terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"No Irã nunca haverá paz" - Livro sobre a revolução no pais dos aiatolás escrito em 1981 é publicado no Brasil


Marcos Guterman

O Irã dos aiatolás é um país em estado permanente de vingança. Essa visão, que explica as tensões geradas pela teocracia iraniana em relação ao Ocidente, surge em “O Xá dos Xás”, livro de 1981 do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski que está sendo lançado agora no Brasil.

Morto em 2007, Kapuscinski é um autor controverso. Ele testemunhou 27 revoluções – a última delas no Irã, em 1979, quando o xá Reza Pahlevi foi derrubado por democratas e religiosos islâmicos – e descreveu boa parte desses movimentos misturando literatura e jornalismo. Vários detalhes que ele incluiu em suas narrativas carregam erros factuais ou mesmo invenção pura. Nada disso, porém, tira a força de sua obra – pelo contrário: pode-se dizer que o criativo Kapuscinski valoriza o espírito das revoluções, o que o jornalismo, sozinho, talvez não seja capaz de fazer. Para ele, os “fatos” eram meros acessórios de uma história muito maior.

No caso de “O Xá dos Xás”, essa história tem como elemento central a elaboração da resposta iraniana ao imperialismo ocidental, traduzido pela figura de Pahlevi. A Revolução Islâmica, ápice dessa reação, isolou deliberadamente o Irã, e Kapuscinski vê nisso uma qualidade. A leitura que Kapuscinski faz desse desdobramento beira o simplismo ideológico – não nos esqueçamos de que ele trabalhou durante muito tempo para a agência de notícias do Partido Comunista da Polônia. “No mundo superlotado e impositivo de hoje, a única forma de o mais fraco se defender, de conseguir manter-se à tona, é separar-se dos demais, colocar-se à margem”, escreve Kapuscinski, a propósito da intenção do Irã sob o regime do aiatolá Ruhollah Khomeini de não permitir a influência ocidental.

O jornalista diz que “as pessoas têm medo de ser engolidas, desnudadas, de passar por um processo de uniformização” do pensamento. Kapuscinski, porém, é omisso quanto à uniformização do pensamento empreendida pelo regime teocrático em nome da “pureza cultural”, que só existe no discurso de tiranos travestidos de guardiães de tradições ancestrais.

Mas Kapuscinski atribui ao xiismo o papel de elemento definidor do Irã, como se o xá fosse uma aberração e não tivesse sido ele mesmo produto das contradições do país. Segundo seu raciocínio, o Irã que o Ocidente conhece não é senão o dos “petroburgueses”, classe social de parasitas criada pelo xá no boom do petróleo na primeira metade dos anos 70, que se pendura na rede de favores e de corrupção em torno do monarca e se isola em vilas sofisticadas em Teerã e na Europa. “Como é distante dessas vilas o Irã real, que, em breve, levantará a voz e surpreenderá o mundo!”, escreve Kapuscinski. “A nova classe social faz uma demonstração da dolce vita iraniana sem limites em sua perversão de costume, ganância e cinismo.” O juízo de valor retroativo, baseado na leitura de que um estado “ideal” foi contaminado pela “perversão” estrangeira, cria a problemática sensação de que os iranianos não foram, eles também, responsáveis pelo regime tirânico que por tanto tempo os governou.

Por outro lado, e é nisso que reside a força da narrativa de Kapuscinski, fica claro que o xá foi longe demais. No livro, compreende-se o tamanho da hostilidade do iraniano comum em relação ao Ocidente, encarnado na figura do monarca e de seus patrocinadores americanos e britânicos, algo fartamente explorado pelos aiatolás. Compreende-se também que as eventuais sanções impostas ao Irã são vistas como interferência externa e que, na história iraniana, não é exatamente um problema viver sob esse bloqueio.

Como mostra Kapuscinski, o Irã xiita se enxerga como “asilo e refúgio” para aqueles que contestam os poderosos: “Um xiita é, antes de tudo, um oposicionista”. A ostentação das monarquias muçulmanas sunitas é um incômodo grave para os xiitas, minoritários no mundo islâmico e que se veem como um povo orgulhosamente marcado para sofrer. O xá desafiou esse estado de espírito quando o petróleo revirou o Irã do avesso, criando “a ilusão de uma vida totalmente transformada, de uma vida sem esforço, de uma vida gratuita”, escreve Kapuscinski. “O petróleo é uma matéria-prima que envenena a mente, embaça a visão, desmoraliza.” O xá prometeu transformar o Irã em potência, momento em que, para o autor, o país mergulhou na luxúria e na insensatez.

