terça-feira, 25 de janeiro de 2011

De olho no Oscar 2011 [2] Opinião = O Rei gago vencerá o nerd ladrão?

Cena de "O Discurso do Rei" (The King's Speech)
Escrevo antes de saber quem vai ganhar mais indicações ao Oscar, pois estas sairão hoje, no final da manhã. Mas adianto que não vi nenhuma graça no super-estimado "A Rede Social", filme medíocre sobre como Mark Zuckerberg surrupiou a ideia de dois sujeitos na universidade e criou o hoje quase onipresente Facebook.

O filme da temporada para mim é, de longe, "O Discurso do Rei", de Tom Hooper, seguido de perto pelo thriller aventuresco de Danny Boyle, o aflitivo "127 Horas", história baseada no caso real de um homem que teve de cortar parte do próprio braço para escapar da morte durante uma aventura num canyon nos EUA.

"O Discurso do Rei" teria tudo para agradar mais o público britânico em particular e dizer menos para o resto do mundo. Afinal, já é sabido como os britânicos adoram ver as histórias de sua monarquia na tela. Basta conferir o sucesso do excelente "A Rainha" (2006), de Stephen Frears, que contava o drama pessoal da rainha Elizabeth 2ª durante o episódio da morte de Lady Di. Ou, mais recentemente, o furor com que é acompanhada pela televisão inglesa a série "Tudors". Desde que estreou, em 2007, os ingleses voltaram a debater sua própria história por causa dessa produção. Enquanto aqui se discutem tramas banais como segredo de Gerson, de "Passione", lá as pessoas se perguntaram sobre o verdadeiro legado de Henrique 8º e se Ana Bolena ou Thomas Cromwell mereceram mesmo ser executados. Enquanto isso, na vida real, acompanha-se o romance do príncipe William com Kate Middleton também como um grande evento midiático.

Por essas e por outras o filme de Hooper tinha tudo para ser um sucesso apenas britânico. Mas isso certamente não ocorrerá, pois seus temas são muito mais globais do que podem parecer à primeira vista.

"O Discurso do Rei" conta a história do rei George 6º, pai da rainha Elizabeth 2ª e, portanto, bisavô do príncipe William. Quando o filme começa, Albert (seu verdadeiro nome), ainda Duque de York, é o segundo na linha de sucessão ao trono e tem de falar a uma multidão em um evento público. O resultado é vergonhoso. O tímido príncipe gagueja e o discurso não sai. O desconforto é geral. O papel é interpretado por Colin Firth.

Seu pai, o rei George 5º, está prestes a morrer, e o trono, portanto, seria ocupado pelo irmão mais velho de Albert, Edward. Este, porém, está mais interessado em assuntos mundanos do que virar rei em um período delicado da geopolítica mundial. Estamos em 1936, e a ameaça de um segundo conflito mundial, devido ao fortalecimento do nazismo, é cada vez mais presente.

Morto George 5º, Edward tem um momento de hesitação e decide abdicar para casar-se com uma norte-americana divorciada. Resta a Albert virar rei dos ingleses e líder de seu vasto império de ultramar. Amparado pela mulher Elizabeth (Helena Bonham-Carter) --que conheceríamos até recentemente como a Rainha Mãe (morta em 2002), Albert sobe ao trono, inseguro, titubeante, sem conseguir falar uma frase sem gaguejar, e mortificando-se por isso. Sua nomeação se deu em fins de 1936, e a coroação, em maio de 1937.

Técnicas para curar-se da incômoda gagueira ele já expertimentara todas disponíveis à época, até que cai nas mãos de um terapeuta um tanto alternativo, Lionel Logue (interpretado de modo brilhante por Geoffrey Rush). Albert a princípio não acredita em seus métodos e se mostra desesperançado. Mas, aos poucos, Logue começa a mostrar resultados. Ator frustrado, impõe a seu "paciente" exercícios físicos inusitados, faz Albert cantar e ficar nervoso, vai conseguindo com que, aos poucos, o frágil rei se abra e verbalize seus medos.

Chega, porém, o dia 4 de setembro de 1939, em que George 6º, tem de dar à nação a notícia de que a Inglaterra está de novo em guerra contra a Alemanha. Esse discurso será a prova final de que tem capacidade de liderar o país em tempos turbulentos. E mais do que nunca ele precisa de Logue (quem quiser ouvir o discurso original do rei, a gravação está na íntegra no site oficial do filme:http://www.kingsspeech.com/about.html).

A reconstrução da época é impecável. A Londres deprimida dos anos 30 aparece escura, chuvosa. É uma nação amedrontada pelo fantasma da guerra, da pobreza e do desemprego, mas que começa a desfrutar dos avanços tecnológicos do século 20, como o cinema, e a entusiasmar-se com teatro, musicais e futebol.

O mundo dos súditos da coroa é representado pelo pequeno consultório de Logue. Ali, ele vive com a mulher e dois encantadores filhos adolescentes, que sabem textos clássicos de cor e montam aviões de brinquedo.

Não dá para dizer que se trata de um filme épico, afinal, seu ápice não será uma batalha memorável da guerra ou um fato heroico. É, sim, uma história de superação nada piegas e muito cativante --quem faz análise, por exemplo, verá um pouco de sua relação com seu médico aqui. Revela e explora fragilidades humanas universais.

