domingo, 18 de março de 2012

"Arte erótica" projeta brasileiros por meio de publicações especializadas e exposições no Brasil e exterior



Pedro Ferriera, o Lambuja, e suas mulheres no ringue aquático. Desenho feito para a banda de rock Tokyo Savana  (Foto: Lambuja)
Lívia Machado

Três enormes quadros brancos expostos na parede supostamente grafam ideogramas orientais em símbolos garrafais. Ao garantir certo distanciamento da obra, no entanto, é possível perceber que as palavras ali representadas estão em bom português: "bunda" e outros nomes da anatomia humana estão ao mesmo tempo em letras imensas e disfarçados.O linguajar de baixo calão é muito mais sutil do que os óbvios pênis e vaginas incorporados às esculturas que também pertencem à mesma exposição. Estatuetas tradicionais de gatos e outros animais tidas como talismã na cultura oriental são adornadas com formas fálicas e fendas.

Todo esse material riquíssimo em erótica e pornografia pertence ao artista plástico Felipe Yung, mais conhecido como Flip. A exposição sem pudores, chamada “Hentai”, ocupou um pequeno espaço do MuBE - Museu  Brasileiro da Escultura - em São Paulo, de fevereiro a março de 2012. No dia da inaurguração, mais de 700 pessoas passaram pelo local. O músico Marcelo D2, amigo pessoal de Felipe, é um dos primeiros a defender a arte do rapaz. “Flip é, literalmente, foda”, escreve o cantor no texto que abre o evento. Em muitos quadros, é preciso um esforço visual para identificar o sexo propriamente dito. Flip fez faculdade de artes plásticas, mas desenvolveu seu traço na rua, com a pedagogia do grafite. A estética oriental é uma referência casual, de gosto. “É um estilo que me interessa e fui atrás de saber mais, conhecer e reproduzir.”

Tipo exportação

Algumas das obras exibidas na exposição paulistana passaram por uma galeria underground em Londres, onde Renata Junqueira, do MuBE, teve acesso aos trabalhos de Flip. “Ela viu algumas coisas em Londres e propôs trazer isso para o Brasil. Para homenagear o lugar, eu criei as esculturas dos talismãs japoneses e ampliei o projeto.”

Embora seu trabalho ainda não tenha adentrado os lares brasileiros, expor o material em um museu paulista é um grande avanço. “Temos um público enrustido desse tipo de arte. Muitos valorizam,  mas não encomendam algo para colocar na sala de estar. De qualquer forma, é um trabalho que dá projeção. As pessoas gostam do traço e querem comprar um quadro seu, não necessariamente com pênis e vaginas. ”Não necessariamente, mas também é uma possibilidade. Na cozinha da casa do artista, um enorme quadro de uma vagina adornada com confeitos açucarados decora o espaço. Na residência de seus pais também não há pudores.“Tive uma educação livre, sem tabus. Minha família pira, adora os trabalhos. É muita hipocrisia dançar na boquinha da garrafa, mas fazer cara feia para um quadro que mostre um pênis ou o ato sexual. Genitália todo mundo tem, de sexo todo mundo gosta. Por que isso não pode ser matéria-prima da arte?”

Os artistas identificam a caretice universal como um dos entraves para a paulatina apropriação da pornografia e do erótico como um movimento artístico. Janara Lopes, fundadora do “Ideia Fixa”, site de referências visuais que garimpa conteúdos nas áreas de publicidade, design e comunicação, diz que uma das sessões de maior audiência da página é o AI-Sim, batizado em referência ao AI-5. Todos os posts que recebem o título têm um aviso de que o conteúdo será pornográfico e erótico. O espaço virtual valoriza desde o escatológico até o mais sutil, com fotos e pequenos textos explicando do que se trata. Há espaço para novos talentos ou exibição virtual de obras antigas que abordem tal temática. “É uma das sessões mais vistas, porém, menos compartilhada nas redes sociais. As pessoas se interessam, mas não têm colhão para expor o apreço.” Por conta desses e de outros conteúdos adultos, o site é proibido na maioria das faculdades design do país. “É ridículo isso. Oferecemos conteúdo, referência a essa galera que está se formando, mas dentro do ambiente escolar eles não podem nos acessar.”

Mulheres curvilíneas, sem roupa, donas de bundas volumosas e seios fartos, além de terem enormes tatuagens e serem boas de brigas, são os personagens das ilustrações de Pedro Henrique Ferreira, conhecido como Lambuja. Seus desenhos já estamparam páginas de revistas masculinas e reportagens de jornais. Quando não é possível usar fotos para ilustrar determinados conteúdos, a arte erótica de Lambuja é requisitada e remunerada. É no mercado publicitário e editorial que suas fêmeas agressivas fazem sucesso.“ Fora disso, o consumo é feito por quem conhece, entende esse tipo de tema. A minha vontade é expor os meus desenhos em galerias, vendê-los como quadros. Entrar nas residências com pornografia e erotismo. É um tipo de arte que eu gosto, valorizo. Não me especializei nisso, comecei a fazer por interesse pessoal mesmo.”

Carimbo

Para Shiko, conhecido como Derby Blue, ilustrador de João Pessoa que hoje mora na Itália, a estética erótica ainda carrega um verniz de subcultura. “É vista como algo menor. Na minha visão, a pornografia pode ser arte de bom gosto. Demorei pra entender que o que eu fazia era erótico. Eu simplesmente não fazia distinção, era só um desenho bonito e legal.” As referências, aliás, são ilimitadas. Ele revela que se abastece do cinema e da literatura antes de criar. “Um livro do Jorge Amado ou um filme do Fellini têm sempre alguma informação erótica, sexual.” Assim como Ferreira, Shiko é figurinha bem grata nas redações brasileiras e agências de propaganda. Seu traço já foi usado para ilustrar reportagens sobre prostituição e campanhas de cerveja, entre outros.

Pão e circo

Massificar conteúdos que deixam os mais pudicos corados também é o interesse da cartunista Cynthia B. Depois de passar cinco anos na faculdade para conseguir o diploma de médica, ela abandonou o título de doutora e assumiu o lápis como ferramenta de trabalho. No esquema colaborativo, lançou, em novembro de 2010, a revista “Golden shower”, que usa sexo e pornografia para fazer piada. A premissa, acima de tudo, é o humor. O tema e o talento da menina renderam a participação de Laerte e Adão na segunda edição, em novembro de 2011.“É um assunto que me interessa, todo mundo gosta de falar. Nem imaginei que teria repercussão, mas achei que eu me divertiria fazendo.”

Além da ajuda de cartunistas graúdos, ela recebe semanalmente conteúdos de desenhistas interessados em divulgar o trabalho. Carioca, a ideia nasceu em um tarde com amigos sentada na pedra do Arpoador, no Rio de Janeiro, quando um amigo fez xixi no mar e virou motivo de piada. "A brincadeira começou ali e resolvi dar esse título para a revista.”

As publicações são anuais, e Cynthia também faz a curadoria. O material é lançado em papel couché e é enviado pelo correio aos interessados. Cada revista custa R$27 e ela já vendeu, juntando as duas edições, quase dois mil exemplares. “O que me encanta é a honestidade de falar sobre sexo abertamente. Romper com rótulos sem medo de julgamentos. Muitos dos quadrinhos são autobiográficos. Sinto que o mercado está mais receptivo agora.”

Fonte: G1

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segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando a leitura se torna um problema


Rubem Alves

Nos tempos em que eu era professor da UNICAMP fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento. Dizer “esse entra”, “esse não entra” é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como, em vinte minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra.

Os candidatos amontoavam-se no corredor  recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante.

Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!” Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamos por aquilo que ele pensava.

Poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!  Mas a reação dos candidatos não foi a esperada. Foi o oposto. Pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos – ah! isso não lhes tinha sido ensinado.

Na verdade nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes. Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer.

Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria  ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo e confundir o candidato. Por vias das dúvidas ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que ela havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “ Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…” Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.

Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é uma consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura. O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem que se leia “Grande Sertão – Veredas” em pouco mais de três horas.

Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “ É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante.” Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental.”

Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o diz inteiro … perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria… Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo…”

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. “Se não estão virando as páginas de um livro eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo, – o pensamento que leram… Na verdade eles não pensam; eles reagem. (…) Vi isso com meus próprios olhos: pessoas bem dotadas que, aos trinta anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…”

E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: o prazer de ler!

Fonte: Blog do Jetro

sexta-feira, 9 de março de 2012

Quando éramos modernos: anúncios de livros em 1944


Josélia Aguiar

Instantâneos da vida literária no país há sete décadas: Para o leitor moderno, Dickens condensado. Os russos estavam em alta naqueles dias pois lutavam contra o nazismo. Biografias iam muito bem –além dessa vida exuberante de Olavo Bilac, abaixo, encontrei mais de uma dezena. Romances atravessam má fase, mas alguns autores da geração de 30, como Jorge Amado, principalmente, ainda vendiam bastante. Nelson Rodrigues aparece como ele mesmo e como Suzana Flagg!