O contraste do inseguro e depravado xá com o vigoroso e asceta Khomeini não poderia ser maior. O velho aiatolá, que nunca foi retratado quando jovem, “jamais saiu de Qom”, sua cidade natal, núcleo de imenso fervor religioso. Era, nas palavras de Kapuscinski, um “homem obstinado e dono de uma firme e inexorável força de vontade”.

Já a fragilidade do xá se traduz, conforme Kapuscinski, na violência absurda de sua polícia política, a Savak, que podia sequestrar qualquer pessoa, torturá-la muito além do limite da sanidade e só então perguntar-lhe o nome e o endereço. O resultado disso foi o terror permanente. Desse modo, mostra o autor, o regime do xá deixou aos iranianos a escolha entre a Savak e os mulás. “O povo, claro, escolheu os mulás.” O Irã então erigiu um regime quase tão opressor quanto o do xá, em nome da independência em relação ao Ocidente. Mas, como diz Kapuscinski, os iranianos escolheram os mulás em 1979 não porque são fanáticos, mas porque são esclarecidos. Por essa razão, o movimento reformista do Irã contra os exageros da teocracia, traduzido na recente “revolução verde”, pode ser o primeiro sintoma de que a roda da história no país não parou de girar. Como diz um entrevistado a Kapuscinski, “no Irã nunca haverá paz”.

Publicado com título "A resposta iraniana ao poder ocidental"


sábado, 18 de fevereiro de 2012

"A Separação" é um filme que "conta uma história próxima das histórias da gente"


Cena de "A Separação"
Contardo Calligaris

Nas últimas semanas, perdi a conta dos leitores que me encorajaram a comentar "A Separação", de Asghar Farhadi. Para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, só algumas anotações.


1) Em Teerã, num tribunal, um homem e uma mulher discutem, cada um tentando ganhar a guarda da filha. Eles tinham o sonho comum de ir embora do país (oferecendo à menina, como se diz, um futuro melhor) e já estavam com visto e autorização para viajar, mas eis que o marido desistiu do projeto porque ele deve se ocupar do velho pai, doente e demente. Adiar a viagem é impossível: a autorização que eles conseguiram logo vencerá. A mulher quer se separar do marido, para viajar e levar a filha para o exterior, como planejado. O marido se opõe.

Provavelmente, no lugar do juiz, eu apoiaria o dever para com o velho genitor contra o sonho (quem sabe, frívolo) de um futuro diferente. Esta mulher quer o quê? Enfiar o sogro num asilo só para respirar o ar de Paris ou Nova York? Agora, se, em vez de juiz, eu fosse terapeuta do casal, talvez não me deixasse enternecer pela "nobre" decisão do marido. Afinal, qual melhor desculpa do que um pai doente para justificar nossas desistências? É frequente: a gente "se sacrifica" em nome de obrigações sagradas e tradicionais, e, de fato, esses compromissos nos servem para renegar nossos desejos.

Você também conheceu uma tia que nunca se casou porque "teve que" criar o sobrinho cuja mãe morreu cedo? Ótimo, sobretudo para o sobrinho; mas há uma chance de que esse nobre sacrifício tenha sido o jeito que a tia encontrou para fugir de uma vida amorosa e sexual que ela desejava, mas que ela também sobretudo temia.

2) Aparentemente, é a mulher que, insensível à devoção filial do marido, pede a separação. Alguém poderia suspeitar, aliás, que ela esteja apenas se aproveitando da ocasião para decretar o fim de uma relação que talvez já tenha acabado há tempos. Mas é possível que o verdadeiro responsável pela separação seja o marido: será que a opção de cuidar do velho pai não é o jeito que ele encontrou para forçar a mulher a querer se separar dele? Eu não fiz nada, só "tenho que" honrar meu pai, é você que não me aguenta e é você que quer se separar. É o estilo passivo-agressivo: a iniciativa sempre parece ser do outro.

3) Mesmo se eu não professasse nenhuma ideia oposta às do regime, mesmo se meu desejo sexual fosse integralmente permitido pela polícia dos costumes, eu fugiria de Teerã -apenas por saber que há direções nas quais meus sonhos seriam punidos, caso se aventurassem por lá. Também fugiria de qualquer Irã ou Cuba do mundo porque não tolero ficar num lugar de onde é difícil, se não proibido, sair.

4) O marido não é um santo, mas parece fazer uma escolha generosa: renuncia ao projeto de emigrar por fidelidade ao pai. Mas nunca é fácil saber no que consiste a verdadeira fidelidade. No caso, ela consiste em cuidar do pai demente ou em correr atrás do que ele talvez quisesse para nós? Ou seja, imaginemos que (banalmente) meu pai sonhasse com a minha liberdade: será que eu lhe seria mesmo fiel no dia em que, para assisti-lo, eu renunciasse a meu próprio desejo?