Os meios ingleses viram no filme uma homenagem ao homem que parecia fraco demais para liderar um país, mas que se mostrou a figura ideal para aquele determinado momento histórico. Em artigo para o "The Observer", Dominic Sandbrook observou: "Quando a guerra começou, em 1939, ele se mostrou um inusitado símbolo de resistência nacional, sua domesticidade, um símbolo daquilo pelo qual a Inglaterra estava lutando. Depois que o Buckingham Palace foi bombardeado em setembro de 1940, suas aparições eram regularmente interrompidas por aplausos da audiência."

A coroa inglesa nos anos 30 governava grande parte do mundo. O Facebook, com seu mais de meio bilhão de usuários hoje parece mais poderoso. Mas eu aposto minhas fichas na história do rei gago em vez de admirar o larápio retratado em "A Rede Social", filme que também em termos de narrativa e edição decepciona.

Mesmo que saia do Oscar sem uma única estatueta, "O Discurso do Rei" já é o grande filme desta temporada.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De olho no Oscar 2011 [1] - Brasil perde representação no Oscar 2011

O representante do brasil no Oscar 2011 "Lula - O filho do Brasil" está fora do Oscar.

Nesta quarta-feira (19/01), a Academia anunciou os nove filmes que disputam uma vaga para concorrer a uma indicação ao Oscar. Os longas foram selecionados de uma lista original com 66 títulos, entre eles, o filme de Fabio Barreto sobre a trajetória do ex-presidente Lula.

Os indicados serão anunciados na próxima terça-feira, 25/01. Serão cinco concorrentes à estatueta.

Entre os pré-indicados, está o mexicano "Biutiful", de Alejandro Gonzalez Iñarritu, que estreia em São Paulo amanhã.


Veja a lista completa

"Biutiful", de Alejandro Gonzalez Iñarritu, México

"Tambien la Lluvia", de Iciar Bollain, Espanha

"Hors la Loi", de Rachid Bouchareb, Argélia

"Incendies", de Denis Villeneuve, Canadá

"Em um Mundo Melhor", de Susanne Bier, Dinamarca

"Dogtooth", de Yorgos Lanthimos, Grécia

"Confessions", de Tetsuya Nakashima, Japão

"Life, Above All", de Oliver Schmitz, África do Sul

"Simple Simon", de Andreas Ohman, Suécia

Confira trailer de ""Em um Mundo Melhor", de Susanne Bier"  grande vencedor estrangeiro do Globo de Ouro 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Brasileiro prepara projeto internacional com roteiro de vencedor do Oscar

Rodrigo Teixeira em sua produtora

Era agosto de 2009 quando o biógrafo Fernando Morais bateu à porta da editora Companhia das Letras com um problema: o adiantamento para a pesquisa de seu próximo livro, "Os Últimos Soldados da Guerra Fria", havia acabado. 

Uma interrupção por falta de verba seria jogar dois anos de trabalho fora (o livro, a ser lançado em maio, narra a história real de cinco cubanos detidos nos Estados Unidos). Foi então que Luiz Schwarcz, editor da Companhia, sugeriu: "Olha, tem o Rodrigo Teixeira, que compra os direitos de livros para o cinema". 

Dias depois, o acordo estava selado. Por R$ 180 mil (R$ 100 mil pelos direitos e R$ 80 mil para a pesquisa), Teixeira tornou-se dono da futura adaptação, sem que uma única linha estivesse escrita. "Foi a primeira vez que me compraram os direitos antes de o livro existir", diz Morais. 

Dono da produtora RT Features, que fez "O Cheiro do Ralo" (2006), Rodrigo Teixeira, 34, é uma espécie de acionista das letras. Onde um crítico vê uma obra prima, vê um bom negócio. Onde um autor vê uma ideia, vê uma possibilidade de lucro. 

Sua empresa detém os direitos de adaptação de ao menos 30 títulos, dentre os quais "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza, "Vale Tudo: o Som e a Fúria de Tim Maia", de Nelson Motta, e "Pornopopéia", de Reinaldo Moraes. 

Teixeira usa a Lei Rouanet para a produção dos filmes, mas não para a aquisição dos direitos. Seu hall de investidores conta com o empresário Eike Batista. 

Internacional
Em 2010, se lançou no mercado internacional com a compra dos quadrinhos "Umbigo Sem Fundo", de Dash Shaw. "Paguei US$ 50 mil (R$ 84 mil). Tenho três anos para fazer o filme." 
Além disso, contratou Julian Fellowes (ganhador do Oscar pelo texto de "Assassinato em Gosford Park", de 2001), para escrever um roteiro, em inglês, para o livro "O Filho da Mãe", de Bernardo Carvalho. 

Teixeira diz já ter desembolsado de R$ 10 mil a R$ 400 mil ("Quanto paguei à família do Tim Maia") em suas aquisições. 

A última foi a biografia, ainda em fase de pesquisa, que o jornalista Lira Neto está preparando sobre Getúlio Vargas. O livro não sai em menos de um ano. Teixeira não se importa: "É como mercado de 'private equity' [modalidade em que grandes empresas investem em menores, ainda não listadas na bolsa, buscando lucro a longo prazo]". 

Cineastas preferidos

Nascido no Rio, Teixeira se mudou há 28 anos para São Paulo, onde vive até hoje. Sua produtora, em uma casa de Higienópolis, é decorada com um pôster em polonês do filme "Apocalypse Now", uma máquina de escrever Remmington e uma matrioska do Tio Patinhas ("Meu personagem favorito"). 

Em 1997, a crise asiática fez com que largasse a faculdade de administração e o trabalho em uma corretora de valores. "Vi que aquilo não era para mim. Mas guardei os contatos com gente do mercado", conta. 

