terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Oscar 2016 - O menino e o mundo: A triste vida dos adultos

Bruno Carmelo

Os traços desta animação brasileira sugerem a ingenuidade, a infantilidade. O personagem principal é desenhado com um rabisco simples, em 2D, sobre espaços brancos remetendo a folhas de papel. A evolução do cinema animado tem sido cada vez mais associada ao desenvolvimento tecnológico, de modo que assistir a O Menino e o Mundo provoca uma surpresa. Enquanto as grandes produções buscam os traços realistas (como o cabelo ultra natural do príncipe de Shrek, ou a grande expressividade do robô Wall-E) para compor mundos mágicos, este filme faz o caminho inverso: usa traços que beiram o surreal para falar de um Brasil bastante palpável e contemporâneo.

O Menino e o Mundo - FotoA história, sabiamente contada sem palavra alguma (algo que pode facilitar a exportação do filme), mostra uma criança pobre cujo pai abandona a família para ir trabalhar em algum lugar distante. O cenário familiar é rural, mas o mundo para onde partem os adultos é o da cidade grande. Estes ambientes – personagens centrais à trama – ganham uma caracterização expressiva e inteligente: enquanto o campo é simbolizado por pequenos traços coloridos (referente à grama, à felicidade), a cidade é uma mistura cinzenta de pesadelo futurista (com favelas em formas de cones) e pastiche do capitalismo (outdoors, televisores por todos os lados). O trem que atravessa a fazenda nada mais é do que um monstro gigantesco, como uma serpente, que engole os adultos e depois desaparece no espaço branco, sem devolvê-los mais.

Com um ritmo agradável, sem apelar para a montagem frenética das animações infantis hollywoodianas, o diretor Alê Abreu dedica-se a representar de maneira lúdica os espaços e as configurações do mundo contemporâneo. A exploração dos agricultores, a falência das fábricas, a tristeza dos tecelões, a precariedade dos artistas de rua, a falta de estrutura nas comunidades carentes, o regime militar... Tudo é retratado de modo a misturar o sonho (a bela música das favelas) com o pesadelo (os tanques de guerra, transformados em animais gigantescos). Os pobres são humanizados ao máximo, com a câmera próxima dos pequenos traços que representam os seus olhos tristes, já os poderosos estão escondidos atrás de tanques e veículos potentes.

O Menino e O Mundo também impressiona pela mistura de técnicas, incluindo colagens, carros feitos por computador (representando a desigualdade social) e mesmo imagens em estilo documentário, de árvores sendo cortadas em florestas. Junto da trilha sonora de cunho social, composta pelo rapper Emicida, fica evidente a notável ambição deste filme de entreter ao mesmo tempo em que estabelece uma mensagem muito clara sobre a sociedade atual. Talvez as crianças não consigam entender todas as referências históricas, mas nem precisa: a simples sensibilização às desigualdades como mensagem central já é um tema raro e precioso em meio a tantas produções que preferem martelar na cabeça dos pequenos os mesmos valores de amor familiar.

Esta acaba sendo uma produção triste, amarga, por trás do tom colorido da superfície. O Menino e o Mundo lembra produções como A Viagem de Chihiro ou O Mágico, de mestres da animação Hayao Miyazaki e Sylvain Chomet, que contrastaram muito bem o mundo idealizado da infância à vida embrutecida dos adultos. O tom de melancolia impregna este filme de excelente qualidade técnica, além de uma inventividade ímpar na representação dos espaços e do som (quer cena mais bonita do que o garoto guardando numa caixa a música tocada pelo seu pai?). Esta é uma produção capaz de divertir e suscitar a reflexão de crianças e adultos, por razões diferentes e em níveis distintos. Estas qualidades fazem de O Menino e o Mundo um filme muito mais complexo e rico do que os seus simples traços permitem imaginar.

Fonte: Adoro Cinema




Indicação ao Oscar 2016
> Melhor animação

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Oscar 2016 - "Os Oito Odiados": 8 motivos para amar ou odiar o novo filme de Tarantino

Diego Assis
Natalia Engler

O oitavo filme de Quentin Tarantino como diretor, "Os Oito Odiados", chega ao Brasil  depois de ter dividido a crítica em sua estreia nos Estados Unidos. 