Vi estes anúncios em edições de 1944 da “Diretrizes”, revista de esquerda fundada por Samuel Wainer feita e lida por intelectuais e artistas de variados matizes.  Naquele ano parou de circular, depois de publicar uma reportagem que desagradou Getúlio. Mas aí a história só estava começando.






Fonte: Livros Etc

quinta-feira, 8 de março de 2012

"Os cães de Santiago" - um memorial diário de reflexões sobre literatura, cinema e afins



Sidnei Moura, editor do "Texto & Contexto"

Impelida pelo prazer em escrever desde a tenra idade, ela tornou-se desde muito cedo "escrava das letras". Ainda não satisfeita, decidiu que sua vida seria totalmente dedicada a sua "senhora": buscou formação bem fundamentada na universidade e passo a passo foi alcançando maturidade chegando ao seu sonhado doutoramento. Tornou-se professora nos níveis fundamental, médio e superior e nos dias de hoje colabora na formação de diversos alunos, inspirando outros amantes das Letras a aprofundarem=se ainda mais nas mais profundas águas do conhecimento literário e linguístico. 

No entanto seu encanto com as Letras não pararam por aí - como ela mesma afirma, em algum "canto" dentro de sí apesar dos muitos desencantos que normalmente perpassam a vida dos que decidem dedicar-se a um propósito específico, o impulso inicial que a levou a beber abundantemente destas águas ainda respira e clama por um amadurecimento maior e por uma atitude de contribuição àqueles que, mesmo a espreita, aguardam por uma abordagem direta de quem a tempos sente a necessidade de verbalizar seus pensamentos sobre os mais variados temas passando pela literatura, pelos textos de análise psicanalíticas, filmes e tudo que trate da questão da desumanidade dos humanos ou humanidade dos não-humanos, inclusive quando tais protagonistas sejam verdadeiramente humanos. Ela começou escrevendo nas redes sociais, tem propósitos relacionados a um futuro pós-doutoramento na área e após uma viagem ao Chile repleta de reflexões sobre a vida chegou a conclusão de que o título "Os cães de Santiago" daria um belo título - fosse para o que fosse, inclusive para um romance ainda não escrito.

Assim nasceu o blog "Os cães de Santiago" - um blog que tem por propósito (como a própria editora define) refletir sobre suas "leituras matinais, o flanar pelas informações culturais, os pitacos no comportamento alheio, as dicas de filmes, os poemas preferidos, as canções e imagens que tocam, enfim, tudo o que vinha circulando nos últimos três anos no perfil do Facebook" da editora, a Profª Drº Sheila Pelegri de Sá. Trata-se de um compêndio de "Efemérides para o comum dos dias", Mas não se iluda com a descrição - trata-se de um compêndio muito além de um mero memorial diário. Basta ler e tirar suas próprias conclusões.



Conheça o blog "Os cães de Santiago"


segunda-feira, 5 de março de 2012

Tereza Cristina: uma vilã de desenho animado

Tony Goes

Tereza Cristina e Crô
Gilberto Braga é meu autor de novela favorito. Hoje em dia ele escreve em parceria com Ricardo Linhares e mais um monte de colaboradores, mas a força de sua grife é enorme: basta seu nome estar na equipe para que uma novela se torne "de Gilberto Braga".Mesmo assim, demorei a me interessar por "Insensato Coração" (Globo). Achei os primeiros capítulos confusos e com um excesso de tramas paralelas.

Só fui me interessar para valer lá pela metade, quando Norma (Glória Pires) saiu da prisão e começou a executar sua vingança. No final, desmarcava compromissos só para ficar em casa e não perder um único capítulo.Gostei tanto que, quando "Insensato" finalmente acabou, foi com a maior das más vontades que comecei a ver "Fina Estampa". Achei frouxa a trama de Aguinaldo Silva, com personagens desinteressantes e ausência de grandes conflitos.

Mas o público não concordou comigo. "Fina Estampa" logo se firmou como o maior sucesso do horário nos últimos anos. O povão se identificou com o embate entre a pobre-porém-honesta e a pérfida grã-fina, um dos clichês mais clássicos do folhetim.

Agora "Fina Estampa" entra em sua reta final, e preciso confessar que minha antipatia diminuiu. Tudo por causa da Tereza Cristina: uma antagonista totalmente sem motivação para cometer maldades, que se mete em trapalhadas mas nunca perde a pose. Uma vilã de desenho animado, como bem alertou o autor.

Os golpes planejados pela perua interpretada por Christiane Torloni são dignos do coiote que perseguia o Bip-Bip: elaboradíssimos, com enormes chances de dar errado --e muitas vezes dão. Só faltam vir em caixas estampadas com a marca "Acme".Além do mais, a relação com o mordomo Crô (Marcelo Serrado) evoluiu para diálogos que lembram as melhores "sitcoms" americanas.

Nesse ponto, o contraste com "Insensato Coração" é total. Lá havia um núcleo dramático barra-pesada, centrado em Norma e Leo (Gabriel Braga Nunes), cercado por leves historinhas de amor. Em "Fina Estampa" acontece o contrário: a malvada também fornece alívio cômico, deixando os temas mais pesados (doença terminal, luta pela guarda de um bebê) para os personagens secundários.

Aguinaldo Silva já emitiu sinais de que Tereza Cristina não morrerá no final --ao contrário de sua antepassada direta, a Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) de "Senhora do Destino". Tomara: eu não ficaria triste se, terminada "Fina Estampa", a "rainha do Nilo" e seu fiel escudeiro Crô ganhassem um programa próprio.

Fonte: F5

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Traços de crise enriquecem a arte" - Especialistas realizam debate sobre literatura e crise


Literatura e crise em debate no Instituto Cervantes

Realizou-se no dia 28 de Fevereiro, no Instituto Cervantes, em Lisboa, a oitava mesa-redonda do festival Correntes D’Escrita. Neste encontro, moderado por Helena Vasconcelos, participaram Manuel Moya, Afonso Cruz, Ana Paula Tavares, Valéria Luiselli e Care Santos.

A conversa teve como ponto de partida o tópico "Traços de crise enriquecem a arte", lançando-se numa sucessão de olhares – sempre distintos - inteligentes e criativos, transmitidos de forma poética, da realidade.

As primeiras palavras da mesa, da responsabilidade da moderadora, abriram as hostilidades num tom muito crítico: “a cultura será sempre o último reduto civilizacional, apesar de alguns preferirem vê-la como um luxo”.

Os restantes seguiram a deixa.

O português Afonso Cruz apontou baterias à passividade dos portugueses, defendendo que estes se deveriam queixar mais. 
Lembrou que Job (personagem bíblica) também “nunca se queixou” e que até “duplicou a sua fortuna” mas os filhos que “lhe foram tirados não voltaram a ser devolvidos, mas antes trocados, e isso não é exactamente a mesma coisa”. Recusou ainda a ideia de que a crise tenha algum lado positivo, como o improviso, lamentando que nestas situações as coisas muitas vezes “sejam mal feitas”.

Angolana, a escritora Ana Paula Tavares aproveitou a ocasião para comparar a crise “constante” do seu país com aquela que se vive actualmente na Europa. A autora lembrou os anos em que a ex-colónia se viu a braços com a ocupação sul-africana, que aterrorizou a população; os anos de guerra civil e as gritantes disparidades sociais. Avaliando o papel da literatura do país, afirmou que todas estas crises “não geraram melhores escritores”.

Numa declaração, pautada pela ironia, de impaciência em relação ao “discurso da crise” que enche as televisões, a espanhola Care Santos disse que não consegue ligar o aparelho: “prefiro ficar na ignorância, limito-me a ler livros, sou mais feliz assim”. Defendeu que a palavra crise é “mais uma daquelas palavras vazias de conteúdo que servem para se justificar tudo”.

Há muito tempo ligado à literatura portuguesa, Manuel Moya lançou recentemente o livro Cinzas de Abril e talvez por isso apelou a “um novo 25 de Abril, onde as pessoas possam abrir as persianas e ver algo de diferente”. Destacou a “responsabilidade” dos escritores de “pensarem de forma diferente” para que, pelo menos, tentem trabalhar por “um mundo melhor”.

Vinda da Cidade do México, a ensaísta Valéria Luiselli alertou para os preconceitos existentes no mercado editorial, dando o exemplo do constante apelo das editoras para que os autores deste país adoptem uma perspectiva “narco-realista” do mesmo.

Todavia, este não foi o único evento deste encontro do festival. Em jeito de introdução à mesa-redonda, Luís Sepúlveda e Daniel Mordzinski apresentaram formalmente o seu livro "Últimas Notícias do Sul". 
Nascido de um desejo dos dois “irmãos” de fazerem uma reportagem sobre a Patagónia, livres da “tirania editorial”, o livro faz um relato das pessoas e dos locais de uma das zonas do mundo com as condições climatéricas mais adversas, que tornam a vida das pessoas, nas palavras do escritor chileno, “muito dura, sem lugar para preocupações com nacionalismos”. O mesmo disse que este é um livro que “desmistifica a rivalidade criada por alguns políticos entre argentinos e chilenos”.