Após ler, em um texto do colunista da Folha Juca Kfouri, que havia escassez de bons livros sobre futebol, inventou o projeto "Camisa 13", em que autores escreviam sobre seus times. 
Em 2004, vendeu o livro sobre o Palmeiras para a família Barreto, que o usaria como base do filme "O Casamento de Romeu e Julieta" (2005). "Paguei R$ 20 mil e vendi por R$ 80 mil. Vi que era isso que eu queria fazer." 

Hoje, orgulha-se de trabalhar com autores como Fernando Morais ("Ler um original dele é um privilégio indescritível") e diretores como Karim Ainouz. 

Dos cineastas nacionais, diz que gostaria de filmar com Walter Salles e Fernando Meirelles. E de fora? "Ah, Martin Scorsese e Woody Allen." Faz uma pausa, e completa: "O problema é que o Woody Allen não aceita fazer filme baseado em livro de ninguém". 

Fonte: Folha

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Balanço 2010 [1] - Os filmes mais pirateados de 2010

A Origem foi o 3° filme mais pirateado

O filme "Avatar" foi o mais pirateado em 2010, de acordo com o site Torrent Freak.

Dados levantados pelo site mostram que "Avatar" foi baixado ilegalmente na internet cerca de 16,5 milhões de vezes.

Em segundo lugar ficou o filme "Kick Ass - Quebrando Tudo", com 11,4 milhões. Em terceiro está "A Origem", com 9,7 milhões.

Veja abaixo a lista completa dos dez filmes mais pirateados de 2010.

1 - "Avatar" (16,5 milhões de downloads)
2 - "Kick Ass - Quebrando Tudo" (11,4 milhões de downloads)
3 - "A Origem" (9,7 milhões de downloads)
4 - "Ilha do Medo" (9,4 milhões de downloads)
5 - "Homem de Ferro 2" (8,8 milhões de downloads)
6 - "Fúria de Titãs" (8 milhões de downloads)
7 - "Green Zone" (7,7 milhões de downloads)
8 - "Sherlock Holmes" (7,1 milhões de downloads)
9 - "Guerra ao Terror" (6,8 milhões de downloads)
10 - "Salt" (6,7 milhões de downloads

Fonte: Folha

Participe da enquete: Você baixa filmes e livros pirateados na internet? Vá até a barra lateral direita do blog e participe!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Blog Sidnei Moura completa 3 anos na blogosfera e realiza sorteio de livros especiais para seguidores


Em comemoração aos 3 anos oficiais na blogosfera, o blog Sidnei Moura está realizando uma promoção especial: no dia 27 estará sorteando dois livros especiais - um exemplar da literatura evangélica e outro da literatura secular estrangeira!

Para participar do sorteio basta visitar o blog Sidnei Moura, tornar-se um seguidor, deixar um comentário e torcer pela sorte!

Visite o blog Sidnei Moura

Confira outros detalhes da promoção aqui

O ano que vem a comemoração e o sorteio é por aqui! Fique conectado!

A Internet no Brasil em 2010

Fonte: PavaBlog

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Universidade lança revista eletrônica sobre mídias interativas

Organizada pelo Grupo de Estudos sobre Mídias Interativas em Imagem e Som (GEMInIS), coordenado pelo Prof. Dr. João Massarolo e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da UFSCar, a Revista eletrônica GEMInIS é o mais novo espaço para a publicação de artigos, resenhas de obras e trabalhos sobre o contexto da convergência midiática e da produção audiovisual para múltiplas plataformas, aproximando o discurso acadêmico à realidade do mercado contemporâneo da comunicação, abrangendo desde o grande produtor ao consumidor gerador de conteúdos.




Artigo em destaque:


O Novo homem e o hibridismo na série 24 horas


Conheça a revista GEMINIS acessando seu portal na internet!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cantora Patti Smith ganha prêmio literário nos EUA e implora à editoras manutenção do modelo tradicional de livro

Patti Smith


A roqueira Patti Smith estava entre as grandes vencedoras na cerimônia de entrega do Prêmio Nacional do Livro (National Book Awards) dos Estados Unidos na quarta-feira (17/11) por seu livro de memórias "Só Garotos". Ela recebeu o prêmio às lágrimas e pediu que as editoras não deixem a tecnologia acabar com os livros tradicionais.

Tom Wolfe, autor de best-sellers como "A Fogueira das Vaidades", "Os Eleitos" e "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", venceu a medalha pela contribuição às letras norte-americanas.

Jaimy Gordon superou autores como Peter Carey e Nicole Krauss ao ganhar o prêmio na categoria de ficção por "Senhor de Misrule", publicada pela McPherson & Co.

A noite teve espaço para piadas sobre a condição atual da indústria editorial de livros, que está vivendo um período conturbado com o surgimento do mercado de livros eletrônicos.

Cantora e compositora Patti Smith recebe prêmio no National Book Awards por seu livro de memórias
Smith, uma cantora, compositora e poeta norte-americana de 63 anos, se emocionou ao receber o prêmio de não-ficção por "Só Garotos", sobre suas dificuldades durante a juventude e o relacionamento com o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe.

"Não existe nada mais belo que um livro, o papel, a fonte, o tecido", disse Smith, cujo livro foi publicado pela Ecco, da HarperCollins. "Por favor, não importa o quanto avancemos tecnologicamente, por favor nunca abandonem o livro."

