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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Duas poesias para embalar o ano novo

Delicie-se com duas poesias inspirativas da professora e poetisa Alice Lima .

Um feliz ano novo para você!


Casa de fazenda

Casa de fazenda,
Que contas tantas histórias,
De um passado tão distante,
Das lágrimas contidas, das amarguras
Das sinhazinhas,
Amores arranjados, dinheiro, ambição e solidão.
Casa de fazenda
Do aroma de café fresquinho
Dos tachos de doces borbulhantes,
servidos
As ceias do luar de outono
Onde mulheres solitárias se sentam a mesa
A esperar o seu dono.
Casa de fazenda,
Onde teus senhores se escondem,
Planejam, escrevem sem piedade, ideias torturantes
Atrás de uma escrivaninha.
Casa de fazenda,
Nos teus arredores, circundavam senzalas,
Cânticos, lágrimas, chibatadas, euforia,
Mas onde estava a alegria?
Casa de fazenda,
As tuas paredes contam tantas histórias,
que é impossível não ficar na memória.


O voo de um pássaro

Como um pássaro.
Lúgubre e reluzente,
Batendo asas na imensidão do céu azul
Tu voaste tão longe...
Tão longe de mim.
O nosso ninho por muito tempo permaneceu intacto,
Eu esperei, sonhei com teu regresso,
Mas não retornastes...
AH! Bem queria eu,
Que estivestes próximo,
Próximo de mim.
Poderíamos juntos novamente olhar para o céu,
Entrelaçar nossas mãos e apontar o dedo para contar as estrelas.
Aninhar-me no teu abraço,
Abraço amigo, paternal, amado...
Mas muitos pássaros voam sem direção
E não retornam ao seu ninho,
Nosso ninho de amor se desfez
Como pela última vez.
Sou um rouxinol, um pássaro cantante
Apaixonada e delirante.
E eu também estou a voar
Buscando um novo ninho encontrar.
Sou alimentada pelas migalhas,
As águas do orvalho eu mesma procuro sorver, aprendi a sobreviver
Voo recordando da tua decisão,
Não encontro resolução,
Mas busco uma direção e
Sei que em Deus está a solução.
Questiono...
Quem me separou de ti
Estou ainda a perguntar,
Não quero arguir...
Tento compreender
E vejo-me a surpreender
Me pego a pensar
E volto a questionar
Deus? Igreja? Família?
Raça? Religião?
Por mais que busco respostas, mais nítida e complexa se torna a resposta
Foi a tua opção, a tua vocação.
E mais dorido para mim em aceitar, fingir e poder repetir constantemente:
“Cumpres tua missão, meu amado irmão!”



quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr Fernandes: "Poetas quando morrem são fertilizantes"






Poetas são Gente

Eu vivo pra poesia mas poetas não vivem pra mim. 
Espero que eles me alimentem como a um coelho faminto. Eles não sabem disso. 
É melhor mesmo que não percebam o quanto são necessários. 
De outro modo seríamos ultrapassados por eles e eles não saberiam quando parar. 
Um excesso de poetas não seria uma boa idéia pro nosso mundo. Nosso mundo necessita apenas de um certo número. Embora isso ainda não tenha sido atingido é importante que a poesia seja controlada.

Eu sei. Tenho observado poetas vagabundeando por aí, esperando o momento de atacar. É pior do que haker atacando. Uma visão horrível. A pessoa atacada correrá pela rua gritando. Pode até amaldiçoar o sistema, e fugir de casa levando sua filha com ele. 
Poemas têm um jeito de infeccionar os pobres idiotas que os escrevem. 
Poetas ficam em silêncio durante conversações, esperando uma brecha. 
Subitamente, sem aviso, um poeta falará uma sentença que acabou de pensar, e aqueles em volta gritarão como que atingidos por um curto-circuito.

Você gostaria que isso acontecesse freqüentemente? Levaria meses pra se voltar a qualquer aparência de normalidade. Isso pode ser uma boa de vez em quando, como mudança. Mas pára um momento e procura imaginar o pessoal do governo de Sua Majestade todos os dias fazer suas transmissões, como faz, mas cada uma ser um poderoso poeta. 
A confusão seria indescritível. A nação ia parar nos trilhos e colher flores pros vizinhos. Carros iriam se abalroar no tráfego pros motoristas saltarem e apertarem as mãos. Greves seriam desnecessárias pois ninguém trabalharia. A vida seria boa demais pra se perder. Cada dia seria vivido sem plano e cada momento saboreado como vinho novo. Cada pôr-do-sol seria uma revelação e uma promessa pra amanhã.

Todo mundo faria amor. Mesmo os doentes. 
Melhor seria os poetas não usarem palavras. Melhor que nascessem mudos. Melhor que cortasssem as línguas, se falassem. E melhor ainda, se pensassem, ficassem em silêncio. Deus nos proteja de suas invocações ferozes, pelo menos até termos tempo de praticar exercícios de poetas mortos, pra estarmos em forma a fim de tentar hoje outra vez. 
Poetas não percebem.
Enquanto vivem são eras daninhas. 
Quando morrem são fertilizantes.

1922 - 2012
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