domingo, 30 de setembro de 2012

"Tenho direito de contar minha vida" afirma Salman Rushdie


Esparramado numa poltrona, os pés repousados na mesinha de centro do escritório de seu agente literário, Salman Rushdie nem parecia o homem que por quase dez anos viveu escondido com a cabeça a prêmio.

Foi desse modo relaxado, mas sempre solícito, que o escritor recebeu a Folha há duas semanas para uma entrevista, a única a um jornal brasileiro, sobre "Joseph Anton". Na conversa de 53 minutos, Rushdie disse que publicar suas memórias foi como "tirar um peso das costas". Falou sobre o medo da morte, a relação com os policiais que o protegeram, projetos futuros, futebol e críquete.

(* A entrevista é longa, mas vale a pena conferir!)

Salman Rushdie, em 1988
na ocasião da publicação de "Versos Satânicos"
Folha - Por que o sr. escreveu suas memórias na terceira pessoa, e não na primeira?
Salman Rushdie - Curiosamente, eu comecei tentando escrever na primeira pessoa, mas odiei. Pareceu-me narcicístico [risos]. Não sei por que, pois escrevi romances na primeira pessoa e não tive problemas. Mas de certa forma, nesse livro, eu realmente fiquei inquieto com isso. [Disse] "Não quero escrever assim". Uma das razões é que eu quis que o livro parecesse romanceado, os personagens e a história foram concebidos como num romance. Então pensei: vejamos o que acontece se eu me puser de lado e me descrever como se fosse outro dos personagens da história. Assim, a narração mudou da primeira para a terceira pessoa. E bastou um dia escrevendo desse modo para eu ver que era o correto. Foi como uma revelação: "Sim, agora eu sei como escrever o livro".

E, de certo modo, Joseph Anton é outra pessoa...
Isso é apenas um artifício, um nome que tive de inventar. Mas a verdade é que sempre desgostei intensamente desse nome. Detestei ter que criar outro nome, detestei o fato de que os policiais me chamavam de "Joe". Só o usei como título do livro para mostrar às pessoas como esses dias foram estranhos. A ideia de te pedirem para você trocar de nome é algo profundo. Alguém te dizer "você não pode ser mais conhecido por seu nome, terá de mudar de nome". E, para mim, isso também se conecta com o fato de que meu pai inventou o nosso sobrenome [Rushdie é uma homenagem ao filósofo árabe-espanhol Ibn Rushd, ou Averróis, um crítico do literalismo islâmico], então esse é inventado também. Tudo é invenção. Eu me peguei ficcionalizando a mim mesmo.

Não acha que o uso da terceira pessoa pode soar meio arrogante? Pelé, por exemplo, só se refere a si mesmo na terceira pessoa, alegando que é para distinguir o homem, Édson, do jogador e mito, Pelé...
[Risos] Não, acho que a forma falada é diferente. É diferente você se referir a si mesmo na terceira pessoa falando --isso é muito estranho. Mas foi apenas para criar um clima romanesco. Mas acho que, na realidade, após poucas páginas as pessoas se esquecem e passa a ser natural.

O sr. costuma dizer que preferiria que as pessoas soubessem menos sobre sua vida e mais sobre meus livros. Com estas memórias elas saberão bem mais sobre sua vida. Como se sente com isso?
[Risos] É algo que me deixa num grande conflito. Por um lado, eu sempre soube que em algum momento seria necessário escrever esse livro, contar essa história. Aqui estamos, o momento chegou. Mas você está completamente certo, há 20 anos eu luto com esse problema de muita gente me conhecer por causa de um fato jornalístico muito mais do que por minha obra. Sempre achei uma inversão, uma loucura. Preferiria muito mais ser conhecido como autor dos meus livros do que como a pessoa no centro dessa notícia. Mas o que se pode fazer, você não tem como evitar sua vida, e isso me aconteceu, e era uma história que precisava ser escrita, e aqui está ela. Mas sinto um pouco como se tivesse tirado um peso de minhas costas. Agora que o livro está escrito, penso em não voltar a falar nisso novamente. Uma vez que está tudo ali, se me perguntarem sobre esse período direi, "leia o maldito livro, está tudo lá". Espero que seja uma maneira de demarcar uma linha sobre o passado, de dizer, sim, isso aconteceu, essa é a história do que aconteceu. Agora podemos seguir adiante.