Wolfe, de 79 anos, um dos defensores do estilo "novo jornalismo" nos anos 1960, lembrou de seus primeiros trabalhos de reportagem e deu o conselho aos futuros romancistas: "Primeiro, deixe o prédio e depois sente para escrever."

O prêmio de poesia foi para Terrance Hayes por sua quarta coleção "Lighthead", da Penguin Books.

Kathryn Erskine venceu o prêmio de literatura para jovens, por "Mockingbird", publicada pela Philomel Books, da Penguin Young Readers Group.

Na lista de um dos prêmios literários mais importantes dos Estados Unidos estavam 13 mulheres entre os 20 finalistas. Segundo a Fundação Nacional do Livro norte-americana foi o maior número de mulheres indicadas na história da premiação. Cinco finalistas disputam cada uma das quatro categorias, e o vencedor recebe 10 mil dólares.


Fonte: Folha de São Paulo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

George Bush - uma autobiografia em defesa da Guerra do Iraque


O ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (2001-2009) voltará nesta terça-feira ao cenário público com o lançamento de um aguardado - embora pouco surpreendente-- livro de memórias.

As 481 páginas de "Decision Points" (pontos decisivos, em tradução livre) não surpreenderão aqueles que forem às livrarias para saber o que levou Bush a declarar a guerra ao Iraque, como o furacão Katrina o afetou ou por que ele autorizou o uso das simulações de afogamento, técnica de tortura, no interrogatório de terroristas.

Todas essas respostas já foram muito exploradas em uma extensa cobertura da imprensa, ansiosos por trazer de volta à cena política o ex-presidente que encerrou seu mandato com o índice de impopularidade mais alto da história moderna do país, de 76% (mas que aparece cada vez melhor ao longo do mandato de seu sucessor, o democrata Barack Obama, e a lenta recuperação econômica).

Mas enquanto todos falam de seus deslizes políticos, como aquele no qual reconhece que pensou em se livrar do vice-presidente Dick Cheney na campanha pela reeleição em 2004, Bush quer afastar-se o máximo possível deles.

Em entrevista a Oprah Winfrey que será transmitida nesta terça-feira, Bush afirmou que não é um cientista político e se recusou a comentar as eleições legislativas que nesta semana fizeram o Partido Democrata perder a maioria na Câmara para seu Partido Republicano.

O ex-presidente também prefere não criticar seu sucessor, Barack Obama, quem ele insiste em tratar da forma como ele "gostaria de ter sido tratado". "Obama tem um trabalho muito difícil pela frente, acreditem", disse Bush. "Ele terá muitos críticos, e não precisa que eu seja um deles".

Bush inclusive elogiou o atual chefe de Estado, ao lembrar que seu carisma o impressionou antes das eleições de 2008.

Erro

O furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans em 2005, foi responsável por uma enxurrada de críticas a Bush após a publicação de uma imagem que o mostra a bordo do Air Force One contemplando a região atingida.

"Foi um erro enorme", destacou o ex-presidente em entrevista que a cadeia NBC transmite nesta segunda-feira, e na qual também afirma que a imagem o mostrava "distante e indiferente", em um momento no qual ele enfrentava uma série de críticas por sua lenta resposta à catástrofe.

O Katrina também originou o que Bush considera "um dos pontos mais baixos" de sua Presidência --quando o rapper Kanye West o chamou de racista e disse que ele não se importava com os negros que compõem a maioria da população de Nova Orleans.

Os comentários de West afetaram muito a imagem do ex-presidente, assim como as críticas à sua gestão na Guerra do Iraque e os protestos pelos métodos que recomendou para os interrogatórios a terroristas da Al Qaeda após os atentados de 11 de setembro de 2001.

"Pensei nas 2.971 pessoas que foram afastadas de suas famílias em 11 de setembro e em meu dever de proteger meu país de outro ato terrorista", escreve em relação às simulações de afogamento, uma prática que motivou amplas investigações dentro da CIA, a Agência Central de Inteligência americana.

A autobiografia de Bush tenta humanizar a imagem do ex-presidente americano. E, nessa tarefa, os desafios pessoais - como o momento em que decidiu largar o álcool para vencer a dependência - são a arma de Bush para limpar sua imagem, após meses de discrição em seu rancho do Texas.


Fonte: Folha

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"Literatura é negação da realidade" diz Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa

O peruano Vargas Llosa é prêmio Nobel de Literatura 2010

Para o peruano Mario Vargas Llosa, recém-anunciado vencedor do Nobel de literatura, ao menos três brasileiros poderiam ter ganho o prêmio: Guimarães Rosa (1908-1967), Jorge Amado (1912-2001) e Euclydes da Cunha (1866-1909).

O primeiro, segundo ele, foi prejudicado pela dificuldade de se traduzir sua obra. O segundo, pela característica de escritor popular.

Para Vargas Llosa, "Os Sertões", de Euclydes, no qual se baseou para escrever "A Guerra do Fim do Mundo", permite compreender não só o conflito de Canudos, mas a América Latina.

Em conversa com jornalistas da Folha no auditório do jornal, ontem à tarde, o Nobel disse que a literatura é uma negação da realidade "queira ou não o escritor".

Autor de romances baseados em ditadores latino-americanos, disse que não escreverá mais sobre esses personagens. "Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Eles repetem a si mesmos como maníacos."

Vargas Lllosa falou pouco sobre seu Nobel. Confirmou a história de um xamã andino que, a partir de folhas de coca, previu que ele ganharia o prêmio. "Não acreditava muito na coca, mas parece que ela tem sabedoria".

