharam reedições.

Entre os quais, o livro O Cerne da Questão (The heart of the matter, tradução de Otacílio Nunes, 400 páginas - Editora Globo). Uma de suas obras mais marcantes, por mostrar os conflitos humanos em seus personagens – outro aspecto de sua obra – e que travam uma guerra impessoal em torno de questões como o livre arbítrio ou a graça. Algo que remete ao catolicismo, religião que Greene abraçou em 1926. Sentidos ocultos em lugares distantes seria uma crítica resumida de suas características narrativas.

Com o brilhante prefácio Nó Górdio, do critico e professor Carlos Vogt, O Cerne da Questão é uma obra séria, bem amarrada ao estilo claro que Greene construiu. Publicado originalmente em 1948, ganha agora uma nova tradução, bem reformulada deste o seu título, anteriormente O Coração da Matéria ao final da narrativa.

Ambientada num país africano da África Ocidental, que sabemos ser Serra Leoa, pelas memórias escritas pelo autor, O Cerne da Questão, narra os problemas enfrentados por Henry Scobie, major da policia colonial inglesa, durante o período da II Guerra Mundial.

 Vivendo naquele local com sua esposa, Louise, uma mulher solitária que adora poesia, que se sente estranha e isolada naquela sociedade. O major inglês sente se responsável por sua felicidade, e tenta ajudá-la, mas traumatizado com a morte da filha em um naufrágio e descontente com tudo ao seu redor, sente incapaz de amar alguém, somente a Deus.

Católico, Scobie prefere enviar sua esposa para a África do Sul, para não a ver sofrer. Principalmente após perder a chance de ser nomeado Comissário, afligindo mais ainda Louise, por suas esperanças pessoais. Nesse ínterim, um novo naufrágio faz reaparecer a dor da perda em Scobie ao testemunhar a morte de uma menina, entre os sobreviventes estão um garoto para quem lê histórias no hospital e Helen Rolt, que fica viúva no acidente e se torna amante do major.

A chegada do novo inspetor, Wilson, que se apaixona por Louise e a chantagem de Yusef, contrabandista sírio que descobre o seu adultério são elementos perturbadores do enredo de O cerne da questão. Scobie se encerra em seu desejo de perfeição à sua esposa, a sua amante, ao mundo, e nesse anseio em ser virtuoso a todo custo se rivaliza com Deus, em seu interior e a punição são a culpa e o castigo.

Um romance realista e na carreira de Greene, o romance é um livro capital. A temática do suicídio no final, colocado em dúvida aos personagens, e que para o leitor seja uma asserção de que o suicídio do protagonista é uma confissão do fracasso diante dos desígnios divinos ou um derradeiro ato de soberba de quem quer governar a própria morte.

Scobie é um personagem que lembra outras figuras que Greene   construiu, como o jovem delator de contrabandistas em O Outro Eu (The man within, 1929), ou o desesperado Pinkie de O Condenado (Brighton Rock, ) ou ainda o sacerdote indigno de O Poder e a Glória (The Power and the Glory). Todas perseguidas por seus infortúnios, com a diferença que o perseguidor e a vítima são uma só pessoa; a caça aqui é simbólica, ou serve, como uma intriga opaca que Greene desenvolve em seu convencionalismo.

Um livro que culpa e expiação são os fios condutores de seus personagens. Vale a pena ler.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Britânica lança primeiro livro aos 82 anos

 
Aos 82 anos, a professora e diretora de teatro Myrrha Stanford-Smith (foto) acaba de lançar no Reino Unido seu primeiro livro, The Great Lie (A Grande Mentira).

A obra é o primeiro volume da triologia prevista no contrato assinado entre a autora estreante e a editora galesa Honno.

O livro aborda, sob a ótica da ficção, a rivalidade entre Shakespeare e o dramaturgo e poeta Christopher Marlowe.

Myrrha Stanford-Smith enviou seus manuscritos à editora depois da boa repercussão de um conto infantil que havia mandado a um programa de rádio da BBC do País de Gales.

Ainda assim, ela diz que não esperava a resposta positiva dos editores. "Eu tive de pôr o fone no gancho e depois telefonar de volta, de tão surpresa que fiquei com a coisa toda", conta. "Eu realmente achava que o manuscrito seria rejeitado."

The Great Lie conta a trajetória de Nick, o filho de 16 anos do conde de Rikesby, que foge para Londres com uma tropa de atores viajantes. Na capital inglesa, acaba chamando atenção de Marlowe.