5) O diretor do Ministério da Cultura do Irã declarou à Folha que "A Separação" é "contrário ao sistema político iraniano", o que, segundo ele, seria demonstrado pelo sucesso do filme no Ocidente. Bizarro, entre outras coisas, porque o filme contém uma defesa do islã popular como grande e necessária garantia moral. Seja como for, as ditas plateias ocidentais talvez estejam um pouco cansadas de assistir a visões caricaturais de mundos exóticos, nos quais, graças a alguma tradição, sempre se sabe qual é a coisa certa.

Talvez nós, plateias ocidentais, notoriamente narcisistas, estejamos mais interessadas no cotidiano de nossa própria experiência, ou seja, no conflito nunca resolvido entre as dívidas com nosso passado e as dívidas com nosso futuro. A dívida com o passado pode ser exigente e incômoda (como ocupar-se de um pai demente), mas ela é, por assim dizer, pacífica: estabelecida e tranquila. Enquanto a dívida com o futuro é sempre inquietante, sem resposta: qual será a viagem que devo a mim mesmo?

Caro diretor do Ministério da Cultura do Irã, não gostamos de "A Separação" porque seria anti-iraniano (que não é), mas porque conta uma história próxima das histórias da gente.

Fonte: Folha

Ficha:
The Separation (A Separação)
Diretor:  Asghar Farhadi
¶ Duas indicações ao Oscar 2012: Melhor filme estrangeiro e roteiro original.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O desafio e esperanças de editoras de livros frente às novas tecnologias


Julie Bosman

A Barnes & Noble, gigante que ajudou a tirar do mercado tantas livrarias independentes, trava agora a luta da sua vida. E seu Nook, concebido em segredo numa antiga padaria, é a grande esperança eletrônica da rede e, na verdade, de muita gente do setor editorial.O Nook – e por extensão a própria B&N – parece ser a única coisa que separa as editoras tradicionais da irrelevância.

Dentro das grandes editoras – nomes como Macmillan, Penguin e Random House- há inquietação com o futuro da B&N, que é a última grande rede de livrarias. Primeiro, as megalojas expulsaram as pequenas, depois as redes foram engolidas pela migração dos consumidores para a internet.

Ninguém acha que a B&N irá sumir da noite para o dia. A preocupação é que ela míngue lentamente, conforme mais leitores adotem os e-books. E se a B&N virar pouco mais do que um café com um ponto de conexão digital? Tais temores vieram à tona no começo de janeiro, quando a empresa previu que sofrerá neste ano um prejuízo ainda maior do que Wall Street esperava. Suas ações caíram 17% naquele dia.

Bom faturamento

À espreita por trás disso tudo está a Amazon, força dominante no comércio eletrônico de livros. Muitos profissionais do ramo editorial enxergam a Amazon como um inimigo que, se não for controlado, poderá ameaçar toda a indústria e o ganha-pão dessas pessoas.

As editoras estão cortando custos e demitindo funcionários. Os livros eletrônicos estão bombando, mas não são muitos os editores que desejam que eles substituam os livros impressos. Já o presidente da Amazon, Jeff Bezos, quer eliminar os intermediários -ou seja, os editores tradicionais- ao lançar e-books por conta própria.Por isso, a B&N agora parece tão crucial para o futuro do setor. Em muitas localidades, suas lojas são as únicas com uma ampla seleção de títulos. Se algo acontecer com a B&N, a Amazon pode se tornar ainda mais poderosa.

“Seria como A Estrada”, disse um executivo de editora, referindo-se, meio de brincadeira, ao romance de Cormac McCarthy. “O mundo editorial pós-apocalíptico, com editores empurrando carrinhos de compras pela Broadway.”

Mas William Lynch, presidente da B&N, se diz preparado para a batalha. Com apenas três anos de experiência como livreiro, ele precisa encontrar um equilíbrio: preparar um futuro digital para a rede, mas sem abrir mão do seu passado com livros físicos – e tudo isso em meio às pressões sobre o valor das ações da empresa, com os clientes fugindo para a internet e com a Amazon rondando.

Lynch, que foi criado no Texas e tem a intensidade nervosa de um executivo de tecnologia, considera disparatada a ideia de que equipamentos como o Nook, o Kindle ou o iPad levarão as livrarias à obsolescência.

“Nossas lojas não vão para lugar nenhum”, disse Lynch. Ele citou um faturamento surpreendentemente robusto no fim do ano passado. E, no segundo semestre de 2011, a B&N capturou uma grande fatia do negócio deixada por um concorrente quebrado, a rede Borders.

