quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr Fernandes: "Poetas quando morrem são fertilizantes"






Poetas são Gente

Eu vivo pra poesia mas poetas não vivem pra mim. 
Espero que eles me alimentem como a um coelho faminto. Eles não sabem disso. 
É melhor mesmo que não percebam o quanto são necessários. 
De outro modo seríamos ultrapassados por eles e eles não saberiam quando parar. 
Um excesso de poetas não seria uma boa idéia pro nosso mundo. Nosso mundo necessita apenas de um certo número. Embora isso ainda não tenha sido atingido é importante que a poesia seja controlada.

Eu sei. Tenho observado poetas vagabundeando por aí, esperando o momento de atacar. É pior do que haker atacando. Uma visão horrível. A pessoa atacada correrá pela rua gritando. Pode até amaldiçoar o sistema, e fugir de casa levando sua filha com ele. 
Poemas têm um jeito de infeccionar os pobres idiotas que os escrevem. 
Poetas ficam em silêncio durante conversações, esperando uma brecha. 
Subitamente, sem aviso, um poeta falará uma sentença que acabou de pensar, e aqueles em volta gritarão como que atingidos por um curto-circuito.

Você gostaria que isso acontecesse freqüentemente? Levaria meses pra se voltar a qualquer aparência de normalidade. Isso pode ser uma boa de vez em quando, como mudança. Mas pára um momento e procura imaginar o pessoal do governo de Sua Majestade todos os dias fazer suas transmissões, como faz, mas cada uma ser um poderoso poeta. 
A confusão seria indescritível. A nação ia parar nos trilhos e colher flores pros vizinhos. Carros iriam se abalroar no tráfego pros motoristas saltarem e apertarem as mãos. Greves seriam desnecessárias pois ninguém trabalharia. A vida seria boa demais pra se perder. Cada dia seria vivido sem plano e cada momento saboreado como vinho novo. Cada pôr-do-sol seria uma revelação e uma promessa pra amanhã.

Todo mundo faria amor. Mesmo os doentes. 
Melhor seria os poetas não usarem palavras. Melhor que nascessem mudos. Melhor que cortasssem as línguas, se falassem. E melhor ainda, se pensassem, ficassem em silêncio. Deus nos proteja de suas invocações ferozes, pelo menos até termos tempo de praticar exercícios de poetas mortos, pra estarmos em forma a fim de tentar hoje outra vez. 
Poetas não percebem.
Enquanto vivem são eras daninhas. 
Quando morrem são fertilizantes.

1922 - 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Palavras travam luta pela sobrevivência, diz estudo


Alison Flood

As palavras competem diariamente numa luta quase darwiniana pela sobrevivência, revelou uma pesquisa nova em que cientistas analisaram mais de 10 milhões de palavras usadas nos últimos 200 anos.

Tirando material do enorme projeto do Google de digitalização de livros, a equipe internacional de acadêmicos rastreou o uso de todas as palavras registradas em inglês, espanhol e hebraico ao longo do período de 209 anos compreendido entre 1800 e 2008. Os cientistas --entre os quais estão Joel Tenenbaum, da Universidade de Boston, e Alexander Petersen, do Instituto Lucca de Estudos Avançados do MIT-- disseram que o estudo mostra que "as palavras são atores que competem em um sistema de recursos finitos".

Do mesmo modo como empresas financeiras disputam participação em um mercado, as palavras competem para ser usadas por oradores ou escritores e, com isso, capturar a atenção de leitores ou ouvintes.Os acadêmicos descobriram que houve "um aumento drástico no índice de morte de palavras" na era impressa moderna. Eles a atribuem ao uso crescente de corretores ortográficos automáticos e à adoção de procedimentos de edição mais rígidos, que eliminam erros de aplicação e ortográficos.

"A maioria das mudanças no vocabulário vistas nos últimos dez a 20 anos se deve à extinção de palavras incorretamente grafadas e de erros de impressão absurdos e, também, à queda no índice de surgimento de novas variantes incorretamente grafadas e de palavras genuinamente novas", escrevem os cientistas no estudo, que acaba de ser publicado. "As palavras que estão morrendo são as que têm uso relativo baixo. Confirmamos, por inspeção visual, que as listas de palavras moribundas são compostas principalmente por palavras incorretamente grafadas e palavras sem sentido."

Mas não são apenas palavras "defeituosas" que morrem: às vezes palavras são levadas à extinção por concorrentes agressivas. A palavra "Roentgenogram", por exemplo, derivada do descobridor do raio X, William Röntgen, foi fartamente empregada por várias décadas no século 20, mas, desafiada por "X-ray" (raio X) e "radiogram" (radiografia), acabou caindo em desuso total.