Fonte: Hardmusica - Portugal

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"Os fantásticos livros voadores" é disponibilizado na integra na internet


O site Galleycat pôs no ar a versão integral (cerca de 15 minutos) do curta de animação que ganhou o Oscar ontem à noite, The fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore, nome próprio que contém um trocadilho intraduzível, algo como “Maisé Menosmais”).

Essa declaração de amor ao livro de papel começa com um furacão que arranca todas as casas de seus alicerces e todas as palavras das páginas impressas, metáfora óbvia da onda digital. Mudo, o filmete é escrito e codirigido pelo ex-animador da Pixar William Joyce e mistura técnicas (stop-motion, animação computadorizada e desenho) para produzir uma bonita homenagem aos livros físicos.

Embora ameace derrapar aqui e ali (personagens em preto e branco ganham cor ao ter contato com livros, por exemplo), o curta consegue no fim das contas driblar a maior parte dos lugares-comuns associados ao tema. Destaque para o momento em que, na mesa de operação, o velho tomo carcomido em francês tem uma parada cardíaca e só ressuscita quando o Sr. Lessmore começa a… lê-lo!

Um tom profundamente nostálgico perpassa o filme, da música à direção de arte, e é condizente com uma cerimônia do Oscar em que o grande premiado foi “O artista”, mas tem algo de enganador. Além de render um curta de animação, a história de The fantastic flying books… foi lançada ano passado como um livro digital interativo para iPad que chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos na loja da Apple.

Fonte: Toda prosa - Veja Online

Assista o curta:

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Oscar, nostalgia e crise de identidade


Luiz Zanin

A invenção de Hugo Cabret
Quem ganha o Oscar? O filme francês que homenageia o cinema americano ou o filme americano que homenageia o cinema francês? Claro, sempre pode haver zebra. Mas o mais provável é que um dos dois, ou O Artista (dez indicações) ou A Invenção de Hugo Cabret (11 indicações) leve o Oscar principal na noite de hoje.

Se isso acontecer mesmo, tudo seguirá um script coerente, mas que indica, talvez, a existência de algo mais profundo sob a banalidade da superfície. Qual seria esse ponto comum? Os dois filmes falam, por caminhos e estilos diversos, da mesma coisa. Celebram o cinema, ou pelo menos, um tipo de cinema. E o fato de serem os grandes finalistas talvez aponte para uma crise de identidade nessa arte já mais que centenária. A Academia de Hollywood, uma espécie de termômetro ou inconsciente coletivo do cinema, em sua vertente dominante, pode ter intuído o que esses filmes têm de comum, e os levado até o fim da disputa como os favoritos por representarem suas próprias inquietações enquanto categoria. De comemoração superficial da indústria cinematográfica, o Oscar 2012 arrisca-se a ser, involuntariamente, reflexão sobre a sua arte.

Como se sabe, O Artista se situa no momento preciso da crise aberta pela chegada do cinema falado, entre o final dos anos 1920 e o começo dos anos 1930. Invenção que abre muitas portas e fechou outras. A partir de O Cantor de Jazz (1928), o público acostuma-se com o cinema falado e relega o cinema mudo à obsolescência. Astros, estrelas, diretores, técnicos e produtores são obrigados a se reciclar. É uma revolução. Alguns conseguem fazer a travessia, outros ficam pelo caminho. Um gênio como Charlie Chaplin hesita e posterga, o quanto pode, a entrada no falado. Ao fazê-lo, como num rito de sacrifício, vê-se obrigado a matar sua persona mais famosa e seu alter ego mais querido, Carlitos. É desse tempo em convulsão que fala O Artista, de Michel Hazanavicius.

Não é a primeira vez que o cinema aborda esse período crucial e cruel de sua história. Dois filmes já o fizeram, com brilho: Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, e Cantando na Chuva (1952), da dupla Stanley Donen-Gene Kelly.

Ambos são filmes da crise, porém expressos em tonalidades diferentes. Em seu furioso preto e branco, Wilder aposta na chave mais soturna; em suas cores profusas, música e dança, o de Gene Kelly é luz total. O musical de quem não suporta musicais. Por tudo isso, por certo, fez mais sucesso de público que seu concorrente em preto e branco. Mas, em linguagens opostas, ambos significaram a mesma meditação sobre o cinema em determinado momento.

Ambos, é verdade, se referem à transição do cinema mudo para o falado, mas foram feitos em outro momento crucial, quando a televisão se firmava como a grande geradora moderna de entretenimento e ameaçava, de novo, o cinema. A TV era a promessa de uma tela em cada casa, para cada família, para cada indivíduo. Adeus ao rito coletivo das grandes e luxuosas salas de cinema. Pelo menos era o que se pensava na época.

Se o futuro não foi tão sombrio, é verdade também que o espetáculo cinematográfico nunca foi o mesmo. Progressivamente foi se alterando para se realizar não apenas na sua destinação primeira e “natural”, a grande sala, mas também nas “pequenas salas” individuais, nos lares e, hoje, nas telas dos laptops, dos tablets, dos celulares, dos smartphones. Víamos os grandes astros e estrelas na dimensão de gigantes assustadores e sedutores, tais como aquela deusa vivida por Anita Ekberg que sai do painel de anúncio de leite para tentar o falso puritano em As Tentações do Doutor Antônio, de Federico Fellini. Hoje, podemos vê-los na dimensão de formigas. E conviver com eles no trem, no metrô, no avião, num momento de tédio na sala de espera do dentista. Haverá aura que resista a tanta banalidade e a tanta familiaridade?

Outros cineastas também o fizeram, em épocas mais recentes, a meditação sobre sua arte.  Em seu grande momento de crise pessoal, Fellini transforma a inibição em sua maior obra-prima, Oito e Meio (1963), ao fazer do seu alterego Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) o cineasta que não consegue terminar seu projeto e nem dá conta de arrumar sua vida – a não ser projetando a ambos no mundo da fantasia. É o mais belo filme sobre o impasse jamais feito e uma homenagem crítica ao cinema como este nunca recebeu.
Em sua chave mais discreta, François Truffaut faz o seu Oito e Meio em A Noite Americana (1973), fazendo ele próprio o papel do diretor que enfrenta todas as dificuldades, inclusive o estrelismo da atriz principal (Jacqueline Bisset), que ameaça parar a produção ao se envolver com o partner, Jean-Pierre Léaud, alter ego de Truffaut nos seus filmes mais importantes, a partir de Os Incompreendidos (1959), seu longa-metragem de estreia.

Claro, nos dois projetos, havia o desejo manifesto de exorcismo de inibições pessoais e também a vontade de homenagem ao métier que haviam abraçado. Mas também assinalava outra dimensão. Saídos os dois de duas utopias autorais, Fellini do neorrealismo, Truffaut da nouvelle vague, viam-se obrigados a negociar seus desejos e estilos com a figura do produtor, que transforma os sonhos pessoais do artista na realidade econômica da arte. Ambos provaram que essa negociação era possível (pelo menos naquele tempo), embora dolorida e cheia de contradições. Convém não esquecer que um gênio como Fellini terminou tendo dificuldades para viabilizar suas produções. Alguns dos seus projetos não foram feitos, um pecado que a Itália deverá purgar até o fim dos tempos.

O cinema é a última das artes a representar-se a si mesmo. Outra, mais antigas, já o fizeram, e em obras célebres. Na peça dentro da peça, Hamlet faz o rei perceber que sabe tudo sobre o assassinato do pai. O teatro dentro do teatro revela. Ao glosar os romances de cavalaria e, em especial, ao se parodiar, o Quixote inaugura a literatura moderna como referência de si mesma. Ao colocar-se no centro do seu quadro Las Meninas, Diego Velázquez indica uma era em que o artista seria mais central que o soberano.  Inicia, em especial, a era da representação, segundo análise de Michel Foucault em seu As Palavras e as Coisas. A era moderna, na qual não se indicam as coisas em si, mas através daquilo que as representam. A era do espelho. Em O Jogo da Amarelinha, Cortázar faz a literatura, autoconsciente, voltar-se contra si mesma no ato de produzir o novo. Como o escorpião, que, para se suicidar, pica a si mesmo, conforme diz na epígrafe.

De certa forma, o cinema, a última das artes, como todas as outras, reencontra-se e repensa seu caminho quando encena a si próprio nas telas. É como se fosse um momento de tomada de consciência, de pausa para respiração no ritmo industrial que o caracteriza e o deforma.

Filho da técnica, o cinema encontrou na indústria seu veículo natural. Mas encontrou também a sua negação potencial como arte. Nascido como entretenimento de feira de variedades, foi renegado pelos próprios pais, os Lumière, que o classificaram como “invenção sem futuro”. Foi preciso um visionário, um ilusionista de profissão, George Méliès, para enxergar no cinema um meio ficcional virtualmente ilimitado, porque capaz de captar o movimento – isto é, o tempo.