Leia trechos do bate-papo:

Nobel brasileiro
Não está certo [que nenhum brasileiro tenha recebido o prêmio]. Deveriam ter recebido. Guimarães Rosa mereceria, sem dúvida. É um dos grandes escritores latino-americanos de seu tempo, pelo vigor e pela ambição da obra, pelo trabalho linguístico extraordinário.

Um dos problemas que teve é que sua obra é muito difícil de traduzir. As traduções não conseguem estar à altura do que são os livros, sobretudo "Grande Sertão: Veredas", uma obra-prima absoluta.

Amado no céu
Jorge Amado teve grande reconhecimento universal. Dizia que a Academia Sueca não havia lhe dado o prêmio por ser tão popular.

Quando começou a escrever, parecia um escritor velho. Seus primeiros romances são muito sérios, as pessoas quase não riem. Era mais ideológico, de denúncia social. À medida que envelhecia, rejuvenesceu como escritor.

Euclydes e "Os Sertões"
A mim impressionou tanto a história de Canudos quanto o caso do próprio Euclydes da Cunha, porque ele viveu essa guerra de uma maneira tão dramática e tão desgarrada que permitia ver até que ponto um país inteiro viveu um mal-entendido tão grande. É o que explica a matança.

A matança é resultado desta incomunicabilidade entre dois segmentos, um moderno e outro primitivo. Com variantes, essas divisões dogmáticas intolerantes, intransigentes, estão por trás dos grandes desgarramentos, das grandes tragédias sociais e políticas que a América Latina viveu em sua história.

Talvez por isso me fascinou tanto esse livro de Euclydes da Cunha. Porque, lendo-o, entende-se não só o que passou, mas a América Latina.

Negação da realidade
A literatura é uma refutação da realidade, queira ou não o escritor. Se estivéssemos contentes com o mundo tal como é, com a vida tal como é, não inventaríamos outro mundo. Para quê?

Literatura e ditadura
Um bom leitor de literatura é uma pessoa inquieta frente ao mundo e à realidade. Isso sempre foi muito bem entendido pelas ditaduras, todas. Porque não há ditadura que não queira controlar essa atividade que é a criação de mundos fictícios. Têm uma desconfiança natural pela literatura. Intuem que nela há algo perigoso. E creio que têm razão. Há algo perigoso na quimera que é a literatura.

Jornalismo e ficção
Não teria escrito boa parte dos livros que escrevi não fosse o jornalismo. Foi uma fonte maravilhosa de experiências. Para um jornalista, a linguagem tem que ser inevitavelmente um meio. Para o escritor, também, mas, ao mesmo tempo, do ponto de vista estético, é sempre um fim. Vale por si mesma.

Chega de ditadores
[Questionado se o presidente da Venezuela, Hugo Chávez seria um bom personagem] Escrevi bastante sobre ditadores. Escrevi "Conversação na Catedral" sobre a ditadura de [Manuel] Odría [que vigorou no Peru entre 1948-1956]. "A Festa do Bode" sobre a ditadura de [Rafael] Trujillo [na República Dominicana, 1930-1961]. Creio que Chávez é como um híbrido de Odría, de Trujillo. Quando se escreve sobre um ditador, escreve-se sobre todos. Os ditadores se repetem como maníacos. Não tenho vontade de escrever mais sobre ditadores.

García Márquez
[Questionado se o colombiano, com quem tem desavença, o cumprimentara pelo Nobel] Esse é um tema que vamos deixar para nossos biógrafos, se os merecermos.

Fonte: Folha

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A era do livro digital




A tecnologia mudará o jeito como encaramos a leitura. Ninguém mais vai julgar um livro pelo número de páginas, e sim por quanto tempo ele vem sendo escrito (um processo que poderá durar infinitamente). E o livro vai se transformar em um fórum, um espaço em que leitores trocarão ideias entre si e com os autores. É o que diz Bob Stein, presidente do Instituto para o Futuro do Livro, dos EUA.


O que o livro digital vai criar?

Um novo tipo de relação social. O livro existe para difundir ideias, para que possamos falar delas. Mas hoje lemos um livro e conversamos depois, quando nos encontramos com outras pessoas. Com o livro digital, as duas etapas vão acontecer ao mesmo tempo. A conversa vai passar para as próprias páginas do livro.

Como assim? 

E-readers, computadores e outras plataformas de leitura digital estarão conectados entre si, via internet. Eu estarei conectado a outros leitores que escolheram o mesmo título - ou seja, o livro estará em rede. As anotações que eu fizer em uma página ficarão visíveis para todos. Será uma nova forma de conversa. Comprarei um livro para minha neta e deixarei notas para ela, que escreverá de volta para mim, por exemplo.

O que mudará para autores?

O autor de um livro em rede será o líder de um grupo. Ele lançará um tópico e comandará os leitores num empenho para ampliar o conhecimento, já que cada um fará anotações e iniciará suas próprias discussões. Alguns autores vão querer fazer um texto completo e colocá-lo em debate. Outros colocarão rascunhos que serão trabalhados pelos leitores. 

Se um livro continuará sendo escrito depois de lançado, os leitores vão pagar por uma obra incompleta, então?

Acredito que um modelo que vai surgir é o de assinatura. As pessoas vão assinar um livro, e não comprar. Serão assinantes da obra pelo tempo que quiserem - quando perderem o interesse na discussão, param de pagar. O mesmo vale para o autor. Ele seguirá editando o material por semanas ou anos. Vai se envolver com os leitores, e não com o assunto em si. No dia em que o assunto deixar de lhe interessar, ele deixará de receber. Ou talvez o livro se torne público. E as editoras de sucesso terão a capacidade de construir comunidades vibrantes em torno dos livros.