Até 1980, "X-ray" tinha derrotado a concorrência, especulam os acadêmicos, por ser mais curta e porque a língua inglesa geralmente é a usada em publicações científicas. "Cada uma das palavras compete pelo monopólio do nome", disse Tenenbaum à Sociedade Americana de Física. Enquanto isso, a frase "a grande guerra", usada durante certo período para descrever a Primeira Guerra Mundial, caiu em desuso por volta de 1939, quando o mundo foi abalado por outra guerra de proporções iguais.

Grandes acontecimentos

Os cientistas descobriram que a linguagem é "drasticamente" afetada pela ocorrência de grandes acontecimentos, como as guerras; o surgimento de novas palavras nas línguas inglesa, francesa, alemã e russa aumentou "significativamente" durante a Segunda Guerra Mundial. "Isso pode ser entendido como manifestação da unificação da consciência pública, que gera um campo fértil para o surgimento de novos tópicos e ideias", escrevem os acadêmicos. "Durante uma guerra, é mais provável que a atenção das pessoas se volte a questões globais."

O aumento não foi verificado no castelhano durante o mesmo período, eles constataram, fato que atribuíram aos papéis menores exercidos pela Espanha e América Latina na guerra. A língua hebraica, enquanto isso, viveu um boom pouco após a declaração Balfour, de 1917, fato que, concretamente, abriu caminho para a fundação do Estado de Israel.

Em 1920 o índice de nascimento de palavras hebraicas multiplicou-se por cinco, na medida em que um idioma até então usado principalmente em escritos religiosos se converteu em língua falada moderna.

"De modo análogo às recessões e às fases de boom na economia global, o mercado de palavras cresce se contrai segundo se desenrolam os fatos históricos", escrevem os autores do estudo."E, numa analogia aos regulamentos financeiros que têm por finalidade limitar os riscos e a hegemonia sobre o mercado, as tecnologias de padronização, como o dicionário e os corretores ortográficos, atuam como poderosos árbitros para determinar as propriedades características da evolução das palavras."



sábado, 24 de março de 2012

O não final de Fina Estampa: duas senhoras sem destino

Tony Goes

Janete Clair nunca teve dúvidas: entre uma cena realista e meia-boca ou uma impactante e inverossímil, ela sempre ficou com esta última. Ontem Aguinaldo Silva ligou no 220 os ensinamentos da maior autora brasileira de telenovelas, e jogou tudo numa banheira cheia de espuma.

O último capítulo de "Fina Estampa" não teve pé nem cabeça, e por isto mesmo foi divertidíssimo. Quer dizer, alguns personagens até que tiveram finais bastante razoáveis: Esther ganhou a guarda de sua filha, Wallace Mu sagrou-se campeão, Juan e Letícia se casaram, zzzzzz. Alguém aí se empolgou com qualquer uma dessas tramas? Onde "Fina Estampa" extrapolou foi no embate entre Griselda e Tereza Cristina, e é só por causa delas que será lembrada. Não houve exatamente suspense: só os espectadores com menos de cinco anos de idade devem ter achado que a "Pereirão" realmente corria risco de vida.

A expectativa era ver até onde a vilã seria capaz de chegar. Ou melhor: até onde vai a cara-de-pau do autor. Aguinaldo Silva rompeu todas as regras da lógica, e digo isto como um elogio.Onde já se viu a malvada acorrentar sua vítima, sair para uma rapidinha num motel e mais uma execução, e só então voltar para terminar o serviço? Onde já se viu alguém usar secador em cabelos perfeitamente secos? Onde já se viu alguém ser declarado legalmente morto depois de apenas seis dias desaparecido? Também foi inédita a quantidade de palavrões disparada durante o salvamento de Griselda. De fina a cena não teve nada. Aguinaldo parecia estar desafiando a censura informal que ainda vigora no país.

Além disso, recheou os últimos capítulos de auto-referências. Greenville, Giovanni Improtta, Nazaré Tedesco, todos foram citados, de maneira tão gratuita quanto a motivação da Rainha das Terras Férteis. Foi um dos muitos jeitos que o autor encontrou para se dar os parabéns pela novela de maior audiência dos últimos anos.

"FIna Estampa" poderia ter sido uma alegoria do maior fenômeno do Brasil de hoje, o crescimento e ascensão da classe C. Griselda, evidentemente, representaria essa enorme fatia da população, e Tereza Cristina a antiga classe A, que não quer perder seus privilégios. Mas qualquer pretensão sociológica foi sacrificada em nome do entretenimento. E quem sou eu para achar ruim? Deixa os intelectuais discutirem os destinos da nação. Novela é para dar risada, é para descontrair, é para ser absurda mesmo. Quanto mais, melhor.

No final, nem houve final. A madame ressurgiu gloriosa, sem um arranhão, para atazanar novamente a vida da "anta portuguesa". Não duvido que reapareçam numa próxima travessura de Aguinaldo Silva. Suas senhoras não têm destino: continuam vagando por aí, feito assombrações, entre Asa Branca e Tubiacanga.

Fonte: F5

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