No longa, que se passa alguns anos depois da Guerra Civil americana, um grupo de desconhecidos é obrigado a passar a noite em uma estalagem isolada durante uma nevasca. Entre os presentes estão os caçadores de recompensa Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e John Ruth (Kurt Russell). Este último está transportando uma foragida da justiça, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), e logo desconfia que alguém no grupo está ali para libertá-la. A tensão logo sairá do controle para desembocar em uma situação bem tarantinesca.

Apesar da premissa interessante, nem todo mundo continua fã incondicional do diretor de "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction" depois de assistir ao filme, e o longa alcançou uma média em torno de apenas 70% de aprovação em sites como o Metacritic e o Rotten Tomatoes, que reúnem e quantificam as avaliações dos críticos de cinema dos principais jornais e veículos do mundo.

Na redação do UOL, não foi diferente: teve quem aplaudisse e quem torcesse o nariz para o longa. Na impossibilidade de chegar a um acordo, listamos quatro motivos para amar e quatro motivos para odiar "Os Oito Odiados". Sirva-se à vontade e deixe o seu veredito na área de comentários abaixo.

4 motivos para amar "Os Oito Odiados"

> O elenco

Se tem uma coisa que Tarantino sabe fazer como ninguém é escalar o seu time - um mix de velhos conhecidos da casa com atores consagrados, mas ligeiramente esquecidos. Nesse quesito, "Os Oito Odiados" é uma festa: tem Samuel L. Jackson em seu melhor papel em um filme de Tarantino desde "Pulp Fiction", tem Tim Roth e Michael Madsen emprestando o charme vintage de "Cães de Aluguel", tem Kurt Russell com credenciais que são a cara do diretor (astro de ação meio decadente, ex-talento mirim da Disney, anti-herói de filmes de John Carpenter, sósia de Elvis Presley em "3000 Milhas para o Inferno"...). Mas nada disso adiantaria não fosse o talento único de Tarantino para dirigir seu elenco, especialmente nos longos e intrincados diálogos que já se tornaram sua marca registrada.

>A trilha sonora

Assim como bons olhos para escolher atores, Tarantino tem também uma sensibilidade ímpar para trabalhar as trilhas em seus filmes, garimpando e costurando pérolas da soul music, do pop radiofônico e das próprias trilhas de outros filmes antigos, fazendo-as servir ao clima que deseja dar à cena. Neste "Oito Odiados" ele passa a batuta para o compositor Ennio Morricone, que talvez você possa não conhecer de nome, mas certamente vai reconhecer "de ouvido" se já assistiu a um clássico de faroeste na vida. É essa música instrumental, ora sutil e minimalista, ora mais dinâmica e épica, que acompanha o público do começo ao fim do filme, ajudando a criar a atmosfera de suspense e ameaça à espreita que o roteiro - em que ninguém é exatamente o que parece ser - exige.

> O passado --e o futuro-- do cinema

Não se engane pelo cenário e os personagens: há muito mais que uma homenagem aos filmes de faroeste de Sergio Leone e John Ford em "Os Oito Odiados". Como tudo no "metacinema" de Tarantino, há também citações a outros clássicos do cinema e da literatura, às histórias de mistério de Agatha Christie e do detetive Sherlock Holmes e a diretores como Alfred Hitchcock e Robert Altman. Sua paixão e dedicação pela história do cinema é tamanha que ele mandou praticamente "ressuscitar" um formato esquecido de negativo de cinema, o Ultra Panavision 70, para gravar e projetar o novo longa do jeito que imaginou. Se as salas de cinema não fecham as portas de uma vez por todas e se rendem a formatos bem mais cômodos - como as projeções digitais e serviços de "cinema em casa" como o Netflix -, é a caras como ele e Martin Scorsese que você deve agradecer.