O livro mistura momentos de grande tensão --como o dia em que seu filho Zafar sumiu, que o sr. descreve como o pior dia de sua vida-- com outros muito engraçados --caso da peruca que não deu certo, a meditação com Allen Ginsberg, o beijo na boca que Hugh Grant deu no sr.... Como atingiu isso? O sr. usou fórmulas da ficção para escrever suas memórias?
Não, essas coisas todas aconteceram. Apenas eu tive essa vida louca [risos]. Somente tenho senso de escritor o bastante para saber o que é engraçado e o que é amedrontador, e que é bom misturá-los. Acho que às vezes havia uma espécie de surrealismo cômico no que aconteceu comigo. Há uma descrição sobre a primeira viagem que pude fazer aos EUA epois da "fatwa", quando fui falar na Universidade Columbia, a e polícia americana foi, vamos dizer, excêntrica [risos].

E eles queriam ser discretos...
Pois é. E eles também suspeitaram que minha então namorada, que se tornaria minha mulher, poderia ser perigosa. Eu disse a um oficial de polícia que Elizabeth era legal, gente boa, que era minha namorada. Sabe o que ele me disse: "Se eu quisesse matar você, ela seria exatamente a pessoa que eu escolheria" [risos]. Sim, houve coisas cômicas, num tempo que não era cômico. Mas acho interessane esse contraste --mesmo em meio a esse período escuro, podia haver comédias absurdas.

À exceção do que o sr. chama de "Erro", com maíuscula --a capitulação esboçada no ensaio "Por que Sou Muçulmano"--, o que o sr. teria feito de diferente em relação a hoje?
Sabe, já me fiz muito essa pergunta. Acho que uma das coisas que teria rejeitado seria abandonar minha casa. Naqueles tempos conversei bastante com policiais que me protegiam e eles diziam que literalmente todos que haviam recebido proteção eram protegidos em suas casas. Diziam que não eram treinados para ocultar pessoas, mas para protegê-las. O modo padrão de fazer isso neste país é que você continue em sua casa, e a polícia uniformizada protege a propriedade. E a divisão especial protege o indivíduo, ou seja, se você se move, deixa a casa, a divisão especial te leva aonde você for. Eu não estava autorizado a voltar para minha casa, e não entendia o motivo. A resposta é: porque assim é mais barato [para a polícia]. Mais barato para eles, não para o sr., que pagou os aluguéis e despesas do próprio bolso...
Sim, mais barato para eles, e muito caro para mim.

E é curioso, porque o sr. se mudou muitas vezes nos primeiros anos... Eu contei 18 lugares diferentes nos três primeiros anos, o sr. já calculou o número exato?
Já calculei, mas agora não me lembro. Nos dois primeiros anos, 1989 e 1990, houve muitas mudanças. Depois disso pude alugar a casa em que fiquei por quase um ano, uns nove meses. E depois eu comprei a casa em que morei por sete anos. Então parou, e foi o momento em que as coisas se estabilizaram e consegui me restabelecer, ficar mais ativo e trabalhar melhor.

A todo instante no livro o sr. reitera que viver escondido é uma humilhação. De algum modo o sr. extraiu também boas coisas dessa experiência?
Foi interessante descobrir que não sou louco. Tudo isso me mostrou que meu vigor mental é bem maior do que eu poderia supor. Uma situação assim pode ser muito prejudicial mentalmente, especialmente se ela se prolonga por uma década. Conversei com outras pessoas que viveram isso... como um juiz britânico que era ameaçado pelo IRA e teve que viver em condições semelhantes, escondido, teve de deixar sua casa etc. No caso dele durou cinco ou seis meses apenas, até que o IRA decidiu que não queria mais matá-lo e ele pôde voltar pra casa. Ele me disse, e ele é mais velho que eu, que foi mentalmente muito perturbador para ele e, mais ainda, para a mulher dele, que também teve de deixar sua casa e ficou absolutamente abalada. É algo danoso existencialmente ser arrancado à força do lugar onde você vive. E eu fiquei muito desequilibrado por um tempo, mas foi interessante perceber que saí de tudo razoavelmente ileso, o que significa que talvez eu seja mais resistente do que pensava.