E nesse ponto voltamos à Invenção de Hugo Cabret, que aparece como consequência lógica de toda a trajetória de Martin Scorsese. Esse erudito sem par do cinema contemporâneo, conhecedor de sua história e de seus meandros, homem que, da mesma maneira que Truffaut, considerou-se salvo pelo cinema quando talvez pudesse ter se tornado marginal por seu meio social na infância, retorna ao primeiro inventor dessa grande arte. Trata a precariedade engenhosa dos primeiros filmes de Méliès com os requintes tecnológicos de que agora dispõe. Como se quisesse, neste belo e singelo filme, juntar as duas pontas da história do cinema e dizer que, sim, apesar dos pesares, ele tem salvação. Desde que não renegue suas origens.

Talvez não seja mesmo por acaso que os dois maiores concorrentes ao Oscar comentem e celebrem o cinema dos primórdios. Como se fossem tentativas de recuperar alguma coisa desse sopro inicial, do frescor de uma arte que, apesar de tantos progressos técnicos, como o digital e o 3D, dá mostras de cansaço inequívoco quando visto em seu conjunto. Nesse retorno às fontes, há provavelmente um desejo de recuperar energia. Quando o cinema se vê a si mesmo, é sinal de crise. E também de vontade de renascer.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Meia-Noite em París "é tudo o que desejávamos e muito mais"


Woody Allen, Olwen Wilson e  Marion Cottilard

Diogo de Jesus Moreira Cysne

Dos muitos adjetivos usados para descrever Woody Allen – neurótico, engraçado, pessimista, fatalista – um dos que mais se encaixam em sua carreira não poderia ser outro: prolífico. Com uns sabe-lá-deus quantos filmes no currículo, que cresce a uma taxa de um ou dois filmes por ano, Woody Allen é um diretor que, sozinho, foi responsável por mais filmes do que muitos estúdios. É claro que um ritmo de produção tão frenético foi acompanhado de uma inevitável irregularidade na qualidade de suas produções. Se, por um lado, temos obras-primas poderosas como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e pequenas jóias como “Match Point”, temos também produções muito frustrantes como “Scoop” e “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. De qualquer forma, nos últimos anos, o público sentia certa falta da genialidade rebelde e pulsante que tornou o diretor uma estrela global nos anos 70. Uma ótima notícia a todos: “Meia-Noite em Paris” é tudo que desejávamos e muito mais. Talvez uma de suas obras mais poderosas, singelas e tocantes. Brilhantemente escrito e dirigido, repleto de um humor doce e de uma tenra inocência, este filme marca mais um dos pontos mais altos na carreira de seu famigerado cineasta.

Difícil não se encantar com a obra logo de início, quando nos são apresentadas várias cenas de Paris ao decorrer do dia, ao som de uma canção tipicamente francesa. O público é lentamente transportado para o clima da cidade mais charmosa do mundo e é conectado às idéias de Gil Pender (Owen Wilson), um bem-sucedido mas profissionalmente frustrado roteirista de Hollywood, cujo maior sonho é abandonar a superficialidade de sua vida e mergulhar no mundo bucólico, romântico e inspirado de Paris. Em noivado com Inez, representada pela estonteante Rachel McAdams, Gil vê todas as suas aspirações serem tragadas pela objetividade e materialismo da noiva. Buscando um refúgio em longas caminhadas noturnas pela Cidade das Luzes, Gil descobre que, toda meia-noite, Paris volta ao passado e ele pode viver a época que mais sonhava em conhecer na cidade: a década de 20.

Essa premissa genial do roteiro é típica da mente rebelde e faceira de Woody Allen. Mas todo o resto é igualmente poderoso e criativo, e Allen explora seus personagens de modo a render situações ao mesmo tempo hilárias e tocantes. Tudo – e aqui eu sou bem literal – funciona magnificamente neste roteiro inspiradíssimo. O retrato da vida de Gil com sua noiva e a família dela é cômico e angustiante: sentimos pena de um homem tão honestamente delicado e idealista se envolvendo com um pessoal tão, na melhor das descrições, supérfluo. O círculo de amigos de Inez é outra jóia do humor, com o pedante sabe-tudo Paul gerando constantes risadas da platéia devido à sua personalidade absurdamente afetada (pseudo-intelectual, como diria um aborrecido Gil).

Mas não tem jeito: a riqueza-mor do roteiro e de seus personagens jaz na Paris à meia-noite, quando o protagonista é levado ao passado e vivencia aventuras inesquecíveis ao lado de seus ídolos artistas: Scott Fitzgerald, T. S. Eliot, Salvador Dáli (cuja obsessão por rinocerontes foi motivo de profundas gargalhadas da platéia), Pablo Picasso e tantos outros. O encontro de Pender com seus ídolos, bem como o seu mais do que natural estarrecimento, é impagável! Woody Allen, um artista sincero, despeja referências infindáveis ao “ressuscitar” os grandes mestres da pintura, literatura e cinema da década de 20. Não se preocupe: dificilmente haverá alguém que entenda todas elas – ou mesmo que reconheça todos os artistas – mas a graça de toda a história é o suficiente para despertar no público a certeza de que o filme que está assistindo é uma experiência verdadeiramente enriquecedora.

Allen aproveita seu tino humorístico também para cutucar muitas das imbecilidades típicas da sociedade norte-americana (que é incorporada, aliás, em Inez e companhia). Críticas ao partido republicano, ao recente frenesi direitista vivido pela política do país, ao consumismo e à guerra do Iraque acrescentam uma bem-vinda acidez em um roteiro quase todo doce e suave. Isso mesmo: a história desenvolvida em “Meia-Noite em Paris” é de uma inocência que eu julgava perdida no cinema contemporâneo! Allen, diferente dos pessimismos que vez por outra afloram em suas obras, faz uma apologia à simplicidade da vida e usa Paris como uma metáfora dessa simplicidade. Aliás, os franceses devem estar com uma dívida eterna com o diretor, que fez um dos mais belos retratos de Paris no cinema em décadas. A genialidade da história é tamanha que até mesmo a “volta ao passado” usada no filme, e que parece um aspecto positivo durante boa parte da obra, se transforma em uma crítica à insatisfação das pessoas com suas próprias gerações. Minha única ressalva quanto a isso é que Allen usa uma mensagem de moral meio óbvia no final, o que era desnecessário e maculou, mesmo que minimamente, a perfeição do roteiro.

Que dizer, então, da maravilhosa performance que o elenco mostrou no filme? Até mesmo Owen Wilson, um ator tipicamente meia-boca, eleva-se á grandeza com as situações brilhantes e os diálogos engenhosos do filme! Ele interpreta Gil Pender com absoluto domínio e convencimento, encarnando a personalidade inocente, meio-abobalhada, mas encantadora, de seu personagem. Marion Cotillard, de longe uma das melhores atrizes em atividade “presenteadas” ao mundo pelo continente europeu, vive aqui o seu papel mais apaixonante, sensual e arrasador de sua carreira: Adriana, a amante de Picasso e colírio-dos-olhos de Pender. Que dizer então de Inez e seus parentes e amigos, que vivem em um mundo afetado pela superficialidade? McAdams incorpora uma Inez absolutamente sexy, mas ainda assim tão irritante!

Os aspectos técnicos são um delírio! Paris nunca esteve tão bela, graças à fotografia magistral! As cenas iniciais da cidade já são uma amostra do nirvana visual que Darius Khondji, o diretor de fotografia, compôs para sua obra! Os figurinos e a ambientação da Paris nos anos 20 são convincentes, embora eu não tenha sentido a mesma perfeição que a da fotografia. A trilha sonora, valendo-se de valsas francesas soberbas, não é menos do que encantadora: um destaque ao uso de clássicos de Cole Porter, um dos figurões a aparecerem no filme.

Estou perplexo que um filme hoje em dia possa resgatar os valores mais nobres e singelos do ser humano, encarnando-os em uma viagem paradisíaca pela cidade mais romântica do planeta. “Meia-Noite em Paris” não é somente mais um ponto alto na carreira de Woody Allen; é um dos melhores filmes de sua carreira (e olhe o padrão é um dos mais altos possíveis). Uma dica valiosa: é um filme perfeito, com todo o seu romantismo transbordante, é perfeito para levar a namorada! Garantia de uma sessão inesquecível!

Fonte: Cineplayers


Ficha:
Midnight in Paris (Meia-Noite em París)
Diretor:  Woody Allen
¶ Quatro indicações ao Oscar 2012: Melhor filme  diretor, roteiro  original e direção de arte, .

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Agamenon e o carnaval carioca na Sapucaí


Agamenon Mendes Pedreira

Para comemorar os quase 1 milhão de espectadores do meu filme “As Aventuras de Agamenon, o Repórter” que, aliás, ainda está em cartaz em muitos cinemas no Brasil, resolvi curtir o Carnaval no Rio de Janeiro em 2012. No Carnaval, aqui em casa, nós seguimos a Lei de Muricy (Ramalho): cada um trata de si. Eu vou pra Marquês de Sapecaí e a Isaura, a minha patroa, uma mulher recatada de família, vai fazer um retiro de fundo espiritual com um pessoal que ela conheceu num clube de swing. 

No Sambódromo, obra genial arquitetossauro Oscar Niemeyer (que, dizem no Tweeter, está pegando a Dona Canô ), acontece todos os anos o Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, um evento mitológico que atrai várias celebridades famosas do mundo inteiro. Esse ano dizem que quem vem é a cantora Rihanna. Quem também vinha era a Whitney Houston mas ela preferiu sair no chão . E hoje à noite, é claro, estarei marcando presença no animado Camarote da Brahma onde pretendo bater algumas carteiras das celebridades VIP (Very Impotent People), tomar umas Devassas e comer umas Antárticas. 

O Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial é um dos mais espetaculares eventos culturais brasileiros produzido pela estética desvairada homoerótica dos carnavalescos esquisitões, pela comunidade marginal do samba e financiada pela ilegalidade bicheiro-contraventista carioca. O resultado desse sincretismo eroto-religioso-carnavalesco é uma apopôteose do samba de raiz e outros termos antropológicos de duplo sentido. 
Mas antes de encarar a boca livre do Camarote Número Um, vou sair em vários blocos de rua e fazer xixi na rua emporcalhando vários pontos turísticos da Cidade. Como um cachorro folião, estarei urinando e demarcando o meu território nos tradicionais blocos Cacique Mijamos, no Mijão do Bola Preta ,na Banda de Xixipanema, no Uremia é Quase Amor, no Sujaço do Cristo e, como agora eu também sou da turma do cinema, no bloco Me Urina que Eu Sou Cineasta. 

Este ano, como a idade já está pesando, só vou sair em 8 escolas. Atendendo ao convite do genial carnavalesco Paulo Barros, sairei como destaque na Unidos da Tijuca totalmente nu, com o corpo pintado de dourado em cima de um carro alegórico usando apenas um tapa sexo de 3 metros e meio, confeccionado especialmente para a minha pessoa. “Devido de quê” a minha avantajada fantasia, a Escola aproveitou para colocar no meu tapa sexo vários anúncios e apoios culturais: Viagra, Cialis, Levitra, Catuaba do Norte, Amendoins Agtal e, na ponta, um anúncio do Iogurte Danone. 

Infelizmente, o carnaval não é só alegria. O STF proibiu os Blocos de Sujos e decretou que agora só pode Bloco Ficha Limpa. Por causa dessa decisão arbitrária dos magistrados togados, muitos políticos amigos meus, coitados, não vão poder mais botar seus blocos na rua e a grana na Suíça. É por isso que eu me lembro com saudade das falcatruas de outrora, das jogadas de rua, do entrudo com 20 % de comissão e dos pagodes da Tia Negociata... Essa inocência dos carnavais do passado não volta mais. Só eu e Sérgio Cabral (pai) é que sabemos: o carnaval hoje em dia é uma festa comercial. Antigamente no Carnaval, as bundas saíam de graça, mas agora... só com patrocínio!

Obs.: Para reprimir o turismo sexual, o Ministério da Pesca resolveu recolher as piranhas que infestam o carnaval carioca. 

Agamenon Mendes Pedreira é arritmista da escola Terceira Idade Independente de Padre Miguel.

Publicado como "Bunda, suor e cerveja"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"No Irã nunca haverá paz" - Livro sobre a revolução no pais dos aiatolás escrito em 1981 é publicado no Brasil


Marcos Guterman

O Irã dos aiatolás é um país em estado permanente de vingança. Essa visão, que explica as tensões geradas pela teocracia iraniana em relação ao Ocidente, surge em “O Xá dos Xás”, livro de 1981 do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski que está sendo lançado agora no Brasil.

Morto em 2007, Kapuscinski é um autor controverso. Ele testemunhou 27 revoluções – a última delas no Irã, em 1979, quando o xá Reza Pahlevi foi derrubado por democratas e religiosos islâmicos – e descreveu boa parte desses movimentos misturando literatura e jornalismo. Vários detalhes que ele incluiu em suas narrativas carregam erros factuais ou mesmo invenção pura. Nada disso, porém, tira a força de sua obra – pelo contrário: pode-se dizer que o criativo Kapuscinski valoriza o espírito das revoluções, o que o jornalismo, sozinho, talvez não seja capaz de fazer. Para ele, os “fatos” eram meros acessórios de uma história muito maior.

No caso de “O Xá dos Xás”, essa história tem como elemento central a elaboração da resposta iraniana ao imperialismo ocidental, traduzido pela figura de Pahlevi. A Revolução Islâmica, ápice dessa reação, isolou deliberadamente o Irã, e Kapuscinski vê nisso uma qualidade. A leitura que Kapuscinski faz desse desdobramento beira o simplismo ideológico – não nos esqueçamos de que ele trabalhou durante muito tempo para a agência de notícias do Partido Comunista da Polônia. “No mundo superlotado e impositivo de hoje, a única forma de o mais fraco se defender, de conseguir manter-se à tona, é separar-se dos demais, colocar-se à margem”, escreve Kapuscinski, a propósito da intenção do Irã sob o regime do aiatolá Ruhollah Khomeini de não permitir a influência ocidental.

O jornalista diz que “as pessoas têm medo de ser engolidas, desnudadas, de passar por um processo de uniformização” do pensamento. Kapuscinski, porém, é omisso quanto à uniformização do pensamento empreendida pelo regime teocrático em nome da “pureza cultural”, que só existe no discurso de tiranos travestidos de guardiães de tradições ancestrais.

Mas Kapuscinski atribui ao xiismo o papel de elemento definidor do Irã, como se o xá fosse uma aberração e não tivesse sido ele mesmo produto das contradições do país. Segundo seu raciocínio, o Irã que o Ocidente conhece não é senão o dos “petroburgueses”, classe social de parasitas criada pelo xá no boom do petróleo na primeira metade dos anos 70, que se pendura na rede de favores e de corrupção em torno do monarca e se isola em vilas sofisticadas em Teerã e na Europa. “Como é distante dessas vilas o Irã real, que, em breve, levantará a voz e surpreenderá o mundo!”, escreve Kapuscinski. “A nova classe social faz uma demonstração da dolce vita iraniana sem limites em sua perversão de costume, ganância e cinismo.” O juízo de valor retroativo, baseado na leitura de que um estado “ideal” foi contaminado pela “perversão” estrangeira, cria a problemática sensação de que os iranianos não foram, eles também, responsáveis pelo regime tirânico que por tanto tempo os governou.

Por outro lado, e é nisso que reside a força da narrativa de Kapuscinski, fica claro que o xá foi longe demais. No livro, compreende-se o tamanho da hostilidade do iraniano comum em relação ao Ocidente, encarnado na figura do monarca e de seus patrocinadores americanos e britânicos, algo fartamente explorado pelos aiatolás. Compreende-se também que as eventuais sanções impostas ao Irã são vistas como interferência externa e que, na história iraniana, não é exatamente um problema viver sob esse bloqueio.

Como mostra Kapuscinski, o Irã xiita se enxerga como “asilo e refúgio” para aqueles que contestam os poderosos: “Um xiita é, antes de tudo, um oposicionista”. A ostentação das monarquias muçulmanas sunitas é um incômodo grave para os xiitas, minoritários no mundo islâmico e que se veem como um povo orgulhosamente marcado para sofrer. O xá desafiou esse estado de espírito quando o petróleo revirou o Irã do avesso, criando “a ilusão de uma vida totalmente transformada, de uma vida sem esforço, de uma vida gratuita”, escreve Kapuscinski. “O petróleo é uma matéria-prima que envenena a mente, embaça a visão, desmoraliza.” O xá prometeu transformar o Irã em potência, momento em que, para o autor, o país mergulhou na luxúria e na insensatez.

O contraste do inseguro e depravado xá com o vigoroso e asceta Khomeini não poderia ser maior. O velho aiatolá, que nunca foi retratado quando jovem, “jamais saiu de Qom”, sua cidade natal, núcleo de imenso fervor religioso. Era, nas palavras de Kapuscinski, um “homem obstinado e dono de uma firme e inexorável força de vontade”.

Já a fragilidade do xá se traduz, conforme Kapuscinski, na violência absurda de sua polícia política, a Savak, que podia sequestrar qualquer pessoa, torturá-la muito além do limite da sanidade e só então perguntar-lhe o nome e o endereço. O resultado disso foi o terror permanente. Desse modo, mostra o autor, o regime do xá deixou aos iranianos a escolha entre a Savak e os mulás. “O povo, claro, escolheu os mulás.” O Irã então erigiu um regime quase tão opressor quanto o do xá, em nome da independência em relação ao Ocidente. Mas, como diz Kapuscinski, os iranianos escolheram os mulás em 1979 não porque são fanáticos, mas porque são esclarecidos. Por essa razão, o movimento reformista do Irã contra os exageros da teocracia, traduzido na recente “revolução verde”, pode ser o primeiro sintoma de que a roda da história no país não parou de girar. Como diz um entrevistado a Kapuscinski, “no Irã nunca haverá paz”.

Publicado com título "A resposta iraniana ao poder ocidental"


sábado, 18 de fevereiro de 2012

"A Separação" é um filme que "conta uma história próxima das histórias da gente"


Cena de "A Separação"
Contardo Calligaris

Nas últimas semanas, perdi a conta dos leitores que me encorajaram a comentar "A Separação", de Asghar Farhadi. Para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, só algumas anotações.