> Porque parece "Cães de Aluguel"

De uns tempos para cá, parece que releitura virou pecado. Primeiro, os fãs xiitas de "Star Wars" reclamando que o novo "O Despertar da Força" é cópia do original, "Uma Nova Esperança". Agora, bastaram as primeiras sessões de "Os Oito Odiados" para parte da crítica e do público desdenhar do filme como mais do mesmo: "Ele já fez isso em 'Cães de Aluguel'..." Bem, "Cães de Aluguel", de 1992, foi o primeiro longa de Tarantino e apontado pelo próprio como um de seus melhores trabalhos. Então por que, 24 anos depois, mais experiente e maduro, ele não pode revisitar algo que deu certo, mudar alguns ingredientes e servir numa nova embalagem? Sim, o filme usa o mesmo recurso de confinar personagens em uma sala enquanto um mistério vai sendo aos poucos revelado/desvendado, mas até aí podemos dizer o mesmo de "Festim Diabólico" (1948), de "12 Homens e uma Sentença" (1957), de "O Anjo Exterminador" (1962), de "Assassinato em Gosford Park" (2001) e até de "Jogos Mortais" (2004), ora bolas!


4 motivos para odiar "Os Oito Odiados"

> Porque parece "Cães de Aluguel" --só que pior

Você já sabe que "Os Oito Odiados" foi comparado a "Cães de Aluguel", um dos melhores filmes de Tarantino. Mas isso não é necessariamente bom. De fato, os melhores momentos do novo longa emergem da repetição da fórmula do primeiro filme do diretor: alguém não é exatamente quem diz ser e os personagens tentam não perder a cabeça enquanto especulam quem é o traidor, antes que tudo acabe em um inevitável banho de sangue. A repetição já dá indicações sobre como as coisas vão se desenrolar, tirando um pouco da graça, mas isso não seria um problema se a execução nos reservasse pequenas revelações e bons momentos. Só que as soluções dadas aqui pelo diretor não têm metade da elegância do filme de 1992.

> O didatismo excessivo

Até chegar ao ápice, "Os Oito Odiados" é bem quadrado em seu formato, dividido em capítulos, e com diálogos didáticos, que apresentam ao espectador quase toda a história pregressa dos personagens principais, ou ao menos versões delas. Até aí, até que não incomoda tanto. Mas, quando o mistério está prestes a ser revelado, a ação é interrompida por uma explicação minuciosa de tudo que havia sido ocultado até o momento, em forma de flashback, com direito a narração do próprio Tarantino, para assegurar que o público não perca nada de importante. OK, sabemos que é uma referência a filmes de mistério no estilo Agatha Christie, mas faz pouco sentido revelar tudo antes mesmo do nosso Poirot ter descoberto a verdade. 

> A misoginia

Quando o filme começa, ficamos com a impressão de que Daisy (Jennifer Jason Leigh) será um dos pontos centrais da trama, já que ela é o motivo que leva quase todos os personagens à estalagem isolada onde se encontram. Mas, conforme a história avança, ela nunca assume uma posição ativa. É sempre objeto, principalmente da violência e desprezo dos outros personagens, prontos a arrastá-la para lá e para cá com uma corrente e espancá-la gratuitamente, transformando-a em um caricatural saco de pancadas --olho roxo, dentes quebrados, rosto coberto de sangue... Não ficamos sabendo nem mesmo quais os crimes terríveis cometidos por ela, que justificam o alto preço oferecido por sua cabeça, e até seu final será menos digno do que o dos outros personagens, embora logo fique claro que ninguém vai se dar bem ali.

> A violência pela violência

Quando "Os Oito Odiados" termina, tem-se a impressão de que Tarantino tentou entregar um comentário sobre a bizarra colcha de retalhos que forma a sociedade norte-americana atual, as consequências da escravidão, o racismo e as ressonâncias que a Guerra Civil tem até hoje. Mas a crítica nunca toma uma forma coesa e todo seu potencial escapa pelos dedos do diretor quando o filme finalmente se torna o banho de sangue prometido desde o começo. No final, dissolvem-se as referências aos faroestes e filmes de mistério e tudo se resolve como em um terror B: com carnificina e sadismo, em um nível excessivo até para um filme de Tarantino. A premissa que sobra é: se você colocar um bando de pessoas perversas em um mesmo espaço, elas vão acabar se matando. O único mistério é como - e esse como não justifica as quase três horas de sangue e alguns diálogos espertos. Sobra um niilismo cansativo e autorreferente.

