quarta-feira, 9 de junho de 2010

Conheça a revista eletrônica LINGUASAGEM


A revista eletrônica LINGUASAGEM é uma publicação bimestral do  Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar e é direcionada a estudantes de Língua Portuguesa, Literatura, Ensino de Língua Estrangeira e Linguística.

Já está dsponível a edição maio/junho , com matérias e seções especiais:

Artigos & Ensaios: textos de Dominique Maingueneau, Nilton Milanez e Sírio Possenti, bem como: “Você entende internetês?”, de Carlos Alberto Faracco, professor titular (aposentado) da UFPR; “Falar Cuiabano: heterogeneidade linguística rejeitada”, de Maria Ines Pagliarini Cox (MEEL/UFMT); e outros textos muito bons, vale a leitura!

Menimo maluquinho, Ésquilo e Cartas a um jovem poeta são temas de análise em Artigos de IC.

Reflexões sobre o ensino de língua(s): alfabetização, letramento, escrita, materiais didáticos e métodos de ensino.

Especial: resenhas e textos literários

Acesse a revista LINGUASAGEM. Clique aqui!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Um retrato de Oscar Wilde e de sua célebre obra "O Retrato de Dorian Gray"

Poeta, romancista, comediógrafo e conferencista, sem dúvida, o mais importante escritor da época vitoriana, Oscar Figal O'Flahertie Wills, nasceu em Dublin (Irlanda), em 16 de outubro de 1854 e faleceu (depois de converter-se in extremis à religião católica, em 30 de novembro de 1900) de meningite encefálica (tornado ainda mais grave pela sífilis e o álcool), após sofrimento de quase dois meses, no humilde hotel d'Alsace, situado no barrio de Saint-German-des- Prés, em Paris. Wilde ali se hospedara com o nome de Sebastían Melmoth, numa inútil tentativa de esconder a verdadeira identidade, enxovalhada após o escandaloso processo a que fora submetido no tribunal inglês, o mais célebre julgamento da história contra um homossexual.

O enterro, classificado por um dos presentes como de sexta classe, ocorreu no cemitério Bagneux, na periferia de Paris. Não mais de 14 pessoas presenciaram a descida do ordinário caixão. Ali o corpo do poeta permaneceu até 1909, quando foi transladado para o famoso Père Lachaise.

Perverso/Pervertido - Seu pai era eminente médico e literato de fino gosto; sua mãe, poeta e jornalista. Ainda muito jovem, com dez anos de idade, Wilde já demonstrava um temperamento diferente. Amava a solidão, detestava os exercícios físicos, encontrava grande prazer na leitura dos clássicos gregos e na poesia.

Adepto fervoroso da "arte pela arte" (concepção artística que recusa o engajamento do escritor), tornou-se rapidamente líder dessa corrente. Herdeiro de Keats (1795-1821) e de Pater (1839-1894), inspirou-se, mesmo em sua fase mundana em Huysmans. Em Paris, deixou-se atrair por Verlaine (1844-1896) e pelo Simbolismo. Ao retornar à Inglaterra escreveu contos: Príncipe Feliz (1888); O Crime de Lorde Arthur Savile e outras histórias (1891); Os Ensaios (Intenção - 1891) precedem seu único romance, O Retrato de Dorian Gray.

Após A duquesa de Pádua (1891) e A alma do homem sob o Socialismo, afirmou-se como um dos grandes autores dramáticos da época; O Leque de Lady Windermese (1892); Uma mulher sem importância (1893); A importância de ser prudente (1895).

Em 1893, Salomé, peça escrita em francês, foi montada em Paris por Sarah Bernhardt, a tradução para o inglês foi realizada por lorde Alfred Douglas (1870-1945), com que mantinha uma ligação homossexual desde 1891, teve proibição na Inglaterra, quando seria representada em junho, no Palace Theatre de Londres. A peça retrata a obstinação da princesa da Judéia em pedir ao padrasto a cabeça de João Batista como presente. Na versão de Wilde a frieza de Salomé é apenas o véu que encobre os dois sentimentos que mais se assemelham dentre todos: o amor e o ódio.

Em Londres, ao lado de Douglas. começam juntos a freqüentar assiduamente todos os pontos de encontro da cidade elegante, desafiando ostensivamente os mexericos e o escândalo. Podiam ser vistos particularmente, no Café Royal onde, numa mesinha discreta, passavam as noites bebendo champanha.

Violentamente atacado pelo pai do seu amigo e namorado, Wilde moveu contra ele um processo de difamação (1895), que acabou perdendo. Condenado, passou uma parte dos dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading. Da prisão escreveu ao companheiro Douglas, uma longa carta conhecida como De Profundis, acusando-o de ter sido a causa da sua ruína. A epístola saiu de forma expurgada em 1905 e o texto integral só foi difundido em 1929. Libertado, partiu para a França, onde viveu na mais completa miséria. Após sua morte foi publicado em 1901, Aforismos.