Ler e escrever vão deixar de ser momentos solitários?

Ler e escrever sempre foram atividades sociais. O costume de ler livros em voz alta durou até meados do século 19. Antes de Gutenberg permitir que tivéssemos cópias de um livro, o conceito de autor nem existia. Portanto, a noção de que uma ideia é criada por alguém e recebida por outro é recente. Com a tecnologia, vamos ter uma nova era de colaboração. O grupo valerá mais do que o indivíduo.

O que falta para essa era?

Reinventar tudo o que faz o livro funcionar: editoras, livrarias, prateleiras. O esquema de venda hoje é dedicado ao impresso: vender um objeto para um só indivíduo. Claro, nem todos os leitores vão querer entrar na discussão em rede, e o estilo atual de leitura ainda vai existir. Mas ninguém criou um modelo para a leitura social. Exemplo: posso lançar uma pergunta a amigos como "Quero ler esse livro - quem quer ler comigo no fim de semana?" Isso vai acontecer. E ainda não sabemos como atenderemos a essa demanda.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Audiodescrição: as emoções do cinema também para cegos

Confira reportagem da Rede Globo sobre a novidade tecnológica da Audiodescrição, que proporcionará a cegos a oportunidade de sentir as emoções do cinema mesmo sem enxergar a imagem:



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Diretor de cinema cego grava seu primeiro filme




João Júlio Antunes ficou cego há 14 anos.
'Uma vela para Deus e outra para Beto' está sendo rodado em Brasília.

Cego há 14 anos, o diretor João Júlio Antunes, 44 anos, dirige seu primeiro filme. O longa "Uma vela para Deus e outra para Beto" está sendo rodado em Brasília. Para ter noção do posicionamento em cena dos atores, Antunes fica atento aos sons e tudo é medido pela inseparável bengala.

“Minha bengala tem 1,30 metro, eu mais ou menos tenho essa noção. As pessoas ficam sem entender como eu meço os espaços”, conta Antunes.

São os diretores e auxiliares da equipe que descrevem para Antunes o que vai ser gravado. “Eu estou criando a imagem do imaginário dele. Eu tenho que entrar na mente dele e ele dizer: ‘Eu quero isso’”, explica o diretor de fotografia Cláudio Luis de Oliveira como funciona a parceria. E desta forma que Antunes consegue realizar seu sonho. “Os olhos dele são os meus olhos”, diz o diretor.

Na memória de Antunes, há um banco de imagens. Entretanto, hoje tudo o que ele consegue ver é um grande branco. A dificuldade para enxergar começou na adolescência. “O médico falou que tinha alguma coisa errada. ‘Até os 45 anos, você vai estar cego’. Eu fiquei cego com 30”.

João e os irmãos têm uma doença chamada retinose pigmentar. Uma das partes do olho é a retina, formada por células que recebem a luz. Na doença, essas células morrem aos poucos. A visão periférica é a primeira a ser comprometida. A retinose pigmentar atinge uma em cada 5 mil pessoas, e em metade dos casos pode passar de uma geração para outra.

"Uma vela para Deus e outra para Beto" está sendo rodado com patrocínio público. A grande inovação do filme é a possibilidade de inclusão de pessoas com deficiência. Se não bastasse o fato de ser dirigido por um cego, o roteiro conta com atriz cadeirante. Quando chegar aos cinemas, haverá descrição falada das cenas para que os deficientes visuais possam assistir, além da linguagem de sinais para surdos. “Mas não é um filme feito pra deficientes. É um filme feito pra todo mundo!”, esclarece o diretor.

Confira reportagem:


Fonte: G1

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Filho do Hamas: a história do filho do fundador do mais radical grupo terrorista do Oriente Médio






O autor do livro Filho do Hamas fala sobre sua conversão ao cristianismo, de ser espião de Israel e de ter envergonhado sua família.


“Estou totalmente consciente de que para quase todos eu sou um traidor”, diz Mosab Hassan Yousef. “Para minha família, para minha nação, para meu deus [Alá], eu cruzei todas as linhas vermelhas, infringi todas as leis em minha sociedade. Não restou nenhuma que eu não tivesse cruzado”.


Mosab, que tem 32 anos, é filho do sheik Hassan Yousef, um dos fundadores e líder do grupo terrorista palestino Hamas. Durante toda a década passada, desde a segunda intifada (rebelião dos palestinos) até a atual paralisação [das negociações de paz], ele trabalhou juntamente com seu pai na Margem Ocidental. Durante aquele tempo, o jovem Yousef também abraçou secretamente o cristianismo. E, como ele revela em seu livro Son of Hamas [Filho do Hamas], lançado nos EUA no início de março, tornou-se um dos principais espiões do Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel.


A notícia dessa conversão dupla reverberou em todo o Oriente Médio. Um dos contatos de Yousef no Shin Bet confirmou o relato dele ao diário israelense Haaretz. O Hamas – já abalado devido ao assassinato de um chefe militar importante em Dubai no mês de janeiro – chamou essas afirmações de propaganda sionista. Da prisão israelense em que se encontra desde 2005, o sheik Yousef divulgou uma declaração na qual ele e sua família afirmam: “Repudiamos completamente o homem que era nosso filho mais velho e que se chamava Mosab”.