Myrrha Stanford-Smith trabalhou em Londres com o diretor de teatro Tyrone Guthrie. Mais tarde, tornou-se diretora e professora, até "se aposentar" na ilha de Anglesey, no País de Gales. Lá criou sua própria companhia de teatro, a Ucheldre Repertory Company.

Fonte: G1

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago - a morte do único nobel da literatura em Língua Portuguesa


Morreu nesta sexta-feira (18/06), aos 87 anos, o escritor José Saramago.

A morte de Saramago foi confirmada à imprensa portuguesa pelo seu editor, Zeferino Coelho. "Aconteceu há pouco", disse em entrevista à emissora de televisão RTP. "Estava doente há algum tempo, às vezer melhor outras vezes pior."

Fontes da família confirmaram a agências internacionais que Saramago estava em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde morava há vários anos.

A morte ocorreu por volta das 13h no horário local (8h de Brasília), quando o escritor estava em casa acompanhado da mulher e tradutora, Pilar del Río, informa a agência Efe.

José Saramago havia passado uma noite tranquila. Após ter feito o desjejum de costume e conversado com a mulher, começou a sentir-se mal e pouco depois morreu.

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998, Saramago nasceu em Azinhaga em novembro de 1922. Autodidata, publicou seu primeiro trabalho, "Terra do Pecado", em 1947.

Seu trabalho seguinte, "Os Poemas Possíveis", seria lançado 19 anos mais tarde e pelos anos seguintes ele se dedicaria principalmente à poesia e ao jornalismo.

Saramago volta à prosa no final da década de 1970. Seu estilo característico começa a ser definido em "Levantado do Chão" (1980) e em "Memorial do Convento" (1982).

Em 1991, Saramago lança sua obra mais polêmica, "O Evangelho Segundo Jesus Cristo".

Considerada blasfema, a obra foi excluída de uma lista de romances portugueses candidatos a um prêmio literário pelo Subsecretário de Estado adjunto da Cultura de Portugal, Sousa Lara, sob a alegação de que não representava o país.

domingo, 13 de junho de 2010

Anne Frank: a “face” das vítimas do holocausto nazista



Milhões de pessoas leram "Anne Frank: Diário de uma Jovem", obra que narra o cotidiano de uma garota judia e sua família, de 1942 a 1944, enquanto viviam no anexo secreto, um esconderijo em Amsterdã (Holanda).


O diário é um comovente testemunho sobre a maldade perniciosa dos nazistas. Sobre a obra, o escritor soviético llya Ehrenburg escreveu: "Uma voz fala pelos 6 milhões de judeus mortos; a voz não é de um sábio, nem de um poeta, mas de uma jovem como tantas e tantas outras"

A voz de Anne revestiu o Holocausto de uma face tangível, dando-lhe uma dimensão mais fácil de ser entendida, apesar da dificuldade da mente humana em lidar com tamanho horror. Assim, o Diário de Anne Frank se constitui como um legado sobre o qual ela se manifestou no dia 5 de abril de 1944, ao escrever: "Eu quero continuar a viver depois da minha morte e, por isso, sou grata a Deus por ter me presenteado com o dom de escrever, de conseguir expressar tudo o que está dentro de mim".

Uma curta vida

A vida da jovem destinada a ser a voz dos milhões de judeus mortos durante o Holocausto foi curta, mas significativa. Annelise Marie nasceu em 12 de junho de 1929, em Frankfurt, e era a segunda filha de Otto e Edith Frank, abastados judeus alemães. Os pais a chamavam de Anne.

Em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, os Frank decidiram viver em Amsterdã, na Holanda. Otto se mudou imediatamente, pois se apresentara a oportunidade de montar uma franquia, a Opekta Works, para a comercialização de pectina, substância usada na fabricação de geléias. Edith, Anne e a irmã Margot se juntaram a ele, tempos depois. Em Amsterdã, voltaram a desfrutar de liberdade e relativa tranqüilidade, apesar das alarmantes notícias sobre a intensificação da discriminação aos judeus em outras partes.

Nem a tolerante e pacífica Holanda conseguiu escapar da fúria que se abateu sobre a Europa. Em maio de 1940, os exércitos alemães ocuparam o país, a monarquia foi deposta e o austríaco Artur Seyss-lnquart, conhecido por seu brutal anti-semitismo, assumiu o governo, dando início à campanha de perseguição judaica.