O Retrato de Dorian Gray - Único romance de Oscar Wilde, surgiu na época em que o escritor conheceu a glória literária. Seu nome aparecera, antes em contos, histórias, comédias e outros gêneros apreciados por adultos e crianças. A idéia lhe surgiu num dia de primavera, no momento em que o escritor visitava seu amigo, o pintor Basil Hallward, quando este se encontrava empolgado pela pintura do retrato de um jovem de extraordinária beleza. Enquanto o amigo pintava, Wilde conversava com o pintor e admirava o retrato e o original: Dorian Gray, um jovem cujo belo rosto irradiava alegria, pureza e bondade, como se o mundo não o tivesse tocado ainda com suas maldades, seus sofrimentos.

O romance é a história de um homem cuja vida se resumiu na procura da felicidade. Era dotado de uma beleza rara e cativante, que lhe dava uma aparência perfeitamente inocente; mas ele, ao contrário disso, era guiado por forças estranhas para uma busca incessante de prazeres, lançando mão de todos os recursos, justos ou não, racionais ou irracionais, sadios ou mórbidos.

Precedido de um prefácio no qual o autor expõe sua teoria da arte. As marcas da velhice não afetam o belo Dorian Gray e sim seu retrato, até o dia em que o eterno jovem dilacera o quadro e morre ao mesmo lance, homem e obra trocando suas marcas. Portanto, é a evocação de uma amizade masculina que reitera a teoria das máscaras: só as máscaras dizem a verdade, a natureza imita a arte. Wilde, revela toda a sua antipatia pela mediocridade com que a arte era tratada e diz que "não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo"; ou "O artista é criador de coisas belas. Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo".

O Retrato de Dorian Gray, lhe deu oportunidade de colocar nos lábios e nos seus sentimentos dos personagens todas as coisas que ele próprio gostaria de dizer sobre a sociedade do seu tempo. Neste romance, Oscar Wilde não retratou apenas o jovem Gray, mas penetrou fundo na alma humana e fotografou seus abismos: suas paixões, seu cinismo, suas hipocrisias, seus sonhos. O Retrato de Dorian Gray é um dos maiores romance, não só da literatura inglesa, mas da própria literatura universal.  

Houve quem afirmasse que a sua maior obra foi a sua vida, cheia de ironia e verve: Uma verdadeira tragédia em cinco atos. O primeiro foi o tempo de sua adolescência solitária, passada nos colégios onde, apesar do temperamento, sempre conseguia as melhores distinções. Depois, a fase de juventude, agitada pelos protestos contra o mau gosto e a mediocridade nos domínios da arte; o casamento com Constance Lloyde, a residência em Londres, os filhos que trocaram o nome Wilde por Holland, após a tragédia na vida do pai.

O terceiro ato se passa em Londres: sua glória literária. Aparecem O Retrato de Dorian Gray, a tragédia Salomé e as comédias, Um Marido Ideal, A Esfinge e outras. Os dois últimos atos da tragédia, são o processo e a condenação, por pederastia, considerado na Inglaterra vitoriana crime. Sua vida considerada imoral, seus livros proibidos. Tornou-se um maldito. Mas ainda deixou dois documentos de extraordinária força e beleza, escritos após a condenação: De Profundis e Balada do Cárcere de Reading.

Em 1903, estudando humoristas e pré-rafaelistas com Gladys Fox, João do Rio (João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto, 1880-1921), descobre Oscar Wilde. Deslumbrado, encomenda, em seguida, suas obras ao livreiro Crashley. Condenadas, elas se tornaram raras e caras: mais cara quanto mais rara. João do Rio, traduziu e difundiu a obra de Oscar Wilde no Brasil: Salomé; Intenção, O Retrato de Dorian Gray e O Leque de Lady Windermese.

João do Rio foi um dos primeiros escritores brasileiros, a publicar artigos sobre Wilde, no número de abril de 1905 na revista A Renascença, sob o título Breviário do Artificialismo. Talvez, a partir daí a voga do wildianismo, que popularizou no Brasil em virtude das traduções para o francês dos seus livros, teve entre nós seu representante divulgador, na pessoa do jornalista João do Rio.

Para as comemorações do centenário de sua morte, recentemente foram publicados cinco dos seus livros mais importantes: O Retrato de Dorian Gray, Editora Civilização Brasileira; Aforismos ou Mensagens Eternas, Editora Landy; O Melhor de Oscar Wilde, Editora Garamond; O Álbum de Wilde, organizado por Merlin Holland e A Esfinge e seus Segredos, ambos pela Editora Record. Já quem preferir comprar um volume com o principal da obra do autor, pode adquirir a Obra Completa, editada pela Nova Aguilar.

sábado, 5 de junho de 2010

Entrevista: Umberto Eco fala sobre e-books e livro convencional



O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” – é a sua preferida. “Não li nenhum“, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?“

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros ["muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques", informa Umberto Eco] que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro publicado pela editora Record.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica [é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha] como pelos romances [O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial], Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros – que, no momento, lideram sua preferência – como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg [1914-1990], físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval [Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino] – exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema [ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille], mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco – envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha [raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos] – conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.
Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?

O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?

Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).
Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em ‘O Pêndulo de Foucault’, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor [risos]. E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado [Toni Morrison foi escolhida certa vez] organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio [que não foi oferecido a Dan Brown] de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo [risos] e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

Fonte: Sidnei Moura
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