Nos últimos dois anos, Mosab Yousef viveu em San Diego (Califórnia/EUA), onde evitou chamar a atenção sobre si por motivos de segurança. Os EUA estão analisando o pedido de asilo político feito por Mosab e, até sua confissão de espionagem e da repentina onda de publicidade que acompanhou essa confissão, só o conheciam como sendo o filho de um terrorista que às vezes freqüenta igrejas evangélicas na Califórnia. Com o livro, ele pretende iniciar uma nova etapa de vida na América.


Yousef, cujos olhos grandes e simpáticos se destacam em sua face oval, diz que ele mesmo ficou confuso durante muitos anos, e entende que muitas pessoas também ficarão. Sua família foi envergonhada e seus velhos amigos se recusam a acreditar nele. O livro, um thriller ao estilo de Le Carré, envolto em uma história espiritual que está amadurecendo, é uma tentativa de responder ao que ele diz ser “impossível de imaginar”“como eu acabei trabalhando para os meus inimigos, que me machucaram, que machucaram meu pai, que machucaram meu povo”.


“Existe uma explicação lógica”, continua ele em um inglês bastante fluente. “Simplesmente meus inimigos de ontem se tornaram meus amigos. E meus amigos de ontem se tornaram realmente meus inimigos”.


A primeira metade de suas memórias descreve a infância em Ramallah, marcada por laços familiares estreitos e pela ocupação israelense. Ele descreve um pai muçulmano bondoso e incomum, que faz o jantar, que trata bem sua mãe, e que se preocupa com seus vizinhos. Um imã (autoridade religiosa muçulmana) que fora treinado na Jordânia, o sheik Yousef chega à notoriedade em sua cidade natal e, em 1986 – juntamente com outros seis homens, inclusive um clérigo de Gaza preso a uma cadeira de rodas, o sheik Ahmed Yassin – forma o Hamas em um encontro secreto em Hebron. A primeira intifada palestina – ou seja, o primeiro levante palestino – estoura no ano seguinte. Mosab fez sua parte, atirando pedras nos colonos israelenses e nos veículos do exército.

“A maioria das pessoas ouviu falar sobre o Hamas depois que o grupo passou a realizar ataques terroristas”, diz ele, falando de perto da casa de seu agente em Nashville. “O Hamas começou como uma idéia. Digamos, uma idéia nobre – resistir à ocupação”. Aqueles primeiros choques com os israelenses geraram uma violência pior, e o cemitério perto da casa dele começou a ficar cheio de cadáveres. Os palestinos também se voltaram uns contra os outros. A Organização Pela Libertação da Palestina (OLP), corrupta e autoritária, vivia em confronto com o Hamas e com outros grupos que surgiam. Todos eles usavam acusações de “colaboração” como uma desculpa para torturar e matar seus rivais ou os mais fracos.


Yousef afirma ter despertado quando acompanhou pela primeira vez a crueldade do Hamas. Em 1996, foi preso pelos israelenses por comprar armamentos. Yousef diz que apanhou muito e foi torturado na prisão. Foi então que o Shin Bet se aproximou dele. Ele diz que pensou em tornar-se um agente duplo. “Eu queria me vingar de Israel”, escreve ele. Mas quando foi enviado para cumprir sua pena na prisão em Megido, no norte de Israel, diz que ficou mais chocado pela maneira como o maj’d, o braço de segurança do Hamas, tratava seus prisioneiros.


“Todos os dias, havia gritos; todas as noites, torturas. O Hamas estava torturando seu próprio povo!”, escreve ele. Os muçulmanos que encontrou na prisão “não tinham nenhuma semelhança com meu pai” e “eram perversos e mesquinhos... intolerantes e hipócritas”.


Por concordar em trabalhar com o Shin Bet, logo saiu da prisão. Ele diz que estava curioso acerca dos israelenses e rapidamente abandonou sua idéia de se tornar um agente duplo. Embora recebesse dinheiro do Shin Bet e permanecesse na folha de pagamento da agência durante uma década, seus treinadores naqueles primeiros anos não requisitaram muito dele. Eles o encorajaram a estudar e a ser um modelo de filho. Seu nome em código era Príncipe Verde: verde como a cor da bandeira islâmica do Hamas, e príncipe como o descendente da “nobreza” do Hamas.


Durante aqueles anos calmos ele conheceu um taxista britânico em Jerusalém que lhe deu uma cópia do Novo Testamento em inglês e em árabe, e o convidou para participar de um encontro de estudos da Bíblia que era realizado em um hotel. “Percebi que fui realmente atraído pela graça, pelo amor e pela humildade de que Jesus falava”, escreve no livro Filho do Hamas.


Como espião, Yousef não foi totalmente ativado até estourar a segunda intifada, em setembro de 2000. Alguns meses antes, em Camp David, Yasser Arafat, o então chefe da OLP, havia rejeitado a oferta israelense de um Estado palestino em 90% da Margem Ocidental tendo Jerusalém Oriental como capital. De acordo com o Yousef, Arafat decidiu que precisava de uma outra insurreição para ganhar de volta a atenção internacional. Então, buscou o apoio do Hamas através do sheik Yousef, escreve o filho, que o acompanhou ao complexo de Arafat. Aqueles encontros aconteceram antes que as autoridades palestinas encontrassem um pretexto para a segunda intifada. Esta ocorreu quando Ariel Sharon, o então primeiro-ministro de Israel, visitou o Monte do Templo em Jerusalém, local onde está a mesquita Al-Aqsa e o Domo da Rocha. O relato de Yousef ajuda a esclarecer o registro histórico de que o levante fora premeditado por Arafat.