Otto, que não tinha ilusões sobre os nazistas, imediatamente tomou medidas para proteger sua família. Em setembro de 1941 transferiu a titularidade da firma a um dos ajudantes, Jo-Hannes (Jo) Kleiman, apesar de continuar à frente do empreendimento. Kleiman o ajudou a planejar o "mergulho", como era chamada a passagem de judeus para a vida na ilegalidade. Eles transformaram num esconderijo perfeito um anexo vazio na casa 263 da rua Prisengracht. Era um prédio atrás do escritório onde ficava o depósito da firma. Algum tempo depois, Otto pediu ajuda a mais três antigos e fiéis funcionários: Victor Krugler, Miep Gies e Bep Voskuij. Junto com Jo Kleiman, compunham o quarteto dos "Ajudantes".

No dia do seu 13° aniversário, 12 de junho de 1942, Anne recebeu de presente um diário. Ela não imaginava a importância que este teria. Quando, em 5 de julho, sua irmã Margot foi convocada pela Gestapo, os Frank decidiram que não podiam adiar nem mais um minuto o "mergulho". Assim, no dia seguinte passaram para a clandestinidade. Uma semana mais tarde, juntou-se a eles o casal Van Pels, sócios e amigos, e o filho Peter. Em novembro chegou o último ocupante, Fritz Pfeffer.

Um velho rádio, ao qual viviam colados, era, além dos "Ajudantes", seu único contato com o mundo exterior. Todos os cuidados eram necessários para que a vizinhança e os demais funcionários da empresa, principalmente os que trabalhavam no depósito, não suspeitassem que ali havia judeus escondidos.

Surpreendendo pela sua maturidade apesar dos 14 anos, Anne descreveu no diário, com pormenores, seu cotidiano e o dos outros "ocupantes". A sensação de estarem presos sem poder ver ainda que uma nesga do céu e o medo de serem descobertos estavam sempre presentes. Em vários trechos Anne dá detalhes das crescentes restrições e perseguições nazistas contra os judeus. Em março de 1944, a adolescente ouviu uma transmissão da rádio inglesa em que Gerrit Bolkestein, ministro do governo holandês no exílio, convidava os cidadãos a preservarem documentos e histórias pessoais sobre a guerra. A jovem então decidiu que ao término do conflito publicaria um livro baseado em seu diário.

Apesar do medo e do sofrimento, Anne nutria esperanças – prova d de que desconhecia a real face do Holocausto. Em uma de suas últimas anotações, em 15 de julho de 1944, escreveu: "Vejo o mundo se transformar, gradualmente, em um grande deserto, ouço o trovão se aproximando, o mesmo que nos destruirá a todos. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá...". O diário de Anne Frank termina no dia 1° de agosto, três dias antes de sua prisão. Foram as últimas palavras que escreveu.

A  prisão

Em 4 de agosto de 1944, após a denúncia, a Gestapo invadiu o escritório da empresa e imediatamente se dirigiu à entrada do "Anexo Secreto", obrigando Victor Kugler a abri-lo. Seus ocupantes, o próprio Victor e Jo Kleiman foram presos. Assim que os nazistas deixaram o local, Miep Gies e Bep Voskuijl voltaram ao esconderijo e encontraram cadernos e anotações de Anne espalhados pelo chão,  que recolheram e guardaram juntamente com vários álbuns de fotos. As jovens decidiram, então, que Miep os guardaria para devolvê-los a Anne assim que a guerra terminasse. A mobília do Anexo foi confiscada e removida, por ordem da Gestapo.

No dia 3 de setembro todos os ocupantes do Anexo foram juntados a outros mil judeus, no último trem que saiu de Westerbork para Auschwitz, na Polônia. Testemunhas contam que Anne, Margot e Edith ficaram juntas até as duas irmãs serem transferidas, em outubro, para Bergen-Belsen, na Alemanha. No mês seguinte, Edith adoeceu, morrendo em janeiro de 1945, aos 44 anos.

Em Bergen-Belsen, para onde as jovens foram levadas, as condições de vida eram ainda piores que em Auschwitz e as duas irmãs logo contraíram tifo. Doente e muito fraca, Margot não resistiu, vindo a falecer em março com apenas 19 anos. A morte da irmã fez em Anne o que nada até então  fora capaz de fazer - quebrar seu espírito. Alguns dias mais tarde, faleceu. Não se sabe ao certo quando, mas a data universalmente aceita é 31 de março de 1945. Anne tinha 15 anos. Apenas algumas semanas depois, em 15 de abril, o campo foi libertado pelo exército inglês.

