sábado, 19 de janeiro de 2013

Harold Bloom: "Não me defino como crítico literário, sou um professor de escola"


Harold Bloom

Lúcia Guimarães 

Os visitantes da casa na rua bucólica de New Haven, em Connecticut, recebem instruções precisas para não tocar a campainha. Devem abrir a porta destrancada e ir direto à segunda sala. Lá, o anfitrião vai começar por satisfazer a própria curiosidade sobre detalhes mundanos da vida da repórter.

Harold Bloom é caso único na história da crítica literária do último meio século. Um autor prolífico, erudito, popular, que seduz e enfurece. Aos 82 anos, maltratado por doenças que lhe restringem a mobilidade, seu vigor criativo é formidável. Não para de escrever, dar aulas, analisar a prosa e a poesia dos alunos e, apesar da dor na perna e da má circulação que o obriga a levantar da cadeira em intervalos curtos, demonstra um prazer evidente em conversar.

"Eu não me defino como crítico literário", diz Bloom, que nunca será acusado de modéstia. "Eu digo que sou um professor de escola" (ele dá aula na Yale University). A afirmação o leva a uma das muitas reminiscências que haveria de compartilhar naquela tarde, alternando nostalgia e alguma intriga, com ar maroto, sempre envolvendo alguém como "Philip" (Roth) e "Cormac" (McCarthy), citados assim, pelo primeiro nome, ou por apelidos, se é que restou à interlocutora alguma dúvida de que ele esteve no centro da história literária recente americana. "Havia um homem muito mau", diz, "chamado William Styron". Bloom recorda que estava jantando na casa do grande poeta Robert Penn Warren (para ele "Red", o apelido do escritor ruivo); todos "já tinham bebido um pouco demais" quando Bloom comentou com Warren - "com toda razão", deixa claro - que ele devia continuar escrevendo poesia, já que seus romances recentes não tinham a mesma qualidade. "A sua opinião não importa", cortou Styron, autor de A Escolha de Sofia e das memórias da depressão, Perto das Trevas. "Você é apenas um professor de escola." Bloom diz que o comentário foi o mais memorável que ouviu de um "mau escritor". "Como me acusar de ter a melhor e mais nobre profissão do mundo?" O professor conclui a anedota lembrando que Styron já faleceu e oferecendo "um aforismo bloomiano pelo qual quero ser lembrado: Se nós não falarmos mal dos mortos, quem vai falar?"

Fui bater à porta de Harold Bloom para conversar sobre A Anatomia da Influência - Literatura Como Um Modo de Vida, que sai no Brasil pela Objetiva, no segundo semestre (leia crítica abaixo). Ele considera o livro uma síntese de sua trajetória crítica. O título se refere à obra que talvez será considerada a mais inovadora de sua carreira, A Angústia da Influência - Uma Teoria da Poesia, lançada em 1973, marco da crítica literária, em que Bloom trata da luta do poeta para criar sob a influência de seus precursores.

Entre a angústia e a anatomia, Bloom diz que se tornou mais suave. Mesmo com mais de 50 edições em dezenas de línguas, o autor considera A Angústia da Influência terrivelmente difícil e não tem certeza se entende a obra. Mas há outras mudanças. Em A Anatomia da Influência, Bloom se diz inspirado pelo poeta francês Paul Valéry que escreveu "sobre a influência da mente sobre si mesma". Seu novo livro, ele diz, é sobre a influência do autor sobre si mesmo. A outra diferença: "Antes, eu defendia a literatura da contracultura. Agora a defendo da politização e da ruptura da tecnologia, que impôs" - e ele aponta para meu tablet - "a linguagem visual."

A suavidade adquirida ao longo do tempo se expressa no que Bloom manifesta ser o "amor literário", definido por ele como um estado de intensa ambivalência, "da culpa da herança, e da tristeza de ter chegado tarde demais".