1) Em Teerã, num tribunal, um homem e uma mulher discutem, cada um tentando ganhar a guarda da filha. Eles tinham o sonho comum de ir embora do país (oferecendo à menina, como se diz, um futuro melhor) e já estavam com visto e autorização para viajar, mas eis que o marido desistiu do projeto porque ele deve se ocupar do velho pai, doente e demente. Adiar a viagem é impossível: a autorização que eles conseguiram logo vencerá. A mulher quer se separar do marido, para viajar e levar a filha para o exterior, como planejado. O marido se opõe.

Provavelmente, no lugar do juiz, eu apoiaria o dever para com o velho genitor contra o sonho (quem sabe, frívolo) de um futuro diferente. Esta mulher quer o quê? Enfiar o sogro num asilo só para respirar o ar de Paris ou Nova York? Agora, se, em vez de juiz, eu fosse terapeuta do casal, talvez não me deixasse enternecer pela "nobre" decisão do marido. Afinal, qual melhor desculpa do que um pai doente para justificar nossas desistências? É frequente: a gente "se sacrifica" em nome de obrigações sagradas e tradicionais, e, de fato, esses compromissos nos servem para renegar nossos desejos.

Você também conheceu uma tia que nunca se casou porque "teve que" criar o sobrinho cuja mãe morreu cedo? Ótimo, sobretudo para o sobrinho; mas há uma chance de que esse nobre sacrifício tenha sido o jeito que a tia encontrou para fugir de uma vida amorosa e sexual que ela desejava, mas que ela também sobretudo temia.

2) Aparentemente, é a mulher que, insensível à devoção filial do marido, pede a separação. Alguém poderia suspeitar, aliás, que ela esteja apenas se aproveitando da ocasião para decretar o fim de uma relação que talvez já tenha acabado há tempos. Mas é possível que o verdadeiro responsável pela separação seja o marido: será que a opção de cuidar do velho pai não é o jeito que ele encontrou para forçar a mulher a querer se separar dele? Eu não fiz nada, só "tenho que" honrar meu pai, é você que não me aguenta e é você que quer se separar. É o estilo passivo-agressivo: a iniciativa sempre parece ser do outro.

3) Mesmo se eu não professasse nenhuma ideia oposta às do regime, mesmo se meu desejo sexual fosse integralmente permitido pela polícia dos costumes, eu fugiria de Teerã -apenas por saber que há direções nas quais meus sonhos seriam punidos, caso se aventurassem por lá. Também fugiria de qualquer Irã ou Cuba do mundo porque não tolero ficar num lugar de onde é difícil, se não proibido, sair.

4) O marido não é um santo, mas parece fazer uma escolha generosa: renuncia ao projeto de emigrar por fidelidade ao pai. Mas nunca é fácil saber no que consiste a verdadeira fidelidade. No caso, ela consiste em cuidar do pai demente ou em correr atrás do que ele talvez quisesse para nós? Ou seja, imaginemos que (banalmente) meu pai sonhasse com a minha liberdade: será que eu lhe seria mesmo fiel no dia em que, para assisti-lo, eu renunciasse a meu próprio desejo?

5) O diretor do Ministério da Cultura do Irã declarou à Folha que "A Separação" é "contrário ao sistema político iraniano", o que, segundo ele, seria demonstrado pelo sucesso do filme no Ocidente. Bizarro, entre outras coisas, porque o filme contém uma defesa do islã popular como grande e necessária garantia moral. Seja como for, as ditas plateias ocidentais talvez estejam um pouco cansadas de assistir a visões caricaturais de mundos exóticos, nos quais, graças a alguma tradição, sempre se sabe qual é a coisa certa.

Talvez nós, plateias ocidentais, notoriamente narcisistas, estejamos mais interessadas no cotidiano de nossa própria experiência, ou seja, no conflito nunca resolvido entre as dívidas com nosso passado e as dívidas com nosso futuro. A dívida com o passado pode ser exigente e incômoda (como ocupar-se de um pai demente), mas ela é, por assim dizer, pacífica: estabelecida e tranquila. Enquanto a dívida com o futuro é sempre inquietante, sem resposta: qual será a viagem que devo a mim mesmo?

Caro diretor do Ministério da Cultura do Irã, não gostamos de "A Separação" porque seria anti-iraniano (que não é), mas porque conta uma história próxima das histórias da gente.

Fonte: Folha

Ficha:
The Separation (A Separação)
Diretor:  Asghar Farhadi
¶ Duas indicações ao Oscar 2012: Melhor filme estrangeiro e roteiro original.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O desafio e esperanças de editoras de livros frente às novas tecnologias


Julie Bosman

A Barnes & Noble, gigante que ajudou a tirar do mercado tantas livrarias independentes, trava agora a luta da sua vida. E seu Nook, concebido em segredo numa antiga padaria, é a grande esperança eletrônica da rede e, na verdade, de muita gente do setor editorial.O Nook – e por extensão a própria B&N – parece ser a única coisa que separa as editoras tradicionais da irrelevância.

Dentro das grandes editoras – nomes como Macmillan, Penguin e Random House- há inquietação com o futuro da B&N, que é a última grande rede de livrarias. Primeiro, as megalojas expulsaram as pequenas, depois as redes foram engolidas pela migração dos consumidores para a internet.

Ninguém acha que a B&N irá sumir da noite para o dia. A preocupação é que ela míngue lentamente, conforme mais leitores adotem os e-books. E se a B&N virar pouco mais do que um café com um ponto de conexão digital? Tais temores vieram à tona no começo de janeiro, quando a empresa previu que sofrerá neste ano um prejuízo ainda maior do que Wall Street esperava. Suas ações caíram 17% naquele dia.

Bom faturamento

À espreita por trás disso tudo está a Amazon, força dominante no comércio eletrônico de livros. Muitos profissionais do ramo editorial enxergam a Amazon como um inimigo que, se não for controlado, poderá ameaçar toda a indústria e o ganha-pão dessas pessoas.

As editoras estão cortando custos e demitindo funcionários. Os livros eletrônicos estão bombando, mas não são muitos os editores que desejam que eles substituam os livros impressos. Já o presidente da Amazon, Jeff Bezos, quer eliminar os intermediários -ou seja, os editores tradicionais- ao lançar e-books por conta própria.Por isso, a B&N agora parece tão crucial para o futuro do setor. Em muitas localidades, suas lojas são as únicas com uma ampla seleção de títulos. Se algo acontecer com a B&N, a Amazon pode se tornar ainda mais poderosa.

“Seria como A Estrada”, disse um executivo de editora, referindo-se, meio de brincadeira, ao romance de Cormac McCarthy. “O mundo editorial pós-apocalíptico, com editores empurrando carrinhos de compras pela Broadway.”

Mas William Lynch, presidente da B&N, se diz preparado para a batalha. Com apenas três anos de experiência como livreiro, ele precisa encontrar um equilíbrio: preparar um futuro digital para a rede, mas sem abrir mão do seu passado com livros físicos – e tudo isso em meio às pressões sobre o valor das ações da empresa, com os clientes fugindo para a internet e com a Amazon rondando.

Lynch, que foi criado no Texas e tem a intensidade nervosa de um executivo de tecnologia, considera disparatada a ideia de que equipamentos como o Nook, o Kindle ou o iPad levarão as livrarias à obsolescência.

“Nossas lojas não vão para lugar nenhum”, disse Lynch. Ele citou um faturamento surpreendentemente robusto no fim do ano passado. E, no segundo semestre de 2011, a B&N capturou uma grande fatia do negócio deixada por um concorrente quebrado, a rede Borders.

Mas, em 5 de janeiro, a B&N anunciou que deve ter um prejuízo de até US$ 1,40 por ação no ano fiscal de 2012. E Lynch disse que os acionistas parecem estar subestimando tanto o potencial do Nook que talvez a empresa estivesse melhor se abandonasse o negócio digital.

“Efeito folheada”

Wall Street chiou e as ações da B&N ainda não se recuperaram totalmente. Uma pequena boa notícia para a empresa é que ela agora detém cerca de 27% do mercado do livro eletrônico, segundo Lynch. A Amazon tem pelo menos 60%.

Em 20 de janeiro, a Amazon divulgou um comunicado dizendo que “as vendas unitárias do Kindle, tanto do Kindle Fire quanto de leitores de e-book, aumentaram 177% sobre o mesmo período do ano passado”.

A B&N não tem exatamente o mesmo charme (nem o dinheiro) de um Google ou um Facebook. “Não vemos todas aquelas ações, o sushi bar gratuito e todo o resto que você encontra no Google, mas existe muita responsabilidade”, disse Bill Saperstein, 62, vice-presidente de engenharia de equipamentos digitais da Barnes & Noble. “Era algo em que eu acreditava fortemente, que é a leitura.”

No mês passado, engenheiros nos laboratórios da empresa no Vale do Silício faziam os últimos acertos no quinto leitor de e-books da empresa. Paralelamente, Lynch trabalha para reformular as lojas B&N. No ano passado, a empresa ampliou as seções de jogos e de brinquedos, e criou novas vitrines para promover o Nook. O executivo espera eliminar dentro de dois anos as seções dedicadas a CDs e a DVDs. E também pretende testar formato de lojas ligeiramente menores.