Das oito pessoas do "Anexo Secreto", apenas Otto sobreviveu, por milagre. Havia sido enviado para o barracão de doentes de Auschwitz, em novembro de 1944, enquanto outros prisioneiros do campo, cerca de 11 mil, evacuados pelos nazistas à medida que os russos avançavam, foram levados a pé nas terríveis Marchas da Morte, das quais poucos sobreviveram. E o pai de Anne se encontrava ainda lá quando, no dia 27 de janeiro de 1945, o campo foi libertado pelas forças soviéticas.

Dos 140 mil judeus que viviam na Holanda e se registraram junto às autoridades alemãs, 107 mil foram deportados. Desse total, apenas 5.500 retornaram. Cerca de 24 mil pessoas conseguiram esconder-se, 8 mil das quais foram capturadas. Apenas 35 mil judeus conseguiram sobreviver ao Holocausto na Holanda. Ou seja, 70% dos judeus holandeses foram vítimas da Shoá, um índice superior a qualquer outro registrado nos países ocupados pela Alemanha, na Europa Ocidental.

O legado de Anne Frank

A viagem de Otto de volta para Amsterdã durou vários meses. No trajeto, foi informado por uma amiga de Edith sobre a morte dela, em Auschwitz. Em junho, ele chegou à capital holandesa, onde encontrou, ainda funcionando, sua empresa Opekta, agora dirigida por Jo Kleiman. Procurou, desesperado, qualquer informação sobre o paradeiro das duas filhas, mas no mês seguinte foi obrigado a aceitar o fato de que não haviam sobrevivido. Miep lhe entregou então os cadernos que encontrara, dizendo: "Este é o legado de sua filha Anne para você".

Otto nunca desconfiara da existência daqueles registros. Estimulado por amigos, decidiu publicar o diário, mas não encontrou nenhuma editora interessada. Os manuscritos acabaram nas mãos do casal Romein, historiadores holandeses. Impressionado com o material, o Dr. Romein escreveu um artigo, "A Voz de uma Criança", para o renomado jornal Het Parool, onde afirmou: "Este diário de aparência infantil incorpora toda a hediondez do nazismo de forma muito mais visível e contundente do que todo o conjunto de evidências apresentadas perante o Tribunal de Nuremberg".

O artigo despertou o interesse de uma editora e, em junho de 1947, o "Diário de Anne Frank" foi publicado na Holanda, pela primeira vez. Otto conseguira realizar o desejo da filha: ser escritora. Desde sua publicação, o "Diário" foi traduzido para 67 idiomas, tornando-se um dos livros mais lidos no mundo. Seu texto deu origem a produções de televisão, cinema, teatro e, até mesmo, uma ópera.

66 anos depois

Em 9 de abril de 1944 Anne escreveu: "Um dia, esta guerra terrível acabará. Há de chegar à hora em que novamente seremos considerados seres humanos e não apenas judeus". Como já dissemos, seu diário termina no dia 1° de agosto de 1944. Ela não deixou nada escrito sobre os meses que passou nas mãos dos nazistas e sobre os campos de concentração. Anne Frank tornou-se para muitos a "face" de milhões de vítimas da Shoá, sem rosto e sem nome. 

O escritor Primo Levi, que sobreviveu a Auschwitz, explica: "Uma única Anne Frank nos emociona mais do que milhares de outros que sofreram tanto quanto ela, mas cujos rostos permaneceram na sombra. Talvez seja melhor desta forma, pois se tivéssemos que absorver o sofrimento de todas essas pessoas, talvez não estaríamos mais vivos".


terça-feira, 8 de junho de 2010

Um retrato de Oscar Wilde e de sua célebre obra "O Retrato de Dorian Gray"

Poeta, romancista, comediógrafo e conferencista, sem dúvida, o mais importante escritor da época vitoriana, Oscar Figal O'Flahertie Wills, nasceu em Dublin (Irlanda), em 16 de outubro de 1854 e faleceu (depois de converter-se in extremis à religião católica, em 30 de novembro de 1900) de meningite encefálica (tornado ainda mais grave pela sífilis e o álcool), após sofrimento de quase dois meses, no humilde hotel d'Alsace, situado no barrio de Saint-German-des- Prés, em Paris. Wilde ali se hospedara com o nome de Sebastían Melmoth, numa inútil tentativa de esconder a verdadeira identidade, enxovalhada após o escandaloso processo a que fora submetido no tribunal inglês, o mais célebre julgamento da história contra um homossexual.

