Mostrando postagens com marcador Oscar 2013. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oscar 2013. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Spielberg tira fantasma de Lincoln do mármore



Otávio Frias Filho

Abraham Lincoln se elegeu presidente dos Estados Unidos em 1860 no auge do impasse entre o Norte capitalista e o Sul escravocrata. A questão era definir se o trabalho escravo seria permitido nos imensos territórios do Meio-Oeste, que logo se tornariam novos Estados.

Apesar de abolicionista, Lincoln foi eleito graças a uma plataforma moderada. Pretendia manter a escravidão no Sul, onde ela sustentava a economia local (fumo, algodão e açúcar), e vedá-la nos novos Estados. Essa proibição localizada, no entanto, foi vista pelo Sul como quebra inaceitável da autonomia estadual. A vitória de Lincoln deflagrou a secessão.

Entre a eleição e a posse, sete (logo seriam 11) dos então 33 Estados se desligaram da União. Embora houvesse, nos escritos dos fundadores da República, referências ao caráter indissolúvel da União, a Constituição silenciava a este respeito.

A rigor, o Sul exercia direito comparável ao reclamado pelas 13 Colônias quando, na solene Declaração de 1776, anunciaram seu desligamento da Coroa inglesa para criar os Estados Unidos.

Lincoln tomou a mais controvertida e crucial das decisões, impedir a secessão pela força, o que precipitou a Guerra Civil (1861-65) e acarretaria a abolição no país inteiro.

A população do Norte era o dobro da do Sul e sua capacidade industrial várias vezes maior -a vitória parecia questão de (pouco) tempo.

Enquanto Lincoln era enredado por generais hesitantes, porém, o Sul mostrou uma disposição aguerrida capaz de manter seu exército na dianteira em toda a primeira metade de guerra, que se arrastou por cinco anos. Numa nação de 31 milhões (4 milhões de cativos), morreram 600 mil soldados, o dobro das perdas americanas na Segunda Guerra Mundial.

Em 1863, quando a maré da guerra começava a virar, Lincoln emitiu uma proclamação que libertava escravos nos Estados sublevados, outra decisão de legalidade duvidosa, adotada a pretexto de "necessidade militar", já que os cativos eram usados pela logística do exército sulista.

Em 1865, depois de reeleito por ampla maioria e às vésperas da rendição do Sul devastado, Lincoln aprovou na Câmara a 13ª Emenda à Constituição, que abolia a escravidão em definitivo.

Tomada em retrospectiva, a história tem um apelo épico inigualável -o "self-made man" predestinado a ser presidente e vencer uma guerra em que o bem e o mal surgem claramente definidos, a fim de extirpar a infâmia da escravatura e estender a mão, vitorioso, aos derrotados.

AURA MITOLÓGICA

Com o desfecho do assassinato, em que o próprio presidente era oferecido como arremate do imenso holocausto, a figura de Lincoln foi alçada à máxima santidade, envolta numa densa aura mitológica composta por sedimentos crescentes de histórias, biografias, currículos escolares, poemas, canções, peças teatrais, filmes etc.

O êxito moral da emancipação soterrou as complexidades do drama.

Havia propostas de emancipação gradual; teria sido evitável a guerra? Sem ela, parece plausível que mais cedo ou mais tarde o Sul se reintegrasse à União. Além da questão principal, o Sul alegava as tarifas protecionistas do Norte, que exauriam sua economia ao obrigá-lo a comprar caro, como causa da separação.

Sua derrota arrasadora fomentou o ressentimento racial que seria a sina do país.

E, sob certo ângulo, a vitória do Norte foi mais um capítulo, como escreveu o crítico Edmund Wilson ("Patriotic Gore", Sangueira Patriótica, 1962), na ascensão imperial, guerra após guerra, de um capitalismo sem freios garantido pela maior máquina militar da História.

Mas a personalidade de Lincoln -mais do que a determinação e a habilidade do estadista, seus gestos de simpatia magnânima, a singeleza filosófica de suas anedotas, a qualidade literária de seus discursos, o senso de humor nos piores momentos- dissolve todo questionamento e revitaliza o mito a cada geração.

"KITSCH"

Em "Lincoln" (2012), Steven Spielberg parece abordar esse imponente monumento simbólico com cautela. De tão trafegado, o mito também se desgastou -ou foi recoberto por uma pátina "kitsch" de cafonice americana que o cineasta procura afastar como pode. Essa preocupação é glosada nas cenas iniciais, quando Lincoln só aparece de costas, como Cristo nos filmes antigos.

Dois dos criadores do cinema americano fizeram filmes sobre o personagem, com resultados desiguais. O de D.W. Griffith ("Abraham Lincoln", 1930) é uma galeria patriótica de cenas célebres; o resultado hoje parece tosco e previsível demais. Nada ilustra melhor o gigantesco salto narrativo e técnico do cinema americano do que compará-lo ao filme de John Ford ("A Mocidade de Lincoln", 1939).

Este focaliza um episódio da juventude, em que o então advogado interiorano evita o linchamento de um cliente e prova em juízo sua inocência num assassinato. Henry Fonda instila flexibilidade e leveza em seu Lincoln ainda matuto, mas já clarividente. Presos ao mármore do mito, os dois filmes terminam com grandiloquentes tomadas do monumento ao presidente-mártir em Washington.

Exceto pela música algo lamentosa, sobrou pouco daquela pátina endurecida no filme de Spielberg, e nada das peripécias de tantos de seus filmes anteriores.