E a chave para isso foi o trabalho, como o sr. escreveu?
A chave foram duas coisas: trabalho e um grupo muito leal e próximo de pessoas à minha volta, que deixaram claro que tomariam conta de mim e me ajudariam.

Amigos e policiais...
Sim, a polícia também, mas estou falando sobre amizade.

Salvo engano, o sr. não se refere diretamente ao medo de morrer (o sr. fala num trecho que "havia a questão de saúde e a questão correlata do medo", quando fala de exames médicos a que se submeteu). O sr. não teve medo de ser assassinado?
Não acho que fosse exatamente medo, era mais como depressão. Logo no começo, e descrevo isso no livro, quando ouvi pela primeira vez isso [a sentença de morte], presumi que estaria morto em poucos dias. Se você me perguntasse quantos dias eu achava que viveria, eu provavelmente responderia "menos de dez dias". Essa foi a situação inicial. Depois disso... Eu tinha 41 anos, e achava muito improvável que chegasse ao meu 42º aniversário. Agora estou com 65, então não fui tão mal... Mas não se manifesta exatamente como medo, mas como aturdimento, sentimento de desequilíbrio e de incerteza de qual é a melhor maneira de agir, tornou-se muito difícil julgar qual era a ação correta, qual era a errada. Eu ficava muito chateado de ver as pessoas me descrevendo publicamente em termos que me pareciam muito falsos, às vezes ficava com raiva por isso, noutras estressado. Então havia um turbilhão de coisas dentro de mim, de que eu me recordo muito vivamente, mas não era tão comum que eu pensasse, "oh, eu estou com medo". Havia muito mais coisa com que me incomodar. E acho também que até certo ponto eu rapidamente gostei das pessoas que cuidavam de mim, parecia claro que faziam muito bem o seu trabalho. Então comecei a confiar neles, a pensar que aqueles caras sabiam o que estavam fazendo. E isso amenizou o tema do medo.

O sr. escreve que naquele período viveu numa "bolha". Hoje o sr. está 100% fora da "bolha"?
Estou descobrindo as perguntas favoritas sobre este livro [risos]. Uma é: você está realmente bem agora, ou ainda há perigo? A outra é: se você soubesse o que aconteceria, repetiria o que fez? Todo jornalista faz estas perguntas, todo. A verdade é que se passaram mais de dez anos [do fim da ameaça efetiva]. A última cena do livro, quando a divisão especial vai embora, se passa em março de 2002. Desde então, eu não tenho mais polícia em minha vida. Tem sido bom. Há um ponto do livro em que conto que a polícia dizia para que eu não tratasse as coisas como 100% seguras, que isso não existe. Eles lembravam do atentado contra o presidente [americano Ronald] Reagan [em 1981, quando o republicano foi baleado], no qual, se você reparar, todos os agentes de segurança se comportavam impecavelmente. Ninguém fora de posição, reação muito rápida e, mesmo assim, o presidente foi baleado. Fiquei impressionado com isso, é uma análise reveladora. À medida que o tempo passou, foi ficando claro para mim que, se eu fosse esperar pelo dia que alguém disesse: "ok, Salman, agora está 100% seguro, tudo bem, acabou tudo, pode ir que nada acontecerá", esse dia nunca chegaria. Ninguém nunca me diria isso, porque, se algo desse errado, seria culpa desse alguém. Eu sabia que chegaria um momento em que eu teria de tomar essa decisão. E então houve a experiência de ir para os EUA, e foi dignificante, foi como se eu estivesse reconquistando algum tipo de controle sobre minha vida. Enquanto isso o nível de risco foi diminuindo cada vez mais, até chegar o ponto em que ficou muito baixo. Foi quando eles [o serviço secreto da polícia] disseram que não precisavam mais estar por perto. Eu fui os encorajando a dizer isso por cerca de um ano antes disso, porque não achava aceitável que eu fosse para os EUA e levasse uma vida comum --pegasse táxis, andasse de metrô--, sem dificuldades, e voltasse a Londres e fosse colocado num carro à prova de balas. E eu disse, "quer saber, isso não faz sentido; o que eu faço lá eu poderei fazer aqui", e os convenci que tínhamos chegado ao ponto de abrir mão de todo aquele esquema.