O enterro, classificado por um dos presentes como de sexta classe, ocorreu no cemitério Bagneux, na periferia de Paris. Não mais de 14 pessoas presenciaram a descida do ordinário caixão. Ali o corpo do poeta permaneceu até 1909, quando foi transladado para o famoso Père Lachaise.

Perverso/Pervertido - Seu pai era eminente médico e literato de fino gosto; sua mãe, poeta e jornalista. Ainda muito jovem, com dez anos de idade, Wilde já demonstrava um temperamento diferente. Amava a solidão, detestava os exercícios físicos, encontrava grande prazer na leitura dos clássicos gregos e na poesia.

Adepto fervoroso da "arte pela arte" (concepção artística que recusa o engajamento do escritor), tornou-se rapidamente líder dessa corrente. Herdeiro de Keats (1795-1821) e de Pater (1839-1894), inspirou-se, mesmo em sua fase mundana em Huysmans. Em Paris, deixou-se atrair por Verlaine (1844-1896) e pelo Simbolismo. Ao retornar à Inglaterra escreveu contos: Príncipe Feliz (1888); O Crime de Lorde Arthur Savile e outras histórias (1891); Os Ensaios (Intenção - 1891) precedem seu único romance, O Retrato de Dorian Gray.

Após A duquesa de Pádua (1891) e A alma do homem sob o Socialismo, afirmou-se como um dos grandes autores dramáticos da época; O Leque de Lady Windermese (1892); Uma mulher sem importância (1893); A importância de ser prudente (1895).

Em 1893, Salomé, peça escrita em francês, foi montada em Paris por Sarah Bernhardt, a tradução para o inglês foi realizada por lorde Alfred Douglas (1870-1945), com que mantinha uma ligação homossexual desde 1891, teve proibição na Inglaterra, quando seria representada em junho, no Palace Theatre de Londres. A peça retrata a obstinação da princesa da Judéia em pedir ao padrasto a cabeça de João Batista como presente. Na versão de Wilde a frieza de Salomé é apenas o véu que encobre os dois sentimentos que mais se assemelham dentre todos: o amor e o ódio.

Em Londres, ao lado de Douglas. começam juntos a freqüentar assiduamente todos os pontos de encontro da cidade elegante, desafiando ostensivamente os mexericos e o escândalo. Podiam ser vistos particularmente, no Café Royal onde, numa mesinha discreta, passavam as noites bebendo champanha.

Violentamente atacado pelo pai do seu amigo e namorado, Wilde moveu contra ele um processo de difamação (1895), que acabou perdendo. Condenado, passou uma parte dos dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading. Da prisão escreveu ao companheiro Douglas, uma longa carta conhecida como De Profundis, acusando-o de ter sido a causa da sua ruína. A epístola saiu de forma expurgada em 1905 e o texto integral só foi difundido em 1929. Libertado, partiu para a França, onde viveu na mais completa miséria. Após sua morte foi publicado em 1901, Aforismos.

O Retrato de Dorian Gray - Único romance de Oscar Wilde, surgiu na época em que o escritor conheceu a glória literária. Seu nome aparecera, antes em contos, histórias, comédias e outros gêneros apreciados por adultos e crianças. A idéia lhe surgiu num dia de primavera, no momento em que o escritor visitava seu amigo, o pintor Basil Hallward, quando este se encontrava empolgado pela pintura do retrato de um jovem de extraordinária beleza. Enquanto o amigo pintava, Wilde conversava com o pintor e admirava o retrato e o original: Dorian Gray, um jovem cujo belo rosto irradiava alegria, pureza e bondade, como se o mundo não o tivesse tocado ainda com suas maldades, seus sofrimentos.

O romance é a história de um homem cuja vida se resumiu na procura da felicidade. Era dotado de uma beleza rara e cativante, que lhe dava uma aparência perfeitamente inocente; mas ele, ao contrário disso, era guiado por forças estranhas para uma busca incessante de prazeres, lançando mão de todos os recursos, justos ou não, racionais ou irracionais, sadios ou mórbidos.