A originalidade da obra do crítico não exclui a repetição e em Anatomia da Influência ele revisita seu elenco de suspeitos, especialmente William Shakespeare. Depois de lançar Shakespeare, A Invenção do Humano, um de seus maiores best-sellers, Bloom conta que se sentiu irritado por perguntas sobre a tal invenção. "É claro que não estava dizendo que foi como Thomas Edison inventando a lâmpada", diz. "O caráter sempre existiu, mas não sei se é o caso com a personalidade. Shakespeare é único porque ele mudou a maneira como nos vemos. Em Shakespeare, caráter é personalidade, é destino." E lembra outro episódio. Estava falando em público quando lhe perguntaram sobre alguma boa adaptação de Shakespeare para o cinema. Respondeu que o diretor que mais entendeu a obra do inglês foi o japonês Akira Kurosawa. "Ele não falava inglês, mas o poder de Shakespeare vai muito além do da linguagem." A invenção, ele observa, é a essência da poesia. "Sem a poesia, nada teria vindo a este mundo. Shakespeare nos mostrou o que estava à nossa volta e não conseguíamos enxergar."

Bloom não se ilude sobre o seu lugar na cultura contemporânea americana em que jovens, ele escreve, "despencam no precipício do oceano cinza da internet". Não há mais um Walt Whitman, o autor como consciência de um país, ele lamenta, porque não existe mais um público nacional. "Nosso maior romancista em atividade, Thomas Pynchon, é um autor difícil. Nosso maior poeta, meu amigo John Ashbery, é um poeta difícil. Nosso possível maior dramaturgo, Tony Kushner, chegou perto de falar a todo país, com Anjos na América, mas não escreveu nada com a mesma força, nos últimos 20 anos."

Harold Bloom demonstra uma franqueza bem-vinda sobre os escritores mais jovens. Em vez de alardear o fim do romance, declara que não tem competência para ler romancistas 50 anos mais moços do que ele. Logo em seguida, afirma que seu melhor aluno, Lucas Zwirner, ainda inédito, é um evidente romancista em formação. "Eu li gente como Jonathan Franzen, David Foster Wallace e variados Safran Foers, mas a sensibilidade mudou tanto que não devem confiar na minha reação."

Bloom aponta para o teto e diz que o sótão de sua casa abriga um manuscrito não publicado, Freud, Transferência e Autoridade, que encosta em 900 páginas e vai ser um problema póstumo de seus executores literários. "A minha ambivalência sobre Freud se tornou excessiva", confessa. Hoje, ele vê o criador da psicanálise não como cientista, mas como o grande ensaísta moral, o Montaigne do século 20. "Uma definição que ele detestaria."

Por falar em livros longos, Bloom diz que está quase acabando de escrever outro, "especialmente importante para mim". O título, que cita um poema de Ralph Waldo Emerson, será: Os Espíritos Sabem Como Se Faz, Tradição Oculta na Literatura Americana, um exame da obra de dez autores.

Enquanto trocamos histórias pessoais, o professor dá outro sinal do caminho percorrido na carreira literária de seis décadas, ao anunciar que espera um telefonema do New York Times. "Chegou a hora", diz, "embora eu não tenha a menor intenção de morrer, de atualizar o meu obituário, que eles escreveram há vários anos. E o pior, não vou poder nem ler quando ficar pronto." Ele disca o número da repórter e diz: "Estava me sentindo tão vivo, que tarefa melancólica". Mas logo brinca: "... considerando a alternativa..." A repórter o consola, dizendo que vai telefonar de volta em cinco anos, já que ele não para de produzir. "Em 5, 10 ou 15 anos", protesta o professor e conta que três ciganas, em três países, leram a palma da sua mão. Previram que ele vai viver 89 anos, 3 meses e 11 dias e admite, sorrindo, esperar um certo nervosismo na manhã do décimo primeiro dia. "No fim das contas", ele diz, contemplativo, "o que eu faço é salvar as aparências, no sentido mais decente da palavra. É tentar preservar a continuidade da literatura e do pensamento do Ocidente."

Fonte: Entre os livros como um modo de vida - Estadão

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas

O escritor T. S. Eliot

Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a "linguagem coloquial".

