quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Oscar 2013 já tem um vencedor: Michael Haneke



Filme "Amor" recebe cinco indicações, após dar ao diretor austríaco sua segunda Palma de Ouro em Cannes

O cineasta austríaco Michael Haneke
Rogério Simões

Muito já se fala sobre as 12 indicações ao Oscar obtidas por Lincoln, de Steven Spielberg. Todas esperadas. Se há alguma surpresa e motivo de celebração no anúncio feito pela Academia nesta quinta-feira, é o reconhecimento por Hollywood de um dos maiores diretores vivos. Menos de um ano depois de receber a Palma de Ouro em Cannes, o austríaco Michael Haneke levou seu mais recente filme, Amor, ao centro da disputa pelo Oscar. Amor, uma co-produção austríaca, alemã e francesa falada em francês, recebeu nada menos que cinco indicações, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Emmanuelle Riva). Haneke foi pessoalmente indicado aos prêmios de melhor diretor – que não conta com os antes favoritos Ben Affleck e Kathryn Bigelow – e de melhor roteiro original. Acima das expectativas, mas não da qualidade desse grande cineasta.

Michael Haneke é uma força que tomou de assalto o cinema mundial na virada do século. Aos 70 anos, ele é responsável por uma produção pequena para sua idade, mas extensa em riqueza e impacto. Nenhum de seus 11 filmes se encaixa em categorias tradicionais ou pode receber adjetivos previsíveis sem que tais descrições sejam questionadas – especialmente pelo próprio autor. Haneke já tratou das difíceis relações entre franceses e argelinos, da falta de sentido na vida de uma típica família de classe média-alta, da polêmica história alemã no início do século XX, de uma pianista sadomasoquista e do fim do mundo. Em comum, está o efeito perturbador de seus filmes. Difícil sair de uma obra de Haneke com as pernas firmes, o pensamento claro e o peito leve. O objetivo do austríaco é incomodar e transformar o espectador. Isso sem entregar respostas às naturais perguntas que nascem de suas tramas. Quem matou? Por quê? Qual a relação entre aqueles dois personagens? Haneke evita soluções fáceis. Quer que o público tire suas próprias conclusões, a partir de suas mentes em estado de ebulição, indignação e dúvidas. O cinema de Michael Haneke é como a vida: muito rico e emocionante, mas não é fácil.

Em Amor, o incômodo proposto por Haneke é universal. Ao tratar de forma dura e explícita as dificuldades do envelhecimento humano, Haneke propõe atingir o público a partir da perspectiva de sofrimento futuro – de um parente ou da própria pessoa. Extremas, as situações apresentadas por Haneke em seus filmes tocam o espectador por sugerir uma possibilidade de dor ou medo. A perversa automutilação da personagem de Isabelle Huppert, em A Professora de Piano (2001), a ausência de civilidade diante do apocalípse em O Tempo do Lobo (2003) e as humilhações exibidas em A Fita Branca (2009) nos assustam e intimidam. A tortura sádica, injustificável e sem sentido de Violência Gratuita (1997 e 2008) nos lembra da capacidade destruidora do ser humano e de como ela pode, facilmente, se aproximar de nós. A decisão de Haneke de refilmar Violência Gratuita nos Estados Unidos, 11 anos depois da sua produção original na Alemanha, causou repulsa em muitos que já haviam se sentido perturbados pela primeira versão. Levar a história ao público americano, em inglês, com Naomi Watts e Tim Roth nos papeis principais, foi uma forma de Haneke dizer a todos: o horror inexplicável pode estar mais próximo do que imaginamos. “Há tanto mal quanto bem em todos nós”, disse ele ao jornal The Guardian, em 2009.

Michael Haneke começou tarde no cinema. Depois de estudar filosofia e psicologia e trabalhar como diretor de programas de TV, lançou seu primeiro filme, O Sétimo Continente (1989), aos 47 anos. De lá para cá, já venceu a Palma de Ouro de Cannes duas vezes (com A Fita Branca e Amor) e colecionou inúmeros outros prêmios ao redor do planeta. A Fita Branca, também vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, só não levou o Oscar em 2010 porque encontrou pela frente o excepcional argentino O Segredo dos Seus Olhos. Agora o Oscar rende-se a Haneke e o coloca em seu devido lugar: no topo do cinema mundial. Esse gênio austríaco caminha para ser reconhecido como a maior força criativa do cinema no século XXI.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Duas poesias para embalar o ano novo

Delicie-se com duas poesias inspirativas da professora e poetisa Alice Lima .

Um feliz ano novo para você!


Casa de fazenda

Casa de fazenda,
Que contas tantas histórias,
De um passado tão distante,
Das lágrimas contidas, das amarguras
Das sinhazinhas,
Amores arranjados, dinheiro, ambição e solidão.
Casa de fazenda
Do aroma de café fresquinho
Dos tachos de doces borbulhantes,
servidos
As ceias do luar de outono
Onde mulheres solitárias se sentam a mesa
A esperar o seu dono.
Casa de fazenda,
Onde teus senhores se escondem,
Planejam, escrevem sem piedade, ideias torturantes
Atrás de uma escrivaninha.
Casa de fazenda,
Nos teus arredores, circundavam senzalas,
Cânticos, lágrimas, chibatadas, euforia,
Mas onde estava a alegria?
Casa de fazenda,
As tuas paredes contam tantas histórias,
que é impossível não ficar na memória.