Pegar um táxi é uma imagem forte de liberdade para o sr. A cena final do livro é o sr. pegando um táxi...
Sim, porque boa parte da vida neste período era estar cercado por outras pessoas, eu não conseguia nem mesmo dirigir um carro --exceto quando ia para os EUA, onde alugava um carro e o dirigia eu mesmo, mas aqui fiquei uma década sem poder dirigir. O táxi também é um carro que você não dirige [risos], mas pelo menos você pode acenar a mão e pará-lo. Primeiro é porque de fato isso aconteceu naquele dia. E eu só queria terminar com uma imagem de retorno à vida comum. Outra coisa que aprendi sobre mim foi como eu me reajustei rapidamente. Em dois dias já não me sentia estranho. Pensei: "ok, provavelmente não é só comigo, isso provavelmente significa que seres humanos têm desejo por normalidade, pela vida comum". Isso é tão forte, temos uma necessidade tão grande disso, de sentir que o mundo é... banal, que o mundo é o que é --não é extraordinário, nem bizarro, nem surreal. Nós queremos viver este mundo.E quando fui devolvido a este mundo eu rapidamente me readaptei a ele. Há até mesmo uma certa distorção, algo meio cômico, de me pegar feliz esperando na fila de um supermercado, em vez de ter alguém pra fazer compras por mim. "Sim, vou esperar na fila, é legal". [risos] Eu apenas estava curtindo fazer de novo o que qualquer pessoa pode fazer e que eu não pude fazer por dez anos. Como conto no livro, naquela visita política que fiz a Paris e que de repente percebi que eles tinham fechado a place de la Concorde. E eu sempre fiquei com essa imagem, de um pequeno bistrô, cujos frequentadores ficaram olhando a caravana e perguntando "quem é esse cara por quem fecharam a place de la Concorde", enquanto o que eu mais queria era estar como eles naquele bistrô, tomando um café. Eu eu pensava comigo mesmo se algum dia poderia voltar a estar num lugar daqueles ou se o resto de minha vida seria aquela loucura. Então quando eu percebi que poderia ser de novo aquela pessoa sentada no bistrô tomando o café, fiquei muito feliz, foi como um presente da vida. Por isso é que a readaptação à vida comum é tão rápida, porque você a deseja muito.

Mas tudo acabou realmente, ou em algumas ocasiões o sr. ainda precisa de proteção policial? Hoje o sr. não conta com nenhuma proteção?
Não. Como eu disse, faz dez anos e meio [que não preciso]. Veja bem, não acabou a ponto de eu... eu não pretendo, por exemplo, passar férias em Teerã. Há lugares no mundo que seriam perigosos para mim, aos quais eu não posso ir. Como o Paquistão. Eles não me dariam visto e, se eu fosse, seria super-perigoso. Podemos ver como Paquistão ficou perigoso, eles matam pessoas todos o dias.

Eu pergunto por que recentemente o sr. teve problemas na Índia, teve de cancelar sua ida ao festival literário de Jaipur por causa de ameaças...
Sim, o episódio de Jaipur foi algo estúpido. Alguns políticos locais acharam que ganhariam votos dos muçulmanos se estimulassem reações contra mim. E acho que de certo modo a coisa foi meio mal conduzida pela organização do festival. A maior prova é que exatas três semanas depois eu fui falar numa conferência muito maior em Nova Déli e não houve problema algum --apesar de veículos menos escrupulosos da mídia indiana terem procurado os que me ameaçaram três semanas antes perguntando se não iriam fazer nada, e eles disseram "não", porque agora ninguém os estava pagando, a eleição já havia passado. Estive na Índia ao menos uma vez por ano, todo ano, nos últimos 12 anos. Não é difícil. Acabei de fazer um filme, a adaptação de [meu romance] "Os Filhos da Meia-Noite", [da qual escreveu o roteiro], que foi filmado no Sri Lanka e na Índia. Com a Índia eu não me preocupo. Mas fiquei muito aborrecido com a história de Jaipur, porque acho que foi meio mal conduzido, se os organizadores tivessem levado de outra maneira as coisas poderiam ter sido resolvidas. Às vezes quem é inexperiente com esse tipo de coisa entra em pânico, e acho que houve muito pânico nisso.