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico "Daily Telegraph", mostram que a atividade do cérebro "dispara" quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram que a poesia "é mais útil que os livros de autoajuda", já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

"A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças", explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Oscar 2013 já tem um vencedor: Michael Haneke



Filme "Amor" recebe cinco indicações, após dar ao diretor austríaco sua segunda Palma de Ouro em Cannes

O cineasta austríaco Michael Haneke
Rogério Simões

Muito já se fala sobre as 12 indicações ao Oscar obtidas por Lincoln, de Steven Spielberg. Todas esperadas. Se há alguma surpresa e motivo de celebração no anúncio feito pela Academia nesta quinta-feira, é o reconhecimento por Hollywood de um dos maiores diretores vivos. Menos de um ano depois de receber a Palma de Ouro em Cannes, o austríaco Michael Haneke levou seu mais recente filme, Amor, ao centro da disputa pelo Oscar. Amor, uma co-produção austríaca, alemã e francesa falada em francês, recebeu nada menos que cinco indicações, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Emmanuelle Riva). Haneke foi pessoalmente indicado aos prêmios de melhor diretor – que não conta com os antes favoritos Ben Affleck e Kathryn Bigelow – e de melhor roteiro original. Acima das expectativas, mas não da qualidade desse grande cineasta.

Michael Haneke é uma força que tomou de assalto o cinema mundial na virada do século. Aos 70 anos, ele é responsável por uma produção pequena para sua idade, mas extensa em riqueza e impacto. Nenhum de seus 11 filmes se encaixa em categorias tradicionais ou pode receber adjetivos previsíveis sem que tais descrições sejam questionadas – especialmente pelo próprio autor. Haneke já tratou das difíceis relações entre franceses e argelinos, da falta de sentido na vida de uma típica família de classe média-alta, da polêmica história alemã no início do século XX, de uma pianista sadomasoquista e do fim do mundo. Em comum, está o efeito perturbador de seus filmes. Difícil sair de uma obra de Haneke com as pernas firmes, o pensamento claro e o peito leve. O objetivo do austríaco é incomodar e transformar o espectador. Isso sem entregar respostas às naturais perguntas que nascem de suas tramas. Quem matou? Por quê? Qual a relação entre aqueles dois personagens? Haneke evita soluções fáceis. Quer que o público tire suas próprias conclusões, a partir de suas mentes em estado de ebulição, indignação e dúvidas. O cinema de Michael Haneke é como a vida: muito rico e emocionante, mas não é fácil.

Em Amor, o incômodo proposto por Haneke é universal. Ao tratar de forma dura e explícita as dificuldades do envelhecimento humano, Haneke propõe atingir o público a partir da perspectiva de sofrimento futuro – de um parente ou da própria pessoa. Extremas, as situações apresentadas por Haneke em seus filmes tocam o espectador por sugerir uma possibilidade de dor ou medo. A perversa automutilação da personagem de Isabelle Huppert, em A Professora de Piano (2001), a ausência de civilidade diante do apocalípse em O Tempo do Lobo (2003) e as humilhações exibidas em A Fita Branca (2009) nos assustam e intimidam. A tortura sádica, injustificável e sem sentido de Violência Gratuita (1997 e 2008) nos lembra da capacidade destruidora do ser humano e de como ela pode, facilmente, se aproximar de nós. A decisão de Haneke de refilmar Violência Gratuita nos Estados Unidos, 11 anos depois da sua produção original na Alemanha, causou repulsa em muitos que já haviam se sentido perturbados pela primeira versão. Levar a história ao público americano, em inglês, com Naomi Watts e Tim Roth nos papeis principais, foi uma forma de Haneke dizer a todos: o horror inexplicável pode estar mais próximo do que imaginamos. “Há tanto mal quanto bem em todos nós”, disse ele ao jornal The Guardian, em 2009.

Michael Haneke começou tarde no cinema. Depois de estudar filosofia e psicologia e trabalhar como diretor de programas de TV, lançou seu primeiro filme, O Sétimo Continente (1989), aos 47 anos. De lá para cá, já venceu a Palma de Ouro de Cannes duas vezes (com A Fita Branca e Amor) e colecionou inúmeros outros prêmios ao redor do planeta. A Fita Branca, também vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, só não levou o Oscar em 2010 porque encontrou pela frente o excepcional argentino O Segredo dos Seus Olhos. Agora o Oscar rende-se a Haneke e o coloca em seu devido lugar: no topo do cinema mundial. Esse gênio austríaco caminha para ser reconhecido como a maior força criativa do cinema no século XXI.

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