Mas, em 5 de janeiro, a B&N anunciou que deve ter um prejuízo de até US$ 1,40 por ação no ano fiscal de 2012. E Lynch disse que os acionistas parecem estar subestimando tanto o potencial do Nook que talvez a empresa estivesse melhor se abandonasse o negócio digital.

“Efeito folheada”

Wall Street chiou e as ações da B&N ainda não se recuperaram totalmente. Uma pequena boa notícia para a empresa é que ela agora detém cerca de 27% do mercado do livro eletrônico, segundo Lynch. A Amazon tem pelo menos 60%.

Em 20 de janeiro, a Amazon divulgou um comunicado dizendo que “as vendas unitárias do Kindle, tanto do Kindle Fire quanto de leitores de e-book, aumentaram 177% sobre o mesmo período do ano passado”.

A B&N não tem exatamente o mesmo charme (nem o dinheiro) de um Google ou um Facebook. “Não vemos todas aquelas ações, o sushi bar gratuito e todo o resto que você encontra no Google, mas existe muita responsabilidade”, disse Bill Saperstein, 62, vice-presidente de engenharia de equipamentos digitais da Barnes & Noble. “Era algo em que eu acreditava fortemente, que é a leitura.”

No mês passado, engenheiros nos laboratórios da empresa no Vale do Silício faziam os últimos acertos no quinto leitor de e-books da empresa. Paralelamente, Lynch trabalha para reformular as lojas B&N. No ano passado, a empresa ampliou as seções de jogos e de brinquedos, e criou novas vitrines para promover o Nook. O executivo espera eliminar dentro de dois anos as seções dedicadas a CDs e a DVDs. E também pretende testar formato de lojas ligeiramente menores.

Alguns analistas se perguntam se Lynch não teve os olhos maiores do que a boca. No entanto, a B&N talvez tenha de se adaptar às novas realidades, ou morrer tentando.

“Acho que eles percebem que não podem continuar no ritmo que estão indo”, disse o consultor editorial Jack Perry. “Eles precisam de mais dinheiro para investir, para poder brigar.”

Desde 2002, os EUA perderam cerca de 500 livrarias independentes. Umas 650 sumiram quando a Borders deixou de funcionar no ano passado.

Alguns editores de Nova York já tentaram imaginar o setor sem a B&N, e a ideia não é nada boa: haveria menos lugares onde vender livros. Os independentes respondem por menos de 10% e os grandes magazines têm seções de livros menores do que as livrarias tradicionais.

Sem a B&N, a proposta de marketing das editoras desmorona. A ideia de que as editoras são capazes de identificar, moldar e publicar novos talentos e, então, levar as pessoas a comprar livros a preços que façam sentido economicamente, de repente, parece forçada. Divulgar livros pelo Twitter, ou depender de críticas, propaganda e talvez uma aparição na TV não parece ser um plano vencedor.

O que as editoras esperam da livraria é o “efeito folheada”. As pesquisas indicam que, das pessoas que entram em uma livraria e saem com um livro, apenas um terço já chegou com o desejo específico de comprar algo.

“O espaço de exposição que eles têm na loja é realmente um dos lugares mais valiosos que existem neste país para comunicar ao consumidor que um livro é um grande negócio”, disse Madeline McIntosh, presidente de vendas da Random House.

Amplo interesse

A venda de livros mais antigos, que tradicionalmente responde por algo entre 30% a 50% da receita das grandes editoras, sofreria terrivelmente.“Para todas as editoras, é importante que o varejo físico sobreviva”, disse David Shanks, presidente do Grupo Penguin nos EUA. “Quanto mais visibilidade um livro tem, mais inclinado o leitor fica [a comprá-lo].”

Carolyn Reidy, presidente da Simon & Schuster, diz que o maior desafio é, em primeiro lugar, dar às pessoas uma razão para entrar nas lojas B&N. “Eles descobriram como usar a loja para vender e-books”, disse ela. “Agora, tomara que a gente descubra como fazer com que esse ciclo se complete, e ver como os e-books podem vender os livros impressos.” Bezos, por exemplo, não está esperando. A Amazon já criou sua própria editora. E a cada dia as Bolsas dão um soturno aviso de que Bezos tem os bolsos mais fornidos que Lynch.

John Sargent, presidente da Macmillan, disse que a questão não interessa apenas às editoras. “Qualquer um que seja um autor, um editor ou que ganhe a vida distribuindo propriedade intelectual em forma de livro fica seriamente prejudicado se a B&N não prosperar.”


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