O livro revolve temas muito sensíveis e que, embora continuem na agenda global em termos gerais, de modo específico estavam de certo modo adormecidos, como suas críticas ao aiatolá Khomeini [a quem define como "assassino" no livro]. Que reações espera dos que ameaçaram o sr. no passado?
Eu não me importo. Essa é a história da minha vida e tenho o direito de contá-la. É isso. Minha visão, e é um tema a que me refiro com frequência no livro, é que a tática desses grupos extremistas é criar medo. Por trás de sua pergunta está o medo de que algo possa acontecer. Essa é exatamente a situação que eles querem criar. Criar medo, que significa não fazer o que é perfeitamente natural fazer. Não podemos nos permitir pensar assim. Não podemos dar a eles tanto poder. Temos que dizer que [publicar esse livro] é algo completamente legítimo. Essa é a história da mina vida, não falsifiquei nada, isso foi o que aconteceu.

O sr. transcreve apenas pequenos trechos de seus diários, mas há várias passagens no livro muito ricas em detalhes. É tudo de memória, ou o sr. mantém diários detalhados deste período?
Tudo veio dos diários. Eu os preservei com muito cuidado. Até 1988 eu não mantinha um diário, nunca tive o hábito. Quando tudo isso começou, eu pensei: ora, tanta coisa está acontecendo, o peso e a velocidade dos acontecimentos era tão grandes que, mesmo se você tiver uma memória muito boa não vai conseguir lembrar de tudo. Então comecei a escrever um diário. Primeiro tomando notas --era 1989, antes dos computadores pessoais. Até 1992 ou 1993, está tudo escrito em diários. A partir daí fiz no computador. Mas, sim, eu mantive diários muito detalhados. Quando voltei a relê-los, fiquei surpreso de quão detalhados eram, tinha muito mais informação do que eu conseguia lembrar. O material público não é tão difícil de recuperar --você pode pesquisar e descobrir que dia tal coisa aconteceu--, mas o material privado você não tem outra forma de fazer a não ser com um diário. Se eu quisesse, o livro poderia ser duas vezes maior, porque há muito material mesmo.

Há detalhes de diálogos...
Sim, quando eu descrevo discurso direto é porque tenho notas sobre aquilo.

E o sr. não considerou, ou não considera, a possibilidade de publicar os diários?
Não, porque são uma confusão. Conheço escritores que mantêm diários muito meticulosos, [a escritora e crítica americana] Susan Sontag [1933-2004] escreveu em seu diário todos os dias da vida. E o fez como se estivesse escrevendo [um livro], pronto para futura publicação. E neste caso, sim, os diários dela foram publicados e são textos notáveis, talvez sejam a coisa mais marcante que ela já escreveu, porque são quase 40 anos de diários e serão publicados em vários volumes. Os meus são mais em forma de notas. Mas o que me surpreendeu é que há muitos deles, que me deram material mais do que suficiente para eu escrever o livro.

Soube que o sr. acertou uma visita ao Brasil durante o período em que viveu escondido, mas acabou a cancelando por causa das demandas do esquema de segurança da Polícia Federal brasileira. O que aconteceu?
É verdade, você está certo. Eu tinha me esquecido disso. Você pode descobrir melhor com Luiz Schwarcz [editor da Companhia das Letras, que publica Rushdie no Brasil], porque ele lembra mais dos detalhes, foi ele quem conduziu toda a negociação. Mas é que eu tinha chegado a um ponto da vida em que o nível de segurança havia diminuído, não havia mais aquela emergência. E se fosse para ir ao Brasil para ficar cercado por homens armados, carros blindados etc, não teria uma experiência brasileira, vou só ficar nessa espécie de bolha artificial. E pensei: "Já tenho esse problema em casa, não preciso cruzar o mundo para continuar preso a uma rede de segurança".