Alguns analistas se perguntam se Lynch não teve os olhos maiores do que a boca. No entanto, a B&N talvez tenha de se adaptar às novas realidades, ou morrer tentando.

“Acho que eles percebem que não podem continuar no ritmo que estão indo”, disse o consultor editorial Jack Perry. “Eles precisam de mais dinheiro para investir, para poder brigar.”

Desde 2002, os EUA perderam cerca de 500 livrarias independentes. Umas 650 sumiram quando a Borders deixou de funcionar no ano passado.

Alguns editores de Nova York já tentaram imaginar o setor sem a B&N, e a ideia não é nada boa: haveria menos lugares onde vender livros. Os independentes respondem por menos de 10% e os grandes magazines têm seções de livros menores do que as livrarias tradicionais.

Sem a B&N, a proposta de marketing das editoras desmorona. A ideia de que as editoras são capazes de identificar, moldar e publicar novos talentos e, então, levar as pessoas a comprar livros a preços que façam sentido economicamente, de repente, parece forçada. Divulgar livros pelo Twitter, ou depender de críticas, propaganda e talvez uma aparição na TV não parece ser um plano vencedor.

O que as editoras esperam da livraria é o “efeito folheada”. As pesquisas indicam que, das pessoas que entram em uma livraria e saem com um livro, apenas um terço já chegou com o desejo específico de comprar algo.

“O espaço de exposição que eles têm na loja é realmente um dos lugares mais valiosos que existem neste país para comunicar ao consumidor que um livro é um grande negócio”, disse Madeline McIntosh, presidente de vendas da Random House.

Amplo interesse

A venda de livros mais antigos, que tradicionalmente responde por algo entre 30% a 50% da receita das grandes editoras, sofreria terrivelmente.“Para todas as editoras, é importante que o varejo físico sobreviva”, disse David Shanks, presidente do Grupo Penguin nos EUA. “Quanto mais visibilidade um livro tem, mais inclinado o leitor fica [a comprá-lo].”

Carolyn Reidy, presidente da Simon & Schuster, diz que o maior desafio é, em primeiro lugar, dar às pessoas uma razão para entrar nas lojas B&N. “Eles descobriram como usar a loja para vender e-books”, disse ela. “Agora, tomara que a gente descubra como fazer com que esse ciclo se complete, e ver como os e-books podem vender os livros impressos.” Bezos, por exemplo, não está esperando. A Amazon já criou sua própria editora. E a cada dia as Bolsas dão um soturno aviso de que Bezos tem os bolsos mais fornidos que Lynch.

John Sargent, presidente da Macmillan, disse que a questão não interessa apenas às editoras. “Qualquer um que seja um autor, um editor ou que ganhe a vida distribuindo propriedade intelectual em forma de livro fica seriamente prejudicado se a B&N não prosperar.”


domingo, 12 de fevereiro de 2012

"A humanidade dos zumbis está na essência da série", diz criador de "The Walking Dead"


Mariane Morisawa

Cena do webisode da série "The Walking Dead"
Um dos criadores da série de graphic novels em que se baseia "The Walking Dead", Robert Kirkman também é produtor do seriado da AMC, que é exibido no Brasil pela Fox e retoma a segunda temporada a partir da próxima semana. Na entrevista a seguir, Kirkman fala ao UOL sobre as diferenças entre os quadrinhos e a série e sobre a essência da história.

A primeira parte da segunda temporada de "The Walking Dead" terminou num pico dramático que deixou os fãs na ponta da cadeira. Finalmente, chegou a hora de saber o que vai acontecer com o grupo, com os seis episódios que encerram o segundo ano da série, a partir do dia 14, às 22h, na Fox – apenas dois dias após a estreia nos EUA.

UOL - O seriado se afastou dos quadrinhos?
Robert Kirkman - Não acho que os quadrinhos são perfeitos, seria uma visão muito estreita. A televisão é uma mídia colaborativa. Estar numa sala de roteiristas com vários escritores colaborando é muito excitante para mim. É muito legal ver as mudanças. Eu apoio todas as mudanças que estão acontecendo.

UOL - Vamos saber quem é o pai da criança?
Kirkman - Bem, tentando deixar a história tão realista quanto possível, teste de paternidade não é algo que vai estar na floresta, certo? É interessante para mim explorar que há certas coisas que nunca descobriremos, que esses personagens não vão saber, como a origem dos zumbis.

UOL - Gosta de ver os zumbis que criou tornarem-se reais?
Kirkman - Não, não gosto. Vou ser honesto: quando estou no set, não aguento os zumbis porque eles são aterrorizantes! Eu sou molenga! Muita gente acha que, porque fiz esses quadrinhos e trabalho na série, vou adorar os zumbis. Quando eles estão no papel, posso lidar com eles. No set, é horrível.

UOL - A questão da humanidade dos zumbis, se eles devem ou não ser mortos, vai continuar sendo importante?
Kirkman - É a essência do que é o seriado. Eles não são apenas os monstros que querem te comer, são seus amigos e seus vizinhos, e há uma tremenda tragédia nisso. Acho que o sucesso tem a ver com esse fator: uma coisa é você sentir medo de um monstro, outra é sentir pena dele. Nos momentos em que você sente simpatia por aquele que está atacando os personagens, é quando realmente sinto que acertamos.

Fonte: UOL

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Cinquentenário da morte de Cândido Portinari é marcado por exposições de "Guerra e Paz"



Museu de Brodowski expõe réplicas de "Guerra e Paz". Escola de Ribeirão exibe biografia do pintor.

Guerra e paz - Portinari
Há mais de 50 anos um pintor desobedecia as recomendações médicas para realizar aquela que considerou a sua obra-prima. Mesmo sabendo que morreria por intoxicação, Cândido Portinari pegou a paleta de tintas proibidas e pintou dois painéis com 14 metros de altura como se fossem quadros de cavalete. Portinari faleceu em 06 de fevereiro de 1962, entregando à Organização das Nações Unidas (ONU) o seu maior legado de amor à arte: as obras "Guerra e Paz".

No cinqüentenário de morte do artista, o Museu Casa de Portinari promove uma série de atividades paralelas à primeira exposição dos painéis “Guerra e Paz” restaurados, que ocorre no Memorial da América Latina em São Paulo.

Na casa onde o pintor morou durante a infância, em Brodowski, serão exibidas reportagens sobre a restauração das obras. Os visitantes também poderão conferir os estudos feitos por Portinari antes da produção de “Guerra e Paz” e ver de perto réplicas dos murais.

A gerente do Museu Casa de Portinari, Cristiane Maria Patrici, acredita que as atividades aproximam o público do artista, principalmente pelo caráter didático-educativo. “A programação tem como objetivo valorizar o público do interior, que fica à margem dos principais circuitos de exposições de arte”, afirma.

Museu Casa de Portinari
Já em Ribeirão Preto, acontece até o dia 24 de fevereiro na Escola do Amanhã a exposição "Portinari: vida e obra". Os 25 painéis expostos apresentam imagens das principais obras do pintor e dados biográficos sobre Portinari, que também foi poeta.

Fonte: EPTV

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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Diretor de "O Artista" fala sobre produção e sucesso de seu longa mudo e preto e branco

Jean Dujardin e Bérénice Bejo em cena de "O Artista"
Fernanda Ezabella

A limusine para na frente do casal, na porta do hotel cinco estrelas, em Los Angeles. "Só podem ser estrelas de cinema", diz, tentando adivinhar, um hóspede.

Talvez se não falasse tão alto e não estivesse tão colorida num vestido azul brilhante, seria mais fácil reconhecer Bérénice Bejo, atriz do filme mais improvável e comentado da temporada, mudo e preto e branco.

Ela está ao lado de Michel Hazanavicius, seu marido, que escreveu e dirigiu "O Artista". No longa, o astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin) se nega a entrar para os filmes falados, na Hollywood dos anos 20. O ator conta com a ajuda da dançarina Peppy Miller, interpretada por Bejo.

"Fizemos apesar de tudo, apesar do senso comum. Há algo de tocante nisso", diz Hazanavicius, no bar do mesmo hotel, algumas semanas depois. Aos 44, ele é diretor de duas sátiras de espionagem protagonizadas por Dujardin, uma delas rodada no Rio. Leia a entrevista:


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Folha - Quantas vezes você teve que ouvir que era louco?
Michel Hazanavicius - Muitas vezes, muitas. Quando eu falava sobre o filme, não me levavam a sério, apenas sorriam, mas não aquele sorriso legal, sabe? Quando comecei a trabalhar com Thomas [Langman, produtor], as coisas ficaram mais simples, virou um filme de verdade. Antes era mais fantasia. Acho que nem eu estava totalmente convencido.