Aqui predomina um diálogo vivo e espesso; quase toda a cena acontece em sombrios ambientes domésticos com os personagens envoltos por cobertores e fumaça na umidade gélida de Washington, a câmera tirando um elegante efeito claro-escuro do contraste com a luz (emancipatória?) das vidraças.

O roteiro, do dramaturgo Tony Kushner, foi baseado em mais uma torrencial biografia política de Lincoln, "Team of Rivals" ("Time de Rivais", 2005, de Doris Kearns Goodwin). O filme se concentra na aprovação da 13ª Emenda, episódio decisivo, mas que ocupa poucas páginas no final do livro.

Fragmentos de seu imenso teor narrativo foram introduzidos com destreza ao longo da película, que gira em torno do dilema -aguçado para efeitos dramáticos- entre apressar o fim da guerra ou o da escravidão.

Não é um filme memorável nem espetacular, mas persuasivo em sua sóbria seriedade. Maquiado como um cadáver, Daniel Day-Lewis compõe um símile fantasmagórico, quase embalsamado, mas seu Lincoln exala ao mesmo tempo uma familiaridade, acentuada pela dissonância do timbre agudo da voz, que evoca e supera o ancestral encarnado por Henry Fonda.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Oscar 2013 já tem um vencedor: Michael Haneke



Filme "Amor" recebe cinco indicações, após dar ao diretor austríaco sua segunda Palma de Ouro em Cannes

O cineasta austríaco Michael Haneke
Rogério Simões

Muito já se fala sobre as 12 indicações ao Oscar obtidas por Lincoln, de Steven Spielberg. Todas esperadas. Se há alguma surpresa e motivo de celebração no anúncio feito pela Academia nesta quinta-feira, é o reconhecimento por Hollywood de um dos maiores diretores vivos. Menos de um ano depois de receber a Palma de Ouro em Cannes, o austríaco Michael Haneke levou seu mais recente filme, Amor, ao centro da disputa pelo Oscar. Amor, uma co-produção austríaca, alemã e francesa falada em francês, recebeu nada menos que cinco indicações, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Emmanuelle Riva). Haneke foi pessoalmente indicado aos prêmios de melhor diretor – que não conta com os antes favoritos Ben Affleck e Kathryn Bigelow – e de melhor roteiro original. Acima das expectativas, mas não da qualidade desse grande cineasta.

Michael Haneke é uma força que tomou de assalto o cinema mundial na virada do século. Aos 70 anos, ele é responsável por uma produção pequena para sua idade, mas extensa em riqueza e impacto. Nenhum de seus 11 filmes se encaixa em categorias tradicionais ou pode receber adjetivos previsíveis sem que tais descrições sejam questionadas – especialmente pelo próprio autor. Haneke já tratou das difíceis relações entre franceses e argelinos, da falta de sentido na vida de uma típica família de classe média-alta, da polêmica história alemã no início do século XX, de uma pianista sadomasoquista e do fim do mundo. Em comum, está o efeito perturbador de seus filmes. Difícil sair de uma obra de Haneke com as pernas firmes, o pensamento claro e o peito leve. O objetivo do austríaco é incomodar e transformar o espectador. Isso sem entregar respostas às naturais perguntas que nascem de suas tramas. Quem matou? Por quê? Qual a relação entre aqueles dois personagens? Haneke evita soluções fáceis. Quer que o público tire suas próprias conclusões, a partir de suas mentes em estado de ebulição, indignação e dúvidas. O cinema de Michael Haneke é como a vida: muito rico e emocionante, mas não é fácil.

Em Amor, o incômodo proposto por Haneke é universal. Ao tratar de forma dura e explícita as dificuldades do envelhecimento humano, Haneke propõe atingir o público a partir da perspectiva de sofrimento futuro – de um parente ou da própria pessoa. Extremas, as situações apresentadas por Haneke em seus filmes tocam o espectador por sugerir uma possibilidade de dor ou medo. A perversa automutilação da personagem de Isabelle Huppert, em A Professora de Piano (2001), a ausência de civilidade diante do apocalípse em O Tempo do Lobo (2003) e as humilhações exibidas em A Fita Branca (2009) nos assustam e intimidam. A tortura sádica, injustificável e sem sentido de Violência Gratuita (1997 e 2008) nos lembra da capacidade destruidora do ser humano e de como ela pode, facilmente, se aproximar de nós. A decisão de Haneke de refilmar Violência Gratuita nos Estados Unidos, 11 anos depois da sua produção original na Alemanha, causou repulsa em muitos que já haviam se sentido perturbados pela primeira versão. Levar a história ao público americano, em inglês, com Naomi Watts e Tim Roth nos papeis principais, foi uma forma de Haneke dizer a todos: o horror inexplicável pode estar mais próximo do que imaginamos. “Há tanto mal quanto bem em todos nós”, disse ele ao jornal The Guardian, em 2009.

Michael Haneke começou tarde no cinema. Depois de estudar filosofia e psicologia e trabalhar como diretor de programas de TV, lançou seu primeiro filme, O Sétimo Continente (1989), aos 47 anos. De lá para cá, já venceu a Palma de Ouro de Cannes duas vezes (com A Fita Branca e Amor) e colecionou inúmeros outros prêmios ao redor do planeta. A Fita Branca, também vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, só não levou o Oscar em 2010 porque encontrou pela frente o excepcional argentino O Segredo dos Seus Olhos. Agora o Oscar rende-se a Haneke e o coloca em seu devido lugar: no topo do cinema mundial. Esse gênio austríaco caminha para ser reconhecido como a maior força criativa do cinema no século XXI.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...