Mas como começou --foi um convite de quem?
Eu não lembro mesmo. Pergunte a Luiz. [O editor relatou que partiu da Companhia das Letras a ideia, e que a própria editora abortou o projeto diante do megaesquema de segurança exigido pela PF]. O que me lembro é que, anos depois, quando já podíamos fazer as coisas, quando eu pude ir ao festival de Paraty [Flip], por exemplo, tudo se deu normalmente e eu passei ótimos momentos. Luiz é um velho amigo e teve muito cuidado de me proporcioná-los. Sempre lembro que na primeira vez que cheguei ao Rio, ele me disse: "Não vou fazer uma grande festa para você, seria melhor se jantássemos com alguns amigos". Eu disse: "Ok, ótimo". Fomos para o restaurante e percebi que toda a rua estava fechada. Eu perguntei: "Isso é por causa de mim?". "Não", ele disse, "há algumas outras pessoas importantes aí dentro". Entramos e estavam Chico Buarque, Caetano Veloso, Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Fernando Meirelles, Gilberto Gil faria um show... Foi um encontro impressionante.

Um pequeno jantar com amigos...
Um pequeno jantar, poucos amigos [risos]. E eu lembro de dizer: "Luiz, por que Gisele [Bündchen] não está aqui? Todos os outros brasileiros famosos estão aqui... "[gargalhadas] Parecia uma omissão, todos os outros estavam lá. Para mim foi extraordinário, porque foi minha introdução ao Brasil, entre essas pessoas extraordinárias.

Isso foi em 2005, quando o sr. veio pela primeira vez para a Flip?
Foi em 2004 ou 2005, sim, na primeira vez da Flip [embora a primeira vinda de Rushdie ao Brasil após a "fatwa" tinha sido em 2003, para a Bienal do Livro do Rio]. Lembro que João [Moreira] Salles estava lá e ele me perguntou se eu queria ir a um jogo de futebol. Claro que eu queria, e ele me levou ao Maracanã. Então minha primeira vez no Brasil foi muito impactante...

Lembra para qual jogo ele levou o sr.?
Foi a um jogo do Botafogo. Foi ótimo. O estádio não estava cheio, mas foi muito bom ter ido.