Por que escolher, hoje, fazer um filme mudo hoje?
É um formato é incrível, um jeito muito diferente de contar uma história. Não sou especialista, mas amo filmos mudos. Os bons, claro, porque os ruins são realmente chatos, não dá para ver. É uma nova experiência para a plateia de hoje, funciona com outra parte do cérebro. Você preenche a falta de som com sua própria imaginação, faz o filme ficar muito mais próximo do público, que é envolvido no processo de contar história. As pessoas acham que filmes mudos são filmes velhos porque foram feitos nos anos 20. Minha ideia era fazer um filme mudo hoje, mas sem ser velho, mesmo sendo de época, com o benefício de 80 anos de sofisticação de narrativa. Os atores têm uma atuação moderna, com os códigos de hoje e não dos anos 20. O uso da música é moderno, e não apenas um piano simples. Achei que tinha um filme que ninguém tinha feito antes.

O que deu mais trabalho?
O desafio técnico real foi o roteiro. Eu não tinha as mesmas ferramentas. Queria contar uma boa história, com boas sequências e bons personagens. Algo que não entediasse o público, este era o ponto. Mas você não tem as mesmas ferramentas, não lida com diálogos, com palavras, mas apenas imagens para contar a história. É uma grande diferença.

E o que muda para os atores?
Há 68 atores no filme e nenhum deles atuou mudo, de forma silenciosa. Era tudo muito natural. Quando as pessoas pensam em filmes mudos, pensam logo em atuações exageradas. Mas não é verdade. Alguns atores atuavam de forma natural nos anos 20. E aqui pedi para eles agirem de forma bem natural também. A grande diferença é a forma como você escreve a história e como você faz para as pessoas entenderem sem palavras. O público percebe a performance de forma totalmente diferente. Quando não se tem palavras nem diálogos, você presta muito mais atenção nas imagens. Olha para os atores e foca em cada detalhe, em cada expressão. Por exemplo, quando Steven Spielberg faz um filme, você entende tudo com seus olhos, é um diretor muito visual. Tenho certeza de que se tirar o som de seu filme, você vai entender tudo.

Foi mais difícil achar locações dos anos 60 no Rio, quando você filmou "Agente 117 - Rio Não Responde Mais" (2009), ou agora em Los Angeles, quando veio em busca de cenários dos anos 20?
No Rio, dá para encontrar belas arquiteturas dos anos 60 em qualquer lugar. Há prédios muito interessantes no Brasil. E filmamos também em florestas, rios.

Tem uma cena dentro do Copacabana Palace?
Não, o hotel não era muito anos 60, tinha uma arquitetura meio neo grega. Era muito caro também. Filmamos em outro hotel em Copacabana, com uma pequena piscina, um lobby ótimo, o lugar era perfeito. Há também no Rio prédios dos anos 70 e até 80 que são tão estilísticos. E Brasília, claro, filmamos um dia, filmamos aquele prédio do Congresso.

E como foi em Los Angeles?
Aqui foi talvez mais difícil porque era anos 20. Há coisas que não dá para saber se é 1968 ou 1978, dá para aceitar certos prédios, ninguém vai saber. [A estética dos] anos 20 é mais exata e difícil de achar. Mas há muitos interiores e locações que estão em condições perfeitas, como restaurantes e teatros.

O formato diferente mudou seu jeito de filmar?
Normalmente, quando os diretores fazem um filme de época, eles recriam o que estão filmando, mas não recriam o jeito de filmar. O que eu fiz foi recriar o jeito de filmar. As luzes, os frames, o estilo de filmar, tentei respeitar tudo. Meu ponto é: se eu estou fazendo um filme que acontece nos anos 20, não vou usar uma "steadicam" [câmara acoplado ao corpo do operador] ou uma grande angular porque eu nunca vi pessoas nos anos 20 assim. Para mim, a câmera é o olho que você dá ao público. Seria muito estranho uma "steadicam" nos anos 20. Se você respeita o jeito de filmar, fica tudo muito mais preciso.

O que acha de Hollywood gastar tanto em novas tecnologias e um filme como o seu roubar a cena e os prêmios?
Não sei como explicar. Não é meu trabalho. Meu trabalho é fazer filmes e tento dar o meu melhor. Era um filme que queria fazer a qualquer custo, apesar de muita gente. Estou muito feliz com a resposta. Acho que Harvey Weinstein serve para isso, ele é um maestro para apresentar o filme. Há muitos trabalhos maravilhosos todos os anos, e a gente se sente muito sortudo de estar aqui. Ele pegou esse filme, achou que era lindo, cuidou do lançamento, apresentou para a imprensa, levou a festivais, tomou seu tempo. Formou as melhores condições possíveis para o público apreciar o trabalho. Talvez o filme relembre as pessoas porque elas gostam de cinema acima de tudo. Há algo meio infantil, você olha como se fosse pela primeira vez. É uma história "era uma vez", num filme bem estranho, em preto e branco, eles falam e você não ouve. É uma estranha representação da realidade. Não é nada realístico. É um show. Não sei, talvez as pessoas se sintam tocadas porque é um filme muito improvável, que vem de lugar nenhum.

Você se sente um peixe fora d'água nessas premiações?
Não, porque um peixe fora d'água morre [risos]. Me sinto como uma criança na Disneylândia. Olho para todos os lugares e vejo ícones. É realmente incrível. Dois dias atrás tive uma conversa com Meryl Streep e ela foi tão simpática. Ontem alguém me contou que Lauren Bacall viu o filme duas vezes na sequência e, no dia seguinte, viu pela terceira vez. Estas coisas são inacreditáveis.

Sente que está carregando a bandeira da França?
Oh, não, não. Eu realmente não ligo para isso. Não tenho vergonha de ser francês, mas também não tenho orgulho. Eu não tenho bandeiras. Sou diretor de cinema.

Apesar de ser um filme sobre o cinema mudo e falado, qual a mensagem da história para o público de hoje?
As pessoas ficam tocadas pelo formato, mas elas temem que seja apenas um artifício. E ficam felizes de que há uma história por trás. Tem a história de amor e todo mundo ama histórias de amor, mas não é esse o ponto. Há algo sobre como o mundo está girando cada vez mais e mais rápido. No século 19, por exemplo, você nascia num mundo e morria no mesmo, nada quase mudava. Hoje você nasce num mundo e vai morrer num outro muito mais diferente. O jeito de trabalhar, de ter família, o jeito de se comunicar, viajar, tudo está mudando. Isto significa que teremos que enfrentar estes períodos de transições e nos adaptar. Isto é um temor para muita gente. Quando eu era criança, pessoas passavam a vida toda trabalhando na mesma fábrica ou no mesmo escritório. As pessoas têm medo do futuro, das crises. Então talvez isto ressoe no filme. Outra coisa, e digo isto porque muita gente me falou: as pessoas se sentem tocadas pela forma como foi feito. É um filme muito improvável, ninguém acredita no filme. E acho que existe algo tocante nisto, fizemos apesar de tudo, apesar do senso comum.

Dá para comparar o personagem do filme, um ator do cinema mudo que se nega a fazer filmes falados, com atores de hoje hesitantes com processos tecnológicos, como o CGI [imagens geradas por computador através de uma performance real, como em "Avatar"]?
Não sei, acho que não. Sabe, se tivesse que votar para o Oscar, eu votaria em Andy Serkis. Eu amo "Planeta dos Macacos: A Origem". É maravilhoso, muito bem escrito, muito bem trabalhado. E a performance do personagem é inacreditável, faz com que as pessoas acreditem que um macaco possa falar. Mas você pode ter Andy Serkis e Jean Dujardin num filme bem tradicional. É a diversidade do cinema. Um dos dramas do passado é que a geração dos filmes falados nunca voltou para ver os filmes mudos. Então meu único medo é se todas as TVs virassem 3D e ninguém mais assistisse a 2D. Seria uma vergonha. Há tantos filmes maravilhosos. Mas não acho que o futuro irá matar o presente. Será uma continuação.
Os filmes favoritos de Michel Hazanavicius
(clique para ampliar)

Como você começou a ver filmes mudos?
Quando eu era criança, lembro que meu avô me levava com meu irmão para um cinema onde passavam apenas filmes mudos, Charles Chaplin, Buster Keaton e "O Gordo e O Magro". Mas eram mais esquetes de comédia, não filmes tradicionais. Esses eu conheci mais tarde na vida. E quando já era diretor, realmente virou uma fantasia fazer um filme mudo. E preciso dizer que não sou o único. Você não imagina quantos diretores já vieram me dizer que sonham em fazer. Alguns deles estão na corrida pelo Oscar. Mas não vou dizer nomes...

E como faz para encontrar esses filmes hoje em dia?
Esse é o grande benefício da internet, dá para achar de tudo. Na Amazon, por exemplo. Em Paris, temos a Cinemateca, que tem uma programação incrível.

É verdade que seu próximo filme será um remake de "The Search" (1948)?
Não será um remake total. O original se passa na Segunda Guerra Mundial, sobre uma mãe à procura do filho, que por sua vez cruza com um soldado do exército americano. O cenário é a Europa e a Alemanha do pós-guerra. Queremos fazer nos dias de hoje, com outros cenários.

Fonte: Folha Ilustrada


Ficha:
The Artist (O Artista)
Diretor: Michel Hazanavicius 
¶ Dez indicações ao Oscar 2012: Melhor filme, diretor, ator, atriz coadjuvante,  roteiro original, trilha sonora, direção de arte, fotografia, figurino e montagem



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