Precedido de um prefácio no qual o autor expõe sua teoria da arte. As marcas da velhice não afetam o belo Dorian Gray e sim seu retrato, até o dia em que o eterno jovem dilacera o quadro e morre ao mesmo lance, homem e obra trocando suas marcas. Portanto, é a evocação de uma amizade masculina que reitera a teoria das máscaras: só as máscaras dizem a verdade, a natureza imita a arte. Wilde, revela toda a sua antipatia pela mediocridade com que a arte era tratada e diz que "não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo"; ou "O artista é criador de coisas belas. Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo".

O Retrato de Dorian Gray, lhe deu oportunidade de colocar nos lábios e nos seus sentimentos dos personagens todas as coisas que ele próprio gostaria de dizer sobre a sociedade do seu tempo. Neste romance, Oscar Wilde não retratou apenas o jovem Gray, mas penetrou fundo na alma humana e fotografou seus abismos: suas paixões, seu cinismo, suas hipocrisias, seus sonhos. O Retrato de Dorian Gray é um dos maiores romance, não só da literatura inglesa, mas da própria literatura universal.  

Houve quem afirmasse que a sua maior obra foi a sua vida, cheia de ironia e verve: Uma verdadeira tragédia em cinco atos. O primeiro foi o tempo de sua adolescência solitária, passada nos colégios onde, apesar do temperamento, sempre conseguia as melhores distinções. Depois, a fase de juventude, agitada pelos protestos contra o mau gosto e a mediocridade nos domínios da arte; o casamento com Constance Lloyde, a residência em Londres, os filhos que trocaram o nome Wilde por Holland, após a tragédia na vida do pai.

O terceiro ato se passa em Londres: sua glória literária. Aparecem O Retrato de Dorian Gray, a tragédia Salomé e as comédias, Um Marido Ideal, A Esfinge e outras. Os dois últimos atos da tragédia, são o processo e a condenação, por pederastia, considerado na Inglaterra vitoriana crime. Sua vida considerada imoral, seus livros proibidos. Tornou-se um maldito. Mas ainda deixou dois documentos de extraordinária força e beleza, escritos após a condenação: De Profundis e Balada do Cárcere de Reading.

Em 1903, estudando humoristas e pré-rafaelistas com Gladys Fox, João do Rio (João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto, 1880-1921), descobre Oscar Wilde. Deslumbrado, encomenda, em seguida, suas obras ao livreiro Crashley. Condenadas, elas se tornaram raras e caras: mais cara quanto mais rara. João do Rio, traduziu e difundiu a obra de Oscar Wilde no Brasil: Salomé; Intenção, O Retrato de Dorian Gray e O Leque de Lady Windermese.

João do Rio foi um dos primeiros escritores brasileiros, a publicar artigos sobre Wilde, no número de abril de 1905 na revista A Renascença, sob o título Breviário do Artificialismo. Talvez, a partir daí a voga do wildianismo, que popularizou no Brasil em virtude das traduções para o francês dos seus livros, teve entre nós seu representante divulgador, na pessoa do jornalista João do Rio.

Para as comemorações do centenário de sua morte, recentemente foram publicados cinco dos seus livros mais importantes: O Retrato de Dorian Gray, Editora Civilização Brasileira; Aforismos ou Mensagens Eternas, Editora Landy; O Melhor de Oscar Wilde, Editora Garamond; O Álbum de Wilde, organizado por Merlin Holland e A Esfinge e seus Segredos, ambos pela Editora Record. Já quem preferir comprar um volume com o principal da obra do autor, pode adquirir a Obra Completa, editada pela Nova Aguilar.

sábado, 5 de junho de 2010

Entrevista: Umberto Eco fala sobre e-books e livro convencional



O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” – é a sua preferida. “Não li nenhum“, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?“

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros ["muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques", informa Umberto Eco] que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro publicado pela editora Record.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica [é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha] como pelos romances [O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial], Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros – que, no momento, lideram sua preferência – como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg [1914-1990], físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval [Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino] – exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema [ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille], mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco – envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha [raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos] – conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.
Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?

O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?

Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).
Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em ‘O Pêndulo de Foucault’, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor [risos]. E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado [Toni Morrison foi escolhida certa vez] organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio [que não foi oferecido a Dan Brown] de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo [risos] e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

Fonte: Sidnei Moura
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