O sr. gosta de futebol, não?
Sim, claro. O futebol brasileiro é algo que todo mundo adora assistir. Eu me lembro de que... Porque Luiz já fez tanto por mim ao longo dos anos. Então quando houve a Copa da Alemanha [em 2006], um amigo alemão que é jornalista esportivo me ofereceu duas entradas para o jogo de estreia do Brasil, no Estádio Olímpico de Berlim. escrevi para Luiz: "Você quer vir?". E ele voou de São Paulo, "claro que quero ir". Meu amigo tinha conseguido uns lugares muito bons, bem no meio do estádio, na área VIP. E quando nós entramos e Luiz viu onde estávamos, ele começou a chorar. Disse: "Você nunca vai entender o que fez por mim". Ele me fez vestir uma camisa do Brasil. Felizmente vocês ganharam. Não jogaram tão bem, mas ganharam, acho que por 1 a 0 [foi este mesmo o placar]. Um ex-integrante da divisão especial da polícia que protegeu o sr., Ron Evans, escreveu um livro com críticas ao comportamento do sr. durante o período de proteção [processado por Rushdie, depois Evans afirmou a um tribunal que inventara as histórias, chegando a um acordo com o escritor]. O sr. leu o livro? O que tem a dizer sobre ele?
Sim, tive de ler por causa da ação de calúnia. Esse cara foi expulso da polícia porque foi descoberto que ele estava fraudando as suas despesas, ele foi demitido. E escreveu esse livro como que para se vingar. Há alguns capítulos sobre mim, porque ele foi um dos motoristas da minha equipe durante um pequeno período. Deve ter sido orientado por alguém, talvez por seu editor, a apimentar algumas histórias sobre mim. Então ele escreveu que eles me odiavam tanto que me trancaram num quartinho e foram para um bar. Antes de tudo, se um policial britânico armado tomar um drinque, ele é imediatamente expulso da polícia. Quando o livro saiu, os outros policiais se sentiram muito ofendidos. E havia muito mais lixo. Então um dos motivos para exibir essas entrevistas [com outros policiais] na BBC [num documentário sobre as memórias que será lançado em seguida ao livro] foi para mostrar que tudo ocorreu bem e que ainda nos damos bem. Eu conheço a vida dessas pessoas que cuidaram de mim, sei de suas famílias etc. Nos meus diários tenho material que permitiria escrever um livro só sobre eles. Não há muita gente nessa Divisão Especial que protege pessoas, talvez uns 200 integrantes. Eles são supertreinados, a cada quatro ou seis semanas têm que se submeter a novos testes com armas e precisam ter eficiência de quase 100%, algo como 96% ou 97%, senão perdem o direito de portar armas. E são treinados em várias outras técnicas, entre elas a de como ser discreto em volta da pessoa que estão protegendo. Porque eles sabem que são muito intrusivos. Colocar policiais armados na casa de alguém é realmente uma intromissão, especialmente se você tem mulher e filhos --é estranho. Não conheci todos, mas conheci muitos deles muito bem. E pensei como era esquisito que alguém sempre se viu como alguém de esquerda terminar cheio de amigos na polícia secreta britânica. É algo que nunca esperei acontecer [risos]. Um deles era muito interessado em críquete e era membro do MCC [Marylebone Cricket Club, um renomado clube inglês de críquete], então conseguiu ingressos para jogos no Lord's Cricket Ground, e eu sempre adorei o Lord's, acho um dos grandes lugares de Londres. Uma vez ele arranjou dois ingressos, e passei uma tarde maravilhosa com Harold Pinter no Lord's graças a esse policial.

O sr. joga ou jogou críquete?
Sim, eu costumava jogar, desde a escola. Sou da Índia, um país onde todo mundo joga críquete.

Alguns livreiros creem que, ironicamente, este será o seu livro mais comercial, que pode ser um best-seller. O que o sr. acha?
Terá de se sair muito bem para ser meu livro mais comercial, porque "Os Filhos da Meia-Noite" e "Os Versos Satânicos" venderam muito. Se este vender mais, ficarei muito feliz. Apenas na Inglaterra, "Os Filhos da Meia-Noite" vendeu bem mais que 1 milhão de exemplares, fora outros países de língua inglesa, e teve 46 traduções [após a polêmica em torno do livro, "Os Versos Satânicos" também superou a casa do milhão de exemplares pelo mundo].

Em que livros ou projetos sr. está trabalhando?
Tenho algumas coisinhas que acho que podem ser o começo de um novo romance, mas, para ser sincero, nos próximos meses estarei fazendo isso [divulgando "Joseph Anton"] e nem mesmo tenho tempo de pensar o que poderá vir depois. Também tem o filme de "Os Filhos da Meia-Noite" saindo [Rushdie esteve há poucos dias no Festival de Toronto, no Canadá, para première do filme]. E estou desenvolvendo uma série de TV, com o canal americano Showtime, "The Next People", uma espécie de ficção científica paranoica, terminei a segunda versão do roteiro, tenho que esperar a emissora aprovar para dar o próximo passo, que é escolher o diretor e o elenco e gravar o piloto. Se aprovarem o piloto, partiremos para a primeira temporada e haverá muito trabalho a fazer.

Algum plano de voltar ao Brasil?
Não, mas eu sempre acabo por lá. Gostaria de ir quando não tiver lançando um livro, porque o problema de ir na época do lançamento é que é tudo que dá pra fazer. E eu só estive no Rio, em São Paulo e em Paraty. Gostaria de viajar um pouco pelo país, é um país enorme, e eu só vi esta pequena parte dele, gostaria de explorá-lo. Na próxima vez acho que irei não por causa de um lançamento.

Talvez durante a Copa de 2014...
Sim, seria uma loucura, vou levar Luiz para retribuir a honra [risos].

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