O voo de um pássaro

Como um pássaro.
Lúgubre e reluzente,
Batendo asas na imensidão do céu azul
Tu voaste tão longe...
Tão longe de mim.
O nosso ninho por muito tempo permaneceu intacto,
Eu esperei, sonhei com teu regresso,
Mas não retornastes...
AH! Bem queria eu,
Que estivestes próximo,
Próximo de mim.
Poderíamos juntos novamente olhar para o céu,
Entrelaçar nossas mãos e apontar o dedo para contar as estrelas.
Aninhar-me no teu abraço,
Abraço amigo, paternal, amado...
Mas muitos pássaros voam sem direção
E não retornam ao seu ninho,
Nosso ninho de amor se desfez
Como pela última vez.
Sou um rouxinol, um pássaro cantante
Apaixonada e delirante.
E eu também estou a voar
Buscando um novo ninho encontrar.
Sou alimentada pelas migalhas,
As águas do orvalho eu mesma procuro sorver, aprendi a sobreviver
Voo recordando da tua decisão,
Não encontro resolução,
Mas busco uma direção e
Sei que em Deus está a solução.
Questiono...
Quem me separou de ti
Estou ainda a perguntar,
Não quero arguir...
Tento compreender
E vejo-me a surpreender
Me pego a pensar
E volto a questionar
Deus? Igreja? Família?
Raça? Religião?
Por mais que busco respostas, mais nítida e complexa se torna a resposta
Foi a tua opção, a tua vocação.
E mais dorido para mim em aceitar, fingir e poder repetir constantemente:
“Cumpres tua missão, meu amado irmão!”



sábado, 1 de dezembro de 2012

Zé Carioca, o papagaio brasileiro de Walt Disney, completa 70 anos


Você não lhe daria mais do que uns 25 anos. Ele é simpático, falante, caloroso e atento a rabos de saia. Já o chamaram até de ­ como se diz mesmo?- uma lenda viva. E, como toda lenda, sem idade. Mas, para quem é bom de aritmética, Zé Carioca, o irresistível papagaio brasileiro criado por Walt Disney, está fazendo 70 anos. Pelo menos na folhinha.

Sim, ele é da turma de 1942, que produziu também Caetano Veloso, Paul McCartney, Paulinho da Viola, Muhammad Ali, Calvin Klein, Clara Nunes, Nara Leão, Lou Reed, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Martin Scorsese, Tim Maia, o escritor Lobo Antunes e outros cuja vida e obra são de dar inveja. Para Zé Carioca, não será por falta de coadjuvantes ilustres que ele deixará de brilhar no ano de seu nascimento.

Livre, folgado e feliz, o setentão das histórias em quadrinhos nasceu no Rio, em 1942, e foi transferido para a Disney. Para os que nunca se aprofundaram em sua biografia, aí vão os dados básicos. Zé Carioca foi gerado em 1941, no Rio, num salão do Copacabana Palace temporariamente convertido em estúdio de desenho para Disney e seu pessoal, que colhiam dados para um filme que se passaria aqui e se chamaria "Alô, Amigos". Disney queria criar um personagem brasileiro para fazê-lo contracenar com seu já famoso pato Donald. E logo encontrou o que procurava: um papagaio.

Estava habituado à ideia arrogante e agressiva que alguns povos, entre os quais o dele, faziam de si mesmos, identificando-se com aves como águias, condores e falcões. Já o brasileiro, estranhamente, parecia sentir-se mais próximo do papagaio: duro, pobre, folgado, preguiçoso e desempregado -mas safo, quase safado, livre, feliz e capaz de aprender tudo rapidinho, inclusive a enrolar os gringos. As dezenas de piadas de papagaio que contaram a Walt no Copa convenceram-no de que o louro devia ser um herói nacional.

Com a contribuição (nunca creditada) de desenhistas brasileiros, como Luiz Sá e J. Carlos, as feições do sambista Herivelto Martins e o fraque, chapéu de palhinha, charuto, gravata-borboleta e guarda-chuva inspirados no Dr. Jacarandá, um folclórico personagem das ruas do Rio, Zé Carioca veio à luz um ano depois, no estúdio Disney, em Burbank, Califórnia. Americano no papel, mas de indiscutível DNA brasileiro - e carioca.

Tão carioca que seu gingado e gesticulação copiavam os do violonista José do Patrocínio de Oliveira, Zezinho, que trabalhava com Carmen Miranda nos EUA e era... paulista de Jundiaí. Zezinho até emprestou sua voz e seu sotaque a Zé Carioca "Alô, Amigos" (1942) e o fabuloso filme seguinte, "Você Já Foi à Bahia?" (1944), foram dublados. E assim, dessa simbiose, Zé Carioca nasceu universal, como talvez nem Walt tivesse sonhado para estrelar gibis, como logo aconteceu nos EUA e, depois, no Brasil, até hoje.

Universal e atemporal. Grandes personagens são assim.

Fonte: Folha
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