Fonte:  Cinema UOL

Indicações ao Oscar  2016:
> Melhor trilha sonora
> Melhor atriz coadjuvante
> Melhor fotografia

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Dia dos namorados - Uma história de amor em um campo de concentração nazista

Manhã fria de 1942. Em um campo de concentração nazista, Shimon olha através de uma cerca de arame farpado e vê uma jovem linda como a luz do sol, seu nome é Anne. A garota também o vê e seu coração pula como um cabrito perseguido por um enxame de abelhas. Ela quer expressar seus sentimentos e atira uma maçã vermelha pela cerca. A maçã lhe traz vida, esperança e amor. Shimon a recolhe e um raio de luz ilumina seu mundo obscuro. Ele não dorme aquela noite. O rosto angelical e o sorriso tímido de Anne vêm à sua lembrança.

No dia seguinte, tem uma vontade louca de tornar a vê-la. Aproxima-se outra vez da cerca e, para sua surpresa, vê Anne de novo. Ela aguarda a chegada misteriosa do jovem que tocou seu coração. Ali está ela, com outra maçã vermelha na mão.

Faz muito frio. O vento gelado sopra, produzindo um lamento tris­te. Apesar disso, dois corações se aquecem pelo amor enquanto as ma­çãs atravessam a cerca. O incidente se repete vários dias. Dois jovens, de lados opostos da cerca, buscam um ao outro. Só por um momento. Apenas para trocar olhares ternos. O encontro é chama que arde. O sentimento inexplicá­vel de ambos é o combustível.

Certo dia, ao fim desses momentos doces, Shimon lhe diz com ex­pressão triste:

─ Amanhã não me traga a maçã. Não estarei mais aqui; vou ser en­viada a outro campo de concentração.

Aquela tarde o rapaz vai triste, com o coração partido. Talvez nun­ca mais volte a vê-la.

Desde aquele dia, a imagem linda da doce jovem aparece em sua mente em momentos de tristeza. Seus olhos, as poucas palavras, a maçã vermelha. Para ele, tudo é alegria na tristeza. Sua família morre na guer­ra. Sua vida é quase destruída, mas nos momentos mais difíceis a imagem da jovem de sorriso tímido lhe traz alegria, alento e esperança.

Os anos passam. Um dia, nos Estados Unidos, dois adultos se conhe­cem por acaso em um restaurante. Conversam da vida. Falam de seus en­contros e desencontros.

─ Bem, onde você esteve durante a guerra? - pergunta a mulher.

─ Estive em um campo de concentração na Alemanha - respon­de o homem.
Eu me lembro de que jogava maçãs através da cerca a um jovem que também estava no campo de concentração - recorda a mulher.

Com o coração aos saltos, quase lhe saindo pela boca, o homem balbucia:

─ E este jovem lhe disse um dia: "Amanhã não me traga a maçã, porque que vão me levar para outro campo de concentração"?

─ Sim - ela responde, pressentindo algo maravilhoso. ─Mas como você pode saber isso?
Ele a olha nos olhos, como se olha para uma estrela, e lhe diz:

─ Eu era esse jovem.

Silêncio. Tantas lembranças, tanta saudade, tanta esperança de vol­tar a vê-la! As palavras quase não lhe saem, mas continua:

─ Separaram-me de você um dia, mas nunca perdi a esperança de voltar a vê-la. Quer se casar comigo?
Abraçam-se bem forte, enquanto ela sussurra em seus ouvidos:

─ Sim, claro que sim, mil vezes sim.



Os nomes dos personagens são fictícios, porém a história é real. Em 1996, em um programa de Oprah Winfrey em rede nacional nos EUA, após relato desta história, Shimon disse a Anne: “Você me alimentou em um campo de concentração, me alimentou de esperança ao longo dos anos. Agora eu continuo com fome, mas apenas com fome de seu amor”.
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