Yousef me disse que ficou horrorizado com a violência sem motivo desatada por políticos que queriam subir “nos ombros dos pobres e das pessoas religiosas”. Ele disse que os palestinos que atenderam ao apelo “iam como um boi vai para o matadouro, e achavam que estavam indo para o céu”. Portanto, como escreve em seu livro, “com a idade de vinte e dois anos, eu me tornei a única pessoa do Shin Bet infiltrada no Hamas que poderia penetrar as alas militar e política do Hamas, bem como de outras facções palestinas”.


Yousef reivindica para si mesmo alguns golpes significativos de inteligência, e diz que ainda não está contando tudo para o mundo. Logo no início, ele foi o primeiro a descobrir que as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, um grupo terrorista nascido durante a segunda intifada, eram compostas pelos guardas de Arafat, sustentados diretamente por doadores internacionais. Ele diz que descobriu o fabricante de bombas palestino mais letal e frustrou as conspirações de assassinato contra o presidente Shimon Peres, então ministro do Exterior, assim como de um rabino muito conhecido. Mosab diz que desbaratou celas de homens-suicidas prontos para atacar Israel. E que ajudou a convencer seu pai a ser o primeiro líder importante do Hamas a oferecer uma trégua a Israel.


O treinador de Mosab, chamado “Capitão Loai”, agora aposentado do Shin Bet, confirmou muitas dessas histórias ao Haaretz. O jornal disse que o Shin Bet considera Yousef “um agente da maior confiança e profissionalismo”.


Mosab esforça-se por se justificar, mas finalmente “a questão é se eu sou um traidor ou um herói aos meus próprios olhos”.


Portanto, estamos de volta ao por quê?


A motivação, diz ele, foi salvar vidas.

“Eu já tinha visto mortes demais. Fui testemunha de muitas mortes. (...) Salvar uma vida humana é muito, muito lindo, não importa quem seja. Não são apenas os israelenses que me devem suas vidas. Eu garanto que muitos terroristas, muitos líderes palestinos também me devem suas vidas – ou, em outras palavras, eles devem suas vidas ao meu Senhor”.


Ele diz que usou de sua influência no Shin Bet para conseguir que os israelenses tentassem prender integrantes do Hamas e de outros grupos palestinos em vez de explodi-los com mísseis. Mosab afirma que salvou seu pai do destino do sheik Yassin e de outros líderes do Hamas, a quem os israelenses mataram. Para evitar que o mesmo acontecesse a seu pai, fez um arranjo secreto com o Shin Bet para que o mesmo fosse preso. “Eu sei com certeza que meu pai está vivo hoje, que ele ainda respira, porque eu estava envolvido nisso tudo”.


Yousef tem algo de evangelista em si, mesmo quando insiste que não é um cristão devotado e que ainda está aprendendo sobre sua nova religião. Ele quer que os israelenses e palestinos saibam o que fez por causa do Deus cristão.


“Converti-me ao cristianismo porque fui convencido por Jesus Cristo como um personagem, como uma personalidade. Eu o amei, amei sua sabedoria, seu amor, seu amor incondicional. Não deixei a religião [islâmica] para me colocar de volta em uma outra rígida estrutura religiosa. Ao mesmo tempo, é bonito ver que o meu Deus existe em minha vida e vê a mudança em mim. Percebo que, quando ele existir em outras pessoas do Oriente Médio, haverá mudanças.Não estou tentando converter toda a nação de Israel e toda a nação da Palestina ao cristianismo. Mas, pelo menos, a gente pode ensinar-lhes sobre a ideologia do amor, a ideologia do perdão, a ideologia da graça. Esses princípios são grandiosos independentemente de onde venham, mas não podemos negar que vieram do cristianismo”.


Yousef diz que sentiu-se sem ânimo e decidiu parar de trabalhar para o Shin Bet em 2006, mesmo contra a vontade deles. Quem abriu os caminhos para ele foram amigos no sul da Califórnia, que conheceu através dos estudos bíblicos.


Como filho de um clérigo muçulmano, diz que chegou à conclusão que o terrorismo não pode ser derrotado sem uma nova compreensão do islamismo. Assim, reafirma o que foi dito por outros que deixaram o islamismo, tais como a ex-parlamentar e escritora holandesa Ayaan Hirsi Ali.


Perguntei-lhe se considera seu pai um fanático. “Ele não é um fanático. Ele é muito moderado, uma pessoa lógica. O que importa não é se meu pai é fanático ou não, mas que está fazendo a vontade de um deus fanático. Não importa se é um terrorista ou um muçulmano tradicional. No final das contas, um muçulmano tradicional está fazendo a vontade de um deus fanático, fundamentalista e terrorista. Sei que isso é duro de dizer. A maior parte dos governos evita esse tipo de assunto. Eles não querem admitir que essa é uma guerra ideológica."

“O problema não está nos muçulmanos”, continua ele. “O problema está no deus deles. Eles precisam se libertar de seu deus. Alá é o maior inimigo que eles têm. Há 1.400 anos eles têm sido enganados”.


Estas são palavras perigosas. A respeito das ameaças feitas contra a sua vida por islâmicos, ele diz: “Essa não é a pior coisa que pode acontecer. Eu posso conviver com isso, não estou com medo. (...) Os palestinos têm razão para me matar. Alguns israelenses podem querer me matar. Meu alvo não é derrotar meu inimigo. É conquistar a confiança do meu inimigo."

 

Fonte